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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Dom | 18.01.09

Os terriveis perigos para o nosso ego que se escondem por de trás do espelho da casa de banho

Jorge Fiel

Moi même, le matin, au miroir

Penso que ninguém negará a importância de um espelho na casa de banho. Eu próprio tenho um, de dimensões generosas, localizado estrategicamente em cima do lavatório.

Apesar de dever ser muito divertido observar as caras que fazemos quando estamos sentados no trono, não me parece muito próprio ter um espelho em frente à sanita – principalmente se ela for utilizada por terceiros, que assim poderiam cair na fácil tentação de ver nisso um sinal confirmativo dos juízos menos simpáticos sobre nós que já teriam começado a congeminar, com base em outras pistas e comportamentos.

O espelho em cima do lavatório encerra perigos para o nosso ego, tem valências práticas quotidianas e pode ainda ser usado como um poderoso auxiliar de saudáveis exercícios de introspecção e incremento dos nossos níveis de auto-estima.

Vamos começar pelos terríveis perigos para o nosso ego que estão escondidos por detrás do espelho da casa de banho (calma, não arranque o espelho da parede, isto é só uma metáfora).

De manhã, acordamos (nem todos, enfim, pois continuo a conhecer algumas peças que desperdiçam a melhor parte do dia), e pôr-nos em frente ao espelho da casa de banho a escovar os dentes é um dos primeiros actos que levamos a cabo, após ter concluído, com uma alegria incontida, que se passou mais um dia em que não morremos durante o sono.

A imagem que o espelho nos devolve é de uma pessoa despenteada (isto no caso de haver matéria prima suficiente), com olheiras (1), provavelmente com algumas rugas supra-numerárias na cara impressas pelo tecido da almofada. Talvez até tenha remelas no canto dos olhos e esteja com o nariz entupido e expectoração na garganta.

Nesta altura, em que um arrumador de carros muito parecido connosco aparece à nossa frente no espelho, é fundamental fazer um apelo a toda a nossa auto-estima para podermos encarar com alegria o novo dia que está a começar.

 

…………….

(1) A propósito de olheiras, não resisto a partilhar com os preclaros uma frase que o Erle Stanley Gardner pôs na boca do Paul Drake, o chefe da agência de detectives usada pelo famoso advogado de Los Angeles  Perry Mason para deslindar espectacularmente os casos em que os seus clientes são injustamente acusados de patifarias que não cometeram pelo hediondo procurador Hamilton Burger.

 

Em O Caso da Boneca Maliciosa, Paul, que sofre do estômago porque passa a vida a comer hamburgers empapados, entra no escritório de Perry  quando vê Della Street (a secretária confidencial do advogado e talvez até um pouco mais do que isso) com profundas olheiras (andou a dançar até às tantas com o patrão na véspera, depois de se empanturrarem em cocktails e num suculento bife à Nova Iorque), e dirige-lhe a seguinte e desarmante frase:

 

“Olá, beleza! – saudou o detective – Faz-lhe bem sair e dançar. Os seus olhos lembram as profundidades de um grande lago ao luar”.

 

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