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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Dom | 26.10.08

Uma vista que custava 204 euros por dia

Jorge Fiel

A vista de Wawel que eu não tinha do meu quarto

A vista de que desfrutei da janela panorâmica do quarto 429 (1) do Ibis Centrum Kraków não é exactamente a imagem que eu escolheria para passar pelos meus olhos antes de morrer.

Mas seria injusto não declarar desde já que o Ibis Centrum está extraordinariamente bem localizado, a pouco mais de uma centena de metros das bucólicas e atraentes marginais do rio Wisla e a uma “walking distance” (2) das principais atracções turísticas de Cracóvia.

Ao contrário do que a crise financeira internacional teima em demonstrar, nem todos os capitalistas são completamente estúpidos e desprovidos de bom senso.

No caso de Cracóvia, o grupo francês Accor aproveitou um belo terreno (3), que penso ter adquirido em boa hora (ou seja nos primeiros tempos agitados de privatização do capitalismo de Estado que vigorou na Polónia desde o final da II Guerra Mundial até 1989), para instalar não um mas sim dois hotéis.

Eu, que desde que comecei a usar, com resultados positivos, o champô anti-caspa Head & Shoulders, me tornei um adepto entusiasta do conceito “dois em um”  não posso deixar de me curvar perante a sabedoria da decisão do grupo hoteleiro francês.

A Accor optou por dar a vista de rio ao quatro estrelas Novotel, deixando as traseiras para o duas estrelas Ibis. Nada a objectar, portanto.

Se eu quisesse estar a pastar da janela do meu quarto a colina de Wawel e o curso pachorrento das águas do Wisla até Gdansk (com escala em Varsóvia), em vez da fachada envidraçada que imortalizei no “post” anterior , tinha um bom remédio: mudar-me para o Novotel e pagar 192 euros por noite por um quarto duplo, em vez dos módicos 269 zlotys (90 euros) que me custava o quarto por noite no Ibis (4) .   

Como diria o camarada Guterres, é fazer as contas. A minha família ocupava dois quartos e estivemos em Cracóvia sete noites. Hospedados no Novotel, teria de fazer face à conta calada (pensando bem a expressão adequada é “gritada aos berros” -  e não calada) de 2692 euros, quando no Ibis festa ficou-me por uns abordáveis 1260 euros.

Ora como eu não ando a roubar – ou seja nem sou praticante activo de “carjacking” nem financeiro – não me posso dar ao luxo de pagar 1432 euros por uma semana de vista e do Wawel (ou seja204 euros/dia).

Falei no Wawel pelo que os estóicas/os preclaras/os que persistem em frequentar esta lavandaria (5) têm todo o direito de perguntar: “Afinal, ó Fiel, o que é isso do Wawel?”. Até rima!

E eu respondo, sem medo das palavras e resumindo o que dizem a propósito os guias que me iluminaram nesta expedição a Cracóvia (6):

O Wawel é o berço da cultura na Polónia, a antiga residência dos reis e o local da sua coroação mesmo depois da capital ter sido transferida para Varsóvia e o símbolo maior do patriotismo da Nação que deu ao Mundo o Mlynarzick, a miúda da bilha do gás, o papa João Paulo II, a Rosa Luxemburgo, a Maria Walewska e o Chopin  - que, ao contrário do que pensava o pobre do Santana Lopes, compôs belíssimos nocturnos, mas não concertos para violino).

 

(continua)

 ……………….

(1)  Esta janela virada para o prédio (não para o mar, como a da canção), protagonizou um pequeno incidente eficazmente debelado pelo Ibis. Eu sou viciado em esplanadas e gosto de janelas abertas. Ao segundo dia, quando saí pela manhã deixei a janela escancarada.  Só na manhã do terceiro dia reparei que tinha sido imprudente. As paredes e tecto estavam cobertas com mais de uma centena de mosquitos, que estavam ali como completos parasitas, para se alimentarem do nosso sangue sem sequer se disponibilizarem para participarem no pagamento do quarto.  Socializei esta informação com a compatriota da miúda da bilha que estava de serviço à recepção, que após me ter passado uma leve admoestação – “Não se deixa as janelas abertas nesta altura do ano e à beira do rio!” – prometeu resolver o problema. O que realmente aconteceu.

   

(2) 999 mil desculpas pelo anglicismo, mas não me soa nada bem a expressão “distância andável”, nem a versão mais longa e descritiva: “distância susceptível de ser percorrida a pé”.

 

(3)  Entre a  Kósciuski, que corre paralela ao Wisla, e alameda Krasinkiego, que é perpendicular ao rio e integra uma circular de Cracóvia.   

 

(4) O preço pareceu-me bastante adequado ao que me deram em troca. Só tenho a dizer bem da variedade do pequeno almoço do bufete do pequeno almoço. Eu optei por um figurino constituído por uma tigela (às vezes duas) de iogurte local, com estilhaços de cebolinho por cima, uma tigela de salada de frutas, um pão com fiambre da perna fumado, vários copos de sumo de laranja e uma litrada de café tipo americano para bebericar  enquanto planeava a excursão do dia.

 

(5) Aproveito para recordar que a persistência é uma virtude que recomendo a gente de todas as idades e credos religioso e não apenas aos jovens casais de católicos ainda desajeitados na arte da interacção entre dois corpos e trocas de fluidos.

 

(6) O gratuito e incontornável In Your Pocket Kraków e o imprescindível Cracow da DK Eyetiness Travel, que dá a sua capa a uma bela fotografia de Wawel.

 

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