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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 22.01.09

O meu acto falhado de compra, em 1992, de uma máquina de barbear Braun, de bolso e a pilhas

Jorge Fiel

 

Adepto incondicional da lâmina, em toda a minha existência (que decorre, inexoravelmente, há mais de meio século), apenas por uma vez comprei uma máquina de barbear.

Foi num acesso de consumismo puro e duro, algures no ocaso do cavaquismo  (talvez em 1992, o ano em que eu deixei de fumar e a Europa derrubou o que restava das velhas fronteiras, abrindo-se num mercado único)  que ocorreu este acto único, sem mais exemplo.

Tratava-se de uma máquina de barbear Braun de bolso, a pilhas, de tamanho e peso aproximados ao de um maço de SG Filtro, e a sua aquisição obedeceu a um objectivo bem preciso.

À época, ainda não tinha chegado à cara dos homens o ambiente geral de desregulamentação em vigor nestes tempos de enorme incerteza onde se admite tudo, com um notável espírito de tolerância - desde a face rigorosamente escanhoada à Portas (cheira-me que a faz à navalha e no barbeiro) até à barba de padre jesuíta do Pinto da Costa da Morgue, passando pelo bigode do Murteira, de tal forma farto e denso que se ele se descuida a comer um ovo estrelado metade da gema não lhe chega ao aparelho digestivo!

Como a barba de três dias popularizada pelo Mourinho ainda não tinha sido inventada, a etiqueta da apresentação de um jornalista económico do mais influente jornal do pais, implicava, no meu entender, uma cara sem dúvidas nem hesitações – ou bem que se usava barba, ou bem que as faces estavam depiladas. Não havia lugar a meias tintas.

A Braun de bolso foi comprada para integrar um kit de sobrevivência que eu mantive durante alguns anos numa das minhas gavetas do Expresso,  fazendo companhia a uma camisa branca lavada e uma gravata sem nódoas.

A intenção era boa, o procedimento transparente (ou seja, os bolsos do dr Balsemão não foram chamados ao caso), mas o balanço final da operação deixa muito a desejar.

Contam-se pelos dedos da mão de um maneta (ou seja, no máximo cinco) as vezes que usei a máquina, que da última vez que esvaziei gavetas foi para uma caixa de sapatos Ecco, que arrumei debaixo do meu estirador,  onde convive com post its amarelos de tamanhos diversos, elásticos, agrafador e agrafes, um furador, uma base de fita cola, cartões de visita por classificar e pisa papeis diversos.

É triste, mas tenho de concluir que a minha compra de uma máquina de barbear de bolso e a pilhas foi um acto falhado.

 

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