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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Dom | 09.11.08

Como o Mahatama Fiel ao passear em Kazimierz fez de Mia Farrow e entrou na Lista de Schindler

Jorge Fiel



Na “Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília (Mia Farrow) é surpreendida ao ver o herói (Jeff Daniels, no papel de Tom Baxter) sair da tela para ir ter com ela à sala de cinema - e oferecer-lhe uma nova vida (uma vida nova é sempre bom, um “fresh start” como dizem os americanos).

Um passeio pelas ruelas sombrias de Kazimierz, carregadas de tons cinzentos, proporciona não só um salto no tempo, até aos dias negros da II Guerra Mundial, mas também um movimento contrário ao do filme de Woody Allen – transporta-nos para dentro da tela da “Lista de Schindler”.

As cenas essenciais do aclamado filme de Spielberg foram rodadas aqui no bairro judeu de Cracóvia.  

Deixando-se perder pelas ruelas de Kazimierz e dando Red Bull à sua imaginação, não é preciso ingerir substâncias ilícitas (a melancolia a preto e branco das velhas sinagogas e cemitérios judaicos ajudam ao transporte), para entrar na tela e sentir-se um figurante do filme que contou ao Mundo a história corajosa de Schindler, o alemão (checo se preferirem, pois nasceu na Morávia há exactamente cem anos) que salvou a vida de mais de mil judeus, empregando-os na sua fábrica – que fica do outro lado do Wisla, no número 4 da rua Lipowa.

Ir a Cracóvia e não vagabundear pelas ruas Miodowa, Szeroka e Jakuba, é mais grave do que ir a Roma e não passar uma hora sentado numa esplanada da Piazza Navona (1) a morder o ambiente e apreciar a belíssima Fontana dei Fiumi, do bom do Bernini e a fachada côncava da igreja de Sant’Agnese in Agone. Da autoria de Borromini, seu inimigo jurado.

Além da viagem no tempo, o bairro judeu proporcionou-me duas experiências gastronómicas (uma razoável e uma extraordinária), um momento quase perfeito e dois encontros de diferentes intensidades com a história do século XX.

As duas experiências gastronómicas foram jantares no Szara Kazimierz (2) e no Pimiento (3).

A experiência extraordinária foi no Szara, onde, na sempre delicada hora de encomendar, beneficiei da sabedoria camoniana (4) do Fernando e regalei-me com o Plankstek, um bife que recomendo a toda a gente (5) e se apresenta numa travessa de madeira, acompanhado de batatas gratinadas, feijão verde enrolado em tiras de bacon, tomates assados no forno e molho bearnês (49 zlotys cada, ou seja 15 euros, nada que mate, portanto).

A experiência gastronómica apenas razoável foi no Pimiento, onde a carne não se revelou à altura de um grill argentino, não logrando por isso compensar a ruidosa barulheira que meia dúzia de indígenas (cinco bárbaros e uma bárbara) fizeram na mesa ao lado durante todo o santo jantar.

 

 


(continua)

……………………..

(1)  Essa história de ir a Roma e ser obrigado a ir ver o papa além de  estar gasta é completamente anacrónica. Acresce que este papa alemão Ratzinger não tem um décimo do carisma do anterior, o polaco Wojtila, que estudou em Cracóvia.

 

(2)  Restauracja Szara Kazimierz (também há um Szara na Rynek Glówny), ulica Szeroka 39 www.szarakazimierz.pl

 

(3)  Pimiento, ulica Józefa 26 www.pimiento.pl

 

(4) A sabedoria feita de experiência.

 

(5)  Incluo neste “toda a gente” abrangente não só os amigos e conhecidos do café, mas também eventuais inimigos, numa inequívoca demonstração de abertura de espírito e atitude intrinsecamente católica, ao jeito de quem oferece a outra face após levar uma bofetada na primeira cara - uma atitude que sempre me pareceu parva mas, que querem é a onda pacifista, Gandhi  “make love, not war”, em que eu ando… (se continuo assim ainda acabo a ficar conhecido como o Mahatma Fiel)

 

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