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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 25.11.08

Como o valoroso camarada Stalin fracassou com estrondo na árdua tarefa de selar a vaca polaca

Jorge Fiel

O camarada Staline entre os membros do grupo folclórico Mazowsze, um belo exemplar do socialismo realista, esta pintura quadro de B.Borowski (1953)

Não é preciso ir à Polónia e passar dois meses a escrever, todos os dias, da viagem para perceber que os polacos estiveram para os comunistas soviéticos da mesma maneira que os gauleses irredutíveis para os romanos.

Se olharmos com alguma liberdade artística para a figura de Lech Walesa, poderemos até detectar uma data de parecenças físicas (a começar pelo bigode e ar bonacheirão) entre o herói do Solidarinosci e os pândegos Astérix e Obélix em boa hora inventados pelo Goscinny – e em má hora ressuscitados pelo seu colega Uderzo.

Se a aldeia no Norte da Gália, povoada por irredutíveis gauleses resistiu à romanização e às legiões de Júlio César com a ajuda da poção mágica produzida pelo druida Panoramix, os polacos resistiram à sovietização e às legiões de Stalin com a ajuda do ópio do povo – a religião católica.

Os gauleses empaturravam-se em poção mágica. Os polacos em missinhas. O resultado final revelou-se descoroçoante para o invasor, ao ponto do camarada Stalin (também ele proprietário de uma imponente bigodaça) ter dito que implantar o comunismo na Polónia era muito mais difícil do que por uma sela numa vaca.

O fracasso do Zé dos Bigodes na tarefa de selar a vaca polaca é particularmente visível no episódio da igreja de Nowa Huta (1).

Desconfiado (e com razão) da intelectualidade burguesa de Cracóvia, o Governo pró-soviético instalado em Varsóvia no pós-guerra logo tratou de mandar fazer ao lado uma cidade proletária, baptizada de Nowa Huta.

A decisão foi tomada a 17 de Maio de 1947, e logo começou a ganhar forma a nova cidade concebida para ser um modelo de realismo socialista a mostrar ao mundo, a ser o contraponto proletário e ateu à Cracóvia intelectual e católica.

A cidade, projectada para albergar cem mil pessoas, engoliu os melhores terrenos agrícolas dos arredores de Cracóvia a que está umbilicalmente ligada por uma linha de eléctrico.

A sua construção estava destinada a ser cantada como exemplo e cumpriu esse seu destino, apesar das histórias relativas ao facto de na pressa de ter a cidade pronta os corpos dos operários mortos durante a gigantesca empreitada terem ficado sepultados nas fundações –  uma solução que, convenhamos, tem tanto de cínica como de prática.

A 23 de Junho de 1949, era inaugurado, com a pompa adequada à circunstância, o primeiro bloco residencial de Nowa Huta.

 

Arka Pana, a igreja de Nowa Huta

(continua)

 

…………………

(1) Desenhada para ser um bastião proletário, Nowa Huta tornou-se rapidamente um covil anti-comunista. A primeira grande reivindicação dos seus habitantes foi a construção de uma igreja – que as autoridades não tiveram outro remédio senão ceder. A igreja de Arka Pana lá está a recordar o fracasso de Stalin em Nova Hutta.

 

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