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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Seg | 24.11.08

Moscovo dá peidos pela piça (2)

Jorge Fiel

 

O passado abastece-nos o curriculum vitae mas, em determinadas circunstâncias, pode revelar-se bastante inconveniente e acarretar-nos uma data de chatices. Os polacos sabem perfeitamente de que é que eu estou a falar.

Lech Walesa é um moderno herói polaco, o operário dos estaleiros navais Lenine, em Gdansk, que fundou e liderou o movimento Solidariedade – a alavanca que derrubou o regime pró-soviético instalado em Varsóvia.

Esta história bonita de um Che Guevara de direita (1) conheceu um “happy ending” provisório, com Walesa a ser levado em ombros, nacional (foi eleito Presidente da República) e internacionalmente (foi laureado com o Nobel da Paz).

O problema é que em Junho desembarcou nas livrarias uma bomba com a forma de livro em que o pai da jovem democracia polaca é acusado de estar envolvido com a polícia secreta polaca. Dito por outras palavras, terá operado como agente e informador do regime comunista.

O país ficou em estado de choque, dividido entre os que acreditam e os que não querem acreditar. Mas dá para imaginar a convulsão.

Todos os democratas portugueses mergulhariam num crise existencial se fosse apresentado na Fnac um livro a acusar Otelo de ter ligações à Pide.

Todos os católicos se benzeriam (e ajoelhariam a rezar) se saísse um livro a acusar o papa João Paulo II de ter imitado o Fausto e vendido a alma ao Diabo.

Mas há mais bocados do passado que estão a atormentar o dia a dia dos polacos. Para se redimir do tempo em que a Guerra Fria se travava entre os blocos militares Nato e Pacto de Varsóvia, a Polónia tem-se desdobrado em gentilezas com o Ocidente (em geral) e os Estados Unidos (em muito particular) afastando-se irreversivelmente do campo magnético de Moscovo.

Em 1999, deu-se o que seria impensável dez anos antes. Varsóvia, a cidade que deu o nome ao Pacto, trasladou-se de armas e bagagens para o campo do antigo inimigo e aderiu à Nato.

Não satisfeito com esta adesão, que deixou Moscovo a dar peidos pela piça (2), Varsóvia decidiu elevar o seu esforço para agradar ao Tio Sam ao ponto de autorizar os norte-americanos a instalarem no norte do país, na região de Gdansk,  o escudo anti-míssil destinado a interceptar os mísseis russos.

Como é óbvio, Moscovo não achou graça nenhuma a esta deferência polaca para com o seu amigo americano e, a título de primeiros preparos, informou o Mundo que doravante a Polónia passaria a se o alvo preferencial das suas ogivas nucleares.

Mas não é só o passado mais recente que está a intrometer-se no presente polaco.

Uma outra caixa de Pandora acaba de ser aberta. Estão pendentes 89 mil conflitos relativos à propriedade de casas, terrenos, fábricas e outros bens confiscados aos judeus pelos nazis - e, depois, aos nazis pelos comunistas.

O busílis é que o novo poder pós-soviético não teve o cuidado de parar esta espécie de comboinho e achou por bem considerá-los estatais e dispor deles a seu bel prazer.

Não concordando com a aparente linearidade deste processo, o lóbi judaico pressionou o Congresso dos Estados Unidos, que aprovou uma resolução (3) sugerindo a Varsóvia que pague aos herdeiros dos legítimos proprietários uma soma equivalente a 20% do valor actual dos bens confiscados durante a II Guerra Mundial.

Sucede que, mais coisa menos coisa, o que está em causa é o Tesouro polaco desembolsar 40 biliões de dólares. Isto se não quiser aborrecer o seu novo amigo americano.

 

(continua)

 

………..

(1) A imagem que eu arranjei também não seria muito feia, se não se desse o caso do aspecto altamente azeiteiro do bigode do Lech.

 

(2)  A expressão não é elegante, reconheço, mas emana dela uma sonoridade e força que, no meu entender (que, como sabem, não é modesto), torna razoável o seu uso.

 

(3)  Media que, à primeira vista e no mínimo, atropela os princípios da Conferência de Bandung sobre a coexistência pacifica entre os povos e a não ingerência nos assuntos internos de outros Estados.    

 

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