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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 30.10.08

Como doses industriais de fé e vodka ajudaram a suportar mil anos de sofrimento e humilhações

Jorge Fiel

Monumento de Grunwald, na praça Matejko, em Cracóvia

Os polacos passaram os últimos dez séculos a levarem tabefes dos vizinhos, a serem invadidos, ocupados - e a assistirem impotentes ao triste espectáculo do seu vasto território ser retalhado e partilhado por impérios de todos os pontos cardeais.

Um milénio de humilhações acumuladas ajuda muito a compreender a profunda e massiva adesão dos polacos ao catolicismo (parece que não, mas a fé e a vodka são poderosos anestésicos), bem como a lupa que põem em cima dos raros momentos em que estiveram na mó de cima, como a Batalha de Raclawice (1), onde, comandados pelo preclaro general Tadeusz Kociusko, conseguiram derrotar os russos (2) recorrendo a manhas militares do estilo do nosso famoso quadrado, que em Aljubarrota  se revelou letal para o mais numeroso exército de Castela.

Filho de Cracóvia, Jan Matejko (1838-1893) é um dos nomes mais proeminentes (se não mesmo o mais proeminente) da pintura polaca e o seu patriotismo militante levou-o a imortalizar com a sua arte os raros momentos de glória da sua martirizada pátria.

A mais célebre das obras de Matejko é a Batalha de Grunwald, que celebra a vitória, em 1410, do exército polaco-lituano (3) sobre os cavaleiros teutónicos, parando assim o seu avanço em direcção a leste.

Para se ter uma ideia da importância que os polacos dão a Grunwald, basta saber que a inauguração em 1910, na praça Matejko, em Cracóvia, do monumento evocativo dessa vitória militar sobre os cavaleiros teutónicos foi presenciada no local (a televisão ainda não tinha sido inventada…)  por uma multidão calculada em 160 mil pessoas.

Estou em crer que a inauguração em Lisboa de um monumento que celebrasse a derrota dos exércitos napoleónicos nas Linhas de Torres atrairia ainda menos pessoas que as 325 que assistiram ao vivo ao União de Leiria-Sporting a contar para a Taça de Portugal.

Voltando à vaca fria, melhor dizendo a Matejko, o que mais me impressionou na manhã da visita a Wawel foi o quadro “Tributo prussiano”, que acaba de ser alvo de uma meticulosa recuperação e está exposto no Castelo.

Auto-retrato de Jan Matejko

(continua)

…………………..

(1)  A batalha de Raclawice, travada a 4 de Abril de 1794, que se saldou por uma vitória dos patriotas polacos sobre os russos, está celebrada numa gigantesca pintura (120 metros de comprimento por 15 de altura) circular, exposta em Wroclaw.

 

(2)  Sol de pouca dura. A rebelião de Kosciusko acabou por ser aniquilada e a Polónia perdeu a soberania durante cem anos.

 

(3)  Em 1385 - o ano em que, em Portugal, D. João I punha fim à crise dinástica que ameaçou a nossa independência e inaugurava a Segunda Dinastia - , a Polónia e a Lituânia assinavam em Krewo um tratado de união.

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