Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 03.02.09

Breve conjectura sobre três sabonetes

Jorge Fiel

 

Há três sabonetes marcantes na minha vida, que foram, por ordem cronológica, o Lux, o Lifebuoy e o Magno.

O Lux, o sabonete que nove em cada dez estrelas usavam (e uma delas era a sex symbol Elisabeth Taylor, estrela do filme Cleópatra que, por causa da cena erótica em que ela saía da banheira/piscina, foi classificado como um espectáculo para Maiores de 16 anos), era o luxo com que eu sonhava quando o que encontrava no lavatório era um cubo agreste de sabão azul, comprado na drogaria da esquina e cortado com perícia pelo senhor Arnaldinho.

O Lifebuoy - com aquele seu intenso aroma a desinfectante que faziam dele uma autêntica bóia de salvação para quem carecia de sabão - foi o sabonete adequado ao meu período trotskista, quando, na companhia do Hugo e do Manuel Resende, fazia regularmente viagens nocturnas e clandestinas a Lisboa, a bordo do VW Carocha branco do Sardo.

Confesso-vos que tenho muitas saudades do cheiro proletário do Lifebuoy, e que só deixei de o usar quando ele desapareceu das prateleiras dos supermercados.

Nas suas apelativas formas arredondadas, o Magno, volumoso e preto, corresponde a uma fase em que passei a valorizar essencialmente a estética do conteúdo – acho que, do ponto de vista da embalagem, este sabonete galego perde em toda a linha para as linhas clássicas e vintage do Lifebuoy.

Agora, que estamos enterrados naquela “crise que só se vive uma vez na vida”, optei pela racionalização o que me atirou de novo para o regaço do Lux, num curioso movimento que parece confirmar a teoria do eterno retorno (apesar de, no entretanto, a Liz Taylor ter naufragado nas ondas de uma boa dúzia da casamentos).

Passei a encarar o sabonete como uma mercadoria, e o Lux é o mais barato: 5,36 euros o quilo. Ninguém precisa de andar com as mãos sujas (o Sartre nunca advogou isso, como o sabem todos os que se aventuram além da capa do livro) quando o pack com quatro sabonetes de 125 grmas se pode adquirir pela módica quantia de 2,68 euros.

Já o Patti, da Ach Brito, com uma embalagem muito querida onde são salientadas a suas propriedades hidratantes, anda pelos 8,90 euros o quilo, mais caro que a queijo raclette da marca Auchan.

Por sua vez, o Dove apresenta-se ao preço exorbitante de 12.50 euros o quilo, três euros a mais que o magnífico camarão português 60/80 vendidos no El Corte Ingles.

Não encontro justificação para o Dove custar bastante mais que o dobro do que o sabonete que era o preferido por nove em cada dez estrelas de Hollywood.

 

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.