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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Dom | 12.10.08

Um Empire State Building atarracado, talvez assim preparado para aguentar um qualquer King Kong

Jorge Fiel

 

Varsóvia é como as pessoas, que vistas ao longe são sempre melhores do que ao perto. Tem um nome forte e romântico, que ganha o adequado dramatismo escrito (sobretudo dito) em polaco – Warszawa.

Ao baptizar a aliança militar anti-Nato (Pacto de Varsóvia), estabelecida entre a URSS e os países de Leste (ditas “democracias populares”) que giravam na sua órbita, o nome da capital polaca tornou-se uma das marcas de água do século XX.

Para ver Varsóvia ao longe, nada melhor do que investir 20 zlotys (cerca de seis euros) na subida ao 30º andar do Palac Kultury i Nauki (Palácio da Cultura e Ciência), um imenso e desajeitado ícone dos tempos da Guerra Fria que tatuou a paisagem de Varsóvia.

Oferecido pelo “povo soviético” (cinco mil operários russos trabalharam durante três anos na sua construção), o Palácio da Cultura está para Varsóvia como a Torre Eiffel para Paris, o Big Ben para Londres, e a Torre dos Clérigos para o Porto (1).

Na imponência dos seus 40 milhões de tijolos e 231 metros de altura, o palácio é omnipresente. Como se vê de todo o lado, assume o útil um papel de farol urbano, idêntico ao que era assegurado pelas Twins Towers, em Nova Iorque.

Uma pessoa saía do “subway” e o nosso olhar procurava instintivamente que as torres gémeas nos orientassem, dizendo-nos que a “downtown” era para ali - e a "uptown" no sentido contrário.

Na data da sua inauguração (1955, ou seja Stalin já pertencia ao mundo dos mortos), o Palácio da Cultura era o segundo edifício mais alto da Europa.

E ainda mantém o título de mais alto de toda a Polónia, apesar do acelerado regresso do capitalismo lhe estar a fornecer farta companhia na linha de horizonte de Varsóvia, que outrora dominou isoladamente.

Olha-se para ele e fica-se com a impressão de que é uma espécie de Empire State Building atarracado, muito menos elegante, mas mais musculoso, talvez preparado para melhor aguentar, sem ceder, a eventual presença de um qualquer King Kong (2).

A justeza desta minha primeira impressão confirmou-se quando soube que Stalin enviou secretamente para Nova Iorque espiões que tinham como missão reunir informações sobre o método norte-americano de construção de arranha céus, posteriormente usadas na edificação do palácio da Cultura.

   Ir ao 30º andar custa 20 zlotys

 

 

 

(continua)

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(1) Se bem que eu suspeite que não tarda muito a que a estranha forma da Casa da Música substitua neste papel o elegante ponto de exclamação barroco riscada por Nasoni.

(2) Entre muitas outras coisas o Palac Kuktury alberga um moderno multiplex de cinemas...

 .

 

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