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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 21.04.09

Estão verdes... não prestam!

Jorge Fiel

Das duas versões clássicas da fábula da «Raposa e das Uvas» prefiro claramente a moral da história tirada por La Fontaine.

 

Como devem estar lembrados, a situação é idêntica em ambas as versões, que apenas diferem na conclusão. Uma raposa faminta passa debaixo de uma parreira carregada de cachos de uvas bem maduras, mas altas demais. Por mais que pulasse não conseguiria abochanhá-las.

 

Na versão de Esopo (séc. VI aC) , a raposa olhou para os cachos e disse: «Estão verdes..»,. «É fácil desdenhar daquilo que não se alcança», concluiu o filósofo grego, tornando-se assim o remoto inspirador do moderno provérbio «quem desdenha quer comprar» . ,

 

Na versão de La Fontaine (sec. XVIII), a raposa seguiu o seu caminho, murmurando: «Estão verdes. . .  já vi que são azedas, duras. . ». «Adiantaria se chorasse?» – remata o poeta e fabulista francês. Eu interiorizei como um mandamento de vida, o pragmatismo do ensinamento tirado por La Fontaine da fábula da raposa.

 

Sonhar ser vizinho da Yoko Ono no Dakota Building (com vista para o Central Park), ter um apartamento no coração do Marais (preferencialmente na Place des Vosges), ser visita de casa de Scarlett Johansson, e viajar pelo Mundo em executiva com um portátil Sony Vaio BX197XP debaixo do braço, não passaria de um exercício barato de masoquismo.

 

E um desperdício de tempo que me impediria tirar o devido prazer da vida que tenho. Devo confessar-vos que vivo bastante satisfeito com o formato «estão verdes… não prestam» gravado no meu rígido e respondendo sempre em regime de piloto automático..   

 

Ser um pragmático da linha dura não equivale a atravessar a vida com os braços caídos. O «estão verdes… não prestam» não pode ser sinónimo de desistência, mas sim da recusa em travarmos guerras que à partida sabemos que não podemos ganhar.

Se queremos ganhar, não vale a pena jogar ténis com Boris Becker. Mas se calhar podemos vencê-lo se o desafiarmos para uma partida de xadrez ou de matrequilhos. Temos é de ser realmente bons e competitivos nestas disciplinas.

 

Com uma simplicidade luminosa, o ministro de Estado japonês Kouki Chuma explica tudo numa frase desarmante: «As roupas baratas, o Japão compra à China. As roupas caras, a China compra ao Japão». Esta bússola de bom senso deveria chegar para sobreviver.

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