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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 28.10.08

A história do homem sem cornos e ir a Cracóvia e não visitar Wawel é como jogar ténis sem bola

Jorge Fiel

As bucólicas margens do Wisla vistas da colina de Wawel. O Ibis fica nas traseiras do Novotel, assinalado com letreiro a azul

Wawel vale bem o investimento de uma manhã (pelo menos), dividida entre uma espreitadela à Catedral de Santo Estanislau e São Venceslau, cenário da coroação das rainhas e reis da Polónia, e o castelo que lhes serviu de residência –  e, posteriormente, de quartel general a Hans Frank,  governador geral alemão de Cracóvia durante a ocupação nazi.

Do alto da colina de Wawel desfruta-se de apreciáveis vistas panorâmicas  da cidade e do curso do rio Wisla, pelo que não são de estranhar as preferências de reis e nazis.

Aliás, em mais de uma ocasião tive a oportunidade de testemunhar que se vive muito melhor olhando o Mundo de alto do que quando se é obrigado a andar a chafurdar no meio dele – ou até, pior ainda, a observá-lo de baixo, suportando assim com o seu peso. Acreditem que esta é uma verdade de sangue.

Viaja-se muito melhor na primeira classe de um Airbus da Lufthansa, refastelado numa poltrona e a encomendar comida e vinhos à lista, do que atracado cá atrás, na económica, com as pernas encolhidas, a mesa espetada na barriga e os nossos cotovelos envolvidos numa guerra sem quartel por espaço vital com os dos parceiros do lado.

Vê-se muito melhor um jogo de futebol – mesmo agora que o FC Porto teima lamentavelmente em jogar à Benfica, com os tristes resultados que estão à vista de todos -  do alto de um camarote no Dragão, a beberricar vinho branco, com jantar servido ao intervalo e um plasma sintonizado na Sport Tv para tirar as teimas sobre se foi falta, penalti ou fora de jogo, do que no lugares rasteiros e baratos da primeira fila, ao nível do relvado, onde eu e o meu filho Pedro ficamos no jogo de inauguração do estádio, contra uma equipa do Barcelona.

Não vamos mais longe. Eu adoro o meu Mini Clubman branco, de 1974, mas nunca me senti tão bem e importante ao volante como quando andei a guiar por essas ruas, avenidas e auto-estradas empoleirado no alto da minha saudosa Renault Espace azul.

É sempre melhor desafiar a força da gravidade e estar em cima do que por baixo - com a única excepção da cama, onde estar temporariamente por baixo é uma experiência gratificante que recomendo vivamente a todos os jovens e inexperientes casais católicos.

Não é por acaso que o preço dos andares sobe proporcionalmente à sua altura e que a generalidade das pessoas está ainda mais obcecada em subir na vida do que o João Garcia (o que precisa de um nariz novo, não o meu antigo e distinto colega do Expresso) em escalar a cordilheira dos Himalaias.

Mas basta de filosofia de pacotilha e regressemos a Wawel, pois já me começo a convencer que esta minha atracção fatal pela divagação e pelos apartes pode ser em grande parte responsável por eu ter passado a vida ao nível do rés do chão, com episódicas visitas à mezanine e ainda mais raras visitas a primeiro andar.

Sobre o Wawel, o incontornável (1) guia Kraków In Your Pocket escreveu: “Ir a Cracóvia e não visitar Wawel é como jogar ténis sem bola”, uma expressão medianamente feliz que calculo seja idiomática e o equivalente polaco ao nosso “… (um homem sem cornos, por exemplo)… é como um jardim sem flores”.

Sendo Wawel assim tão importante, justifica-se plenamente que eu gaste mais uns quatro ou cinco “posts” tendo como base a manhã que lá passei.

(continua)

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(1)  E que além de incontornável, o que já é bom, é gratuito, o que ainda é melhor. Grátis é um preço excelente! Como dizia o meu amigo Américo Amorim, “mais do que zero é muito”. E olhem que não é por acaso que ele é o homem mais rico de Portugal.

 

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