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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sex | 24.10.08

Nocturno nº 25 de Cracóvia, Op 69, em lá maior

Jorge Fiel

O cometa nos céus de Cracóvia não simboliza a nossa passagem pela cidade, já que por lá nos detivemos durante uma semana bem contadinha, de segunda a segunda

 

O camarada Guterres dizia que não há uma segunda oportunidade para deixar uma primeira boa impressão.

Como acredito piamente neste pedacinho de sabedoria guterrista e cheguei a Cracóvia já depois do sol posto, resolvi avisadamente (1) adiar para o dia seguinte a minha primeira impressão da cidade.

Estou em crer terá sido a decisão certa. O povo está cobertinho de razão (tal como o camarada Guterres) quando diz, na sua imensa sabedoria, que de noite todos os gatos são pardos.

As luzes nocturnas, coligadas com a escassez delas e os efeitos perniciosos do consumo excessivo de vinho, vodka, caipirinha, whisky, gin e outros álcoois, têm sido -  ao longo dos tempos, e em diversas latitudes do Globo -, a mãe de muitos equívocos lamentáveis.

Não andarei longe da verdade se afirmar que se devem contar pelos dedos da mão (2) os passageiros frequentes desta lavandaria que pelo menos uma vez na vida não acordaram com uma enorme dor de cabeça e de imediato viram-se à beira de um ataque de pânico ao repararem que o outro lado da cama está ocupado por uma desconhecida, que em 99,9% dos casos não é parecida em nada com a miúda da bilha (3).

Foi por estas e por outras que guardei para o dia seguinte a minha primeira impressão da cidade.

O Fernando foi-nos buscar à estação ferroviária (que me pareceu muito mais decente e navegável que a sua homónima de Varsóvia) , levou-nos ao hotel  (Ibis Kraków Centrum, ulica Syrokomly 2, quarto duplo com pequeno almoço incluído, 290 zlotys/dia ) para fazermos “check in” e deixarmos as malas nos quartos, após o que nos transportou até à sua residência onde jantamos um arroz de pato (que desde já vos informo estava supimpa), confeccionado pela Luísa, que foi empurrado por um divino Vale Meão.

Abstenho-me de divulgar a morada (porque acho altamente improvável que eles vos convidem a jantar lá em casa) e preço (porque foi de borla).

Em todas estas deslocações olhei para Cracóvia “by night” da janela do Audi do meu primo, com a mesma enfadada ausência de paixão que voto à paisagem urbana do Porto que faz de cenário à viagem de metro entre a Casa da Música e a Senhora da Hora.

A primeira impressão estava adiada para o dia seguinte, 9 de Setembro de 2008.

 

Por norma as desconhecidas que acordam ao nosss lado não têm esta presença

(continua)

……………….

(1) Acho absolutamente despropositado este abuso, continuado e gratuito, dos advérbios de modo, mas, o que querem?, é completamente superior às minhas forças.

 

(2) Refiro-me especificamente à mão usada no acto da masturbação, que não é necessariamente a mesma que é utilizada no obrigatório manuseamento do papel higiénico que se segue à conclusão das nossas necessidades fisiológicas de carácter sólido (acto quotidiano, com excepção de pessoas atreitas a prisão de ventre, e vulgarmente designado pela expressão sintética "limpar o cu"). Mas reconheço que a diferença, no caso em apreço, apenas seria relevante se a pessoa em causa tivesse mais dedos (seis, por exemplo, como o antigo defesa esquerdo benfiquista Álvaro) numa mão do que noutra.

 

(3)  Parece-me que nestes casos, a melhor solução não é perguntar à desconhecida se tem Sida. Acho muito mais prudente certificar-se primeiro se o seu pirilau está agasalhado por um preservativo engelhado - e depois optar pela capitulação pura e simples. Não hesite. Abdique imediatamente do resto de vergonha que tem na cara e recomece tudo de novo perguntando, por esta ordem, “como te chamas?”, ”o que fazes na vida?” e “quantos anos tens”? (esta última é opcional, e deve mesmo ser evitada em casos de avistamento de abuso de botox ou ainda se a parceira tiver veias azuis muito salientes a sulcar uma pele que nos faz lembrar os pergaminho antigos),  antes de entrar na fase mais perigosa do diálogo sugerindo um jogo: “Vamos os dois fazer um puzzle imaginário, tentando reconstituir em conjunto tudo o que nos aconteceu ontem à noite?”

 

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