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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sex | 30.01.09

Se está nas nuvens, não deve fazer a barba

Jorge Fiel

Não, não se trata de bocados de superfície lunar, mas sim da milagrosa e cicatrizadora pedra de Hume

Fazer a barba não é a mesma coisa que tomar chá. É uma operação que tem alguns perigos embutidos, por várias razões, das quais acho por bem salientar duas:

a)     Envolve uma lâmina e a nossa própria pele;

 

b)    Na esmagadora maioria das vezes desenrola-se quando ainda não estamos completamente despertos para o Mundo nem beneficiamos do efeito revigorante de um bom duche.

Mas há algumas prevenções que podem reduzir imenso os riscos de golpes e sangrias desatadas, sendo que uma delas é abster-se de fazer a barba se a noite passada foi demasiadamente mal passada ou bem passada – o que tem como consequências directas que a sua mão não está tão firme como a do Manuel Antunes quando faz cirurgias cardiovasculares, em Coimbra, e os seus olhos não estão tão abertos como os de Sócrates ao tomar conhecimento das malfeitorias do “filho de seu tio” (que não deixa de ser primo dele, apesar do tio que é pai dele ser apenas meio-irmão da mãe).

Há que ter em atenção o material. Apetreche-se com um boa lâmina e não seja mitra. As lâminas de barbear são como as pessoas - chegam a uma altura em que o melhor que têm a fazer é abandonarem o activo. Ao fim de seis ou sete boas exibições, o melhor que tem a fazer é deitar a lâmina ao lixo e substitui-la por uma nova.

Uma lâmina rombuda pode ser tão perniciosa para a saúde da sua pele como um militante do Hamas para um colono israelita.

Há que ter em atenção o local. Os preclaros que já fizeram voos transtlânticos em executiva (ou primeira classe) e receberam de oferta uma daquelas bolsas geniais com um kit higiénico (contendo meias, venda para os olhos, escova e pasta de dentes, toalhetes bem cheirosos, pente, creme hidratante Nívea, um frasquinho de colónia e uma verdadeira armadilha constituída por lâmina e creme de barbear)  já aprenderam à sua própria custa que não é boa ideia fazer a barba a bordo de um Airbus (regra que é extensível aos Boeing, Tupolev e outras marcas de avião).

Um pequeno corte a dez mil metros de altitude origina uma sangria muito difícil de estancar, mesmo que não tome diariamente um micro-aspirina para prevenir que um coágulo malandro lhe provoque um enfarte fatal ou um trágico AVC.   

Não se deve fazer a barba quando se está nas nuvens. Há, acima de tudo, de ter uma grande concentração no acto. No Verão de 2006, andava eu a fazer um estudo comparado (com o alto patrocínio do doutor Balsemão), da oferta turística do Algarve e a da Costa do Sol espanhola, quando sofri um terrível acidente doméstico num três estrelas manhoso de Torremolinos.

Por estar a pensar na morta da bezerra enquanto estava a fazer a barba, cortei não só os pelos mas também um sinal que tenho um pouco abaixo do canto esquerdo da boca.

Foi o cabo dos trabalhos. O buraco demorou horas a parar de sangrar e criar uma crosta, apesar de o ter tratado com os cicatrizantes mais eficazes: pedra de Hume e papel higiénico.

 

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