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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 11.04.09

Gostava de ter sido estudante no Maio de 68

Jorge Fiel

Quando conheci o Quartier Latin ele já estava totalmente normalizado.

Descansei de grandes passeios a pé junto à fonte de Boul’Mich' (que é como o boulevard Saint Michel é tratado pelos mesmos parisienses que chamam McDo aos McDonald’s), antes ou depois de comprar uma dúzia de caderninhos quadriculados Clairefontaine (9x14cm, 96 páginas) na papelaria do sub-solo do Gibert Jeune.

No Boulevard Saint Germain, comprei quilos (muitos) de BD na livraria da esquina com o blvd Saint Jacques, comi ostras no Mondrian, mexilhões com frites (e muita cerveja) no Chez Leon, junto à Mutualité e comprei gravuras do brasileiro Piza no La Hune.

Passei muitas horas a ler BD’s naquelas confortáveis (tão confortáveis que só não trouxe uma por falta de lata para abordar o momento de a despachar no check in de Orly) do Jardin du Luxembourg.

Frequentei daqueles gregos turísticos onde partem pratos, na rue de la Huchette.  E mais recentemente descobri que a rue Monge era a chave para o acesso ao bairro do Jardin des Plantes, com a Mesquita de Paris, a magnífica rue de Mouffetard e a pequena mas cinematográfica Place des Contreescarpes.

Mas o que eu teria gostado mesmo era de ser estudante em Paris, em Maio de 1968, quando os paralelos não estavam alinhados no pavimento da mesma maneira que as cabeças dos jovens parisienses estavam desalinhadas da ideologia burguesa.

1968 foi um ano cheio. Em Portugal, Salazar caiu de cadeira. Nos Estados Unidos, Martin Luther King foi assassinado e os estudantes ocuparam a Universidade de Columbia. Em Praga, os tanques do Pacto de Varsóvia esmagaram em sangue a Primavera de Praga.

Mas em 1968, o sítio para se estar não era Los Angeles, Lisboa ou Praga, mas sim Paris, a cidade onde naquele mês de Maio se procurou a felicidade, saboreou-se o efémero, se exigiu o impossível e tentou-se levar a imaginação ao poder.

Como eu gostaria de ter andado pelas barricadas, na rue Guy Lussac, a atirar paralelipipedos à cara do velho mundo cheio de teias de aranha que começou a naufragar no Maio francês.

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