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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 29.11.08

A explicação possível para o bombardeamento cirúrgico a que submeti a Casa do Sapo que Canta

Jorge Fiel

Ora aqui temos um sugestivo pormenor da fachada da Casa do Sapo que Canta, riscada pelo arquitecto Teodor Talouski

 

Aquela história do homem ser um animal de hábitos é verdade. Não tenho a certeza que o dito se aplique à mulher (bem, eu sei que elas têm regras mensais, mas isso não as torna automaticamente pessoas de hábitos), mas pela parte que me toca, assino por baixo.

Sempre que desembarco numa cidade, em turismo, executo uma série de procedimentos pré-estabelecidos.

Esta liturgia começa com uma análise atenta dos mapas da cidade e da rede de transportes públicos (táxi só admito usar em deslocações de e para o aeroporto, e mesmo assim em casos excepcionais), seguindo-se-lhe a calendarização da visita.

Os bairros que me interessa espiolhar são cuidadosamente hierarquizados, por ordem decrescente de importância, e encaixados no tempo que tenho disponível.

Devo confessar que este ritual, a que tento emprestar uma precisão militar, bebe directamente a sua inspiração na táctica da tropa de quadrícula usada pelo exército português durante as guerras coloniais (1).

Atendendo ao desfecho da refrega, pode ser-se levado a pensar que a táctica da quadrícula não deu grande resultado em África (2), mas no que toca a operações de reconhecimento e exploração de cidades, eu tenho-me dado lindamente com ela.

Mas, atenção, é essencial que o programa de carpet bombing das ruas dos bairros mais atraentes (Wawel, Stare Miasto, Nowy Swiat, Stradom, Kazimierz, Wesola, etc, no caso concreto de Cracóvia) tem de ser sabiamente complementado com bombardeamentos cirúrgicos de alvos estratégicos localizados fora do perímetro das quadriculas predefinidas como prioritárias.

Equivale isto a dizer que a bem sucedida exploração de uma cidade exige o cruzamento destas duas listas rigorosamente hierarquizadas, a de base geográfica e a de alvos específicos –  no caso de Cracóvia, ver dragão que cospe fogo, ir ao atelier da Iwona, visitar o Museu Nacional, apreciar a fachada do sapo que canta (3), subir ao monte Kosciuszko, dar um passeio de barco no Wisla, e por aí adiante.

Na confecção desta duas listas, há uma série de items obrigatórios, que sigo, sem dó nem piedade, qualquer que seja a latitude da cidade que vou desbravar.

Passo a descrever as cinco coisas que considero obrigatórias fazer numa cidade que se visita pela primeira vez:

1.Subir a um dos pontos altos de cidade, para pastar uma panorâmica em plongée;

2. Ir a uma livraria e comprar pelo menos um livro, mas preferencialmente dois (4) – um guia da cidade produzido localmente, um romance de um autor indígena e/ou uma breve história do país;

3. Inspeccionar um museu, um supermercado, uma igreja, um supermercado e um centro comercial;

4. Atravessar a pé a principal ponte (5);

5. Estacionar durante um bom par de horas no café mais in e/ou tradicional, a morder o ambiente e ler um jornal ou o guia.

 Aspecto de Cracóvia vista do alto do Monte Kosciuszko

(continua)

…………………

(1) Tomemos como o exemplo a Guiné-Bissau. O mapa deste território era meticulosamente dividido em rectângulos (as famosas quadrículas) e em cada um deles era instalado um quartel povoado por membros das NT (Nossas Tropas) que tinham como missão assegurar que o IN (Inimigo) não perturba a paz e a ordem na sua quadrícula (não raro não conseguiam desempenhar esta missão, mas isso já é outra história).

 

(2) Se bem que quem pensa assim está muito provavelmente a cometer o erro de reduzir as guerras coloniais a um mero conflito militar, quando na verdade o que estava em causa era o lado de onde soprava o vento da História…

 

(3) A Casa do Sapo que Canta fica no número 1 da rua Retoryka e a sua curiosa fachada merece ser vista. O nome da casa é um piada que abrande o uso e localização deste edifício de finais do século XIX, que era uma escola de música onde a cantoria dos alunos era acompanhada pelo coaxar dos sapos do rio Rudawa que corria próximo.

 

(4) Em língua inglesa, bem entendido.

 

(5) Este item não se aplica, bem entendido, a cidades desprovidas de pontes ou que, como Lisboa e Macau, estão servidas de pontes cuja dimensão desaconselha a sua travessia a pé.

 

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