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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 27.12.08

Descarga da privada ou autoclismo da retrete?

Jorge Fiel

 

“Em 1973, fui trabalhar numa revista brasileira editada em Lisboa. Logo no primeiro dia, tive uma amostra das deliciosas diferenças que nos separavam, a nós e aos portugueses, em matéria de língua. Houve um problema no banheiro da redação e eu disse à secretária: «Isabel, por favor, chame o bombeiro para consertar a descarga da privada». Isabel franziu a testa e só entendeu as quatro primeiras palavras. Pelo visto, eu estava lhe pedindo que chamasse a Banda do Corpo de Bombeiros para dar um concerto particular de marchas e dobrados na redação. Por sorte, um colega brasileiro, em Lisboa havia algum tempo e já escolado nos meandros da língua, traduziu o recado: «Isabel, chame o canalizador para reparar o autoclismo da retrete». E só então o belo rosto de Isabel se iluminou.”

Socorro-me desta pequena história, contada pelo escritor brasileiro Ruy Castro na Folha de São Paulo, para introduzir (sim, a língua portuguesa pode ser muito traiçoeira) a magna e candente questão do autoclismo.

Na expressão “descarga da privada” começo por salientar a sabedoria brasileira em consagrar na língua o carácter eminentemente privado dos actos cometidos na sanita, que já foi devidamente sublinhado aqui na Lavandaria.

Registo ainda o facto relevante de que enquanto, deste lado do Atlântico, nós tratamos o reservatório pelo nome genérico atribuído ao mecanismo hidráulico (autoclismo), do outro lado eles preferem, com graça, designá-lo pela sua acção: a descarga.

Devo ainda dizer que me agrada a sonoridade da palavra autoclismo, que tem embutida algum valor onamatopeico, pois, em certa medida, imita o som daquilo que significa..

A palavra autoclismo é uma palavra de ser muito valiosa para os poetas, já que rima todos os ismos.

Excluindo alguns autores escolhidos a dedo (toda a Adília Lopes, quase todo o O’Neil, algum Manuel António Pina), nunca fui muito de poesia (sempre meteu impressão o desperdício de papel inerente a esta expressão) mas reconheço que para um poeta contemporâneo deve ser uma enorme tentação fazer rimar com autoclismo o cataclismo que se anuncia para 2009.

Mais acrescento que autoclismo se presta ainda a graças como a da participação no genérico de um dos programas dos bons velhos tempos do  Herman de um tipo chamado Tó Clismo.

 

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