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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sex | 31.10.08

Como o Tributo Prussiano prova que menos é mais

Jorge Fiel

 

 O Tributo Prussiano, de Matejko

 

O que mais impressão me mete nos hipermuseus, tipo Louvre,  Met ou Prado, é a sua dimensão excessivamente descontrolada  e a “overdose” de obras primas disponibilizadas, que desorienta o visitante mais incauto e é até susceptível de baralhar o mais avisado.

Sejamos claros. Da mesma maneira, que só um gestor superdotado apenas é capaz de controlar directamente o trabalho de uma meia dúzia de pessoas  (umas dez, no máximo do máximos),  é absolutamente impossível desfrutar mais de uma meia dúzia de obras de arte durante a manhã ou a tarde que dedicamos a um museu.

Como os museus são as novas catedrais das cidades pagãs do Ocidente, acho que seria de uma enorme utilidade a elaboração de guias que ensinassem as pessoas a visitá-los.

Se há livros que ensinam a ganhar ao poker, fazer arranjos florais à japonesa, seduzir mulheres (e homens), jogar na bolsa e cozinhar bacalhau, não percebo por que é que ainda ninguém se lembrou de passar a escritos conselhos práticos e dicas úteis para tirar partido fazer da visita a um museu.

Não é impossível que, mais tarde ou mais cedo, publique aqui na Lavandaria um “post” dedicado à Arte de Bem Cavalgar um Museu a Toda a Sela.

Mas para já o que tenho a dizer é que os hipermercados, os jornais e os museus não devem ser lidos como um livro, sequencialmente, do princípio ao fim, sem saltar capítulos ou até mesmo frases, mas sim petiscados, como quem olha para uma mesa de bufete e selecciona cirurgicamente o que quer pôr no seu prato.

O excesso de oferta de comida nos casamentos tem o efeito de nos levar a  comer menos. Também se come com os olhos e nós ficamos cheios só de ver tanta comida junta. Acho que este exemplo dos casamentos se aplica também aos hipermuseus. Os arquitectos da Escola do Porto lá terão as suas razões para teimarem em afirmar que “menos é mais”.

O edifício principal do Museu Nacional de Cracóvia não é um hipermuseu, mas mesmo assim, da manhã que lá passei apenas um quadro ( o perturbador Execução, de Andrzej Wróblewski) me ficou gravado à superfície na memória.

Da minha visita ao Castelo de Wawel, guardo com prazer a recordação do aspecto geral e  detalhes do quadro “Tributo prussiano”, de Matejko, que acaba de ser recuperado e ocupa uma sala adequada do quadro à enorme dimensão da obra (8m75 de largura por 3m88 de altura) e com a iluminação apropriada para a podermos saborear confortavelmente sentados no pequeno auditório improvisado à sua frente.

O quadro, pintado no século XIX, recria o momento em, a 10 de Fevereiro de 1525, Alberto da Prússia, grão mestre dos cavaleiros teutónicos, presta tributo a Sigismundo I (rei da Polónia, grão duque da Lituânia e duque imperial da Silésia) e recebe das mãos dele o titulo de duque da Prússia.

Não é todos os dias que um Hohenzollern se ajoelha aos pés de um rei polaco, daí que Matejko tenha imortalizado o momento.

O que me apaixona no ”Tributo Prussiano”, mais do que a majestosidade da composição, o simbolismo da cena central e a maestria da técnica de pintura, é a formidável galeria de protagonistas, figurantes e mirones retratados por Matejko.

Escrita esta pequena declaração de amor, está na hora de deixar Wawel e dirigir-me para a Rynek (praça do mercado) de Cracóvia.

 

 Execução (1949), Andrzej Wroblewski

 (continua)

 

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