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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 09.04.09

Gostava de ter sido brigadista em Espanha

Jorge Fiel

Há uma data de coisas que lamento não ter feito na vida e que não fiz porque, por algum motivo, não estava à hora certa no local certo ou então, pela mais poderosa razão de ainda não ter nascido.

Ter combatido nas Brigadas Internacionais era uma das coisas que eu gostaria de ter feito e não fiz por esta última razão.

Só viajando no tempo (e as máquinas para o efeito ainda não foram inventadas) isso teria sido possível, pois nasci 20 anos depois do deflagrar da Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Para poder participar nas Brigadas Internacionais, eu deveria ter nascido cerca de 1916, para ter pelo menos uns 20 aninhos na altura do alistamento.

Mas se isso tivesse acontecido, não estaria a aqui a maçar-vos com estes meus devaneios, ou por estar a fazer tijolo (vítima de uma fatal bala moura em Teruel) ou porque devido ao adiantado da idade (andaria agora pelos 93 anos) estaria ainda mais claramente fora do prazo de validade.

A este propósito, quero dizer-vos que trocaria de bom grado algum tempo da parte terminal da minha vida (poupando assim uma data de incómodos ao pessoal que, por uma razão ou outra, acha que tem a obrigação de me aturar) pela emoção de viver a experiência romântica e generosa de ser um brigadista.

Como eu gostaria de ter ouvido, ao vivo, o famoso discurso inflamado da Pasionaria  - “Los fascistas quieren tomar Madrid. Madrid será la tumba de los fascistas. No pasarán!” – durante a batalha por Madrid.

Não me custa nada a imaginar-me militante do POUM, de Andres Nin, a partir para a Batalha do Ebro, com uma Mauser na mão, ou a desfilar em Barcelona, na despedida da República às Brigadas, a cantar a Internacional, com o punho no ar e lágrimas nos olhos.    

A Guerra Civil de Espanha foi ao mesmo tempo o momento de maior tensão dramática do século XX e o cemitério dos sonhos românticos da construção de uma sociedade mais justa, onde todos vivêssemos melhor, sem exploradores, nem explorados, em que cada um desse de acordo com as suas possibilidades e recebesse de acordo com as suas necessidades.

O bombardeamento nazi de Guernica, imortalizado por Picasso, o bárbaro grito de “Viva la muerte” dos legionários de Millán Astray e a generosa e desinteressada solidariedade dos brigadistas são os ícones de uma guerra em que a República caiu vítima da cobardia das democracias ocidentais e da pulhice cínica da URSS estalinista.

Mais devo dizer que a vitória da democracia no Estado Espanhol e a derrota do franquismo só ficarão completas estarão completas quando a Catalunha, Euskadi e a Galiza forem independentes – e bandeira vermelha, amarela e roxa da República flutuar no Palácio da Zarzuela.

                

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