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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 16.09.08

Alguns pensamentos sobre a proposta audaciosa, manhosa e engenhosa do governador Prakash

Jorge Fiel

Fiquei impressionado com a proposta apresentada pelo preclaro governador do estado indiano do Bihar, Vijay Prakash, que sugere passemos a alimentar-nos de ratos e sublinha as excelências nutrientes destes pequenos (bem, às vezes não são tão pequenos quanto isso)  roedores.

Quando tomei conhecimento da audaciosa proposta de Vijay, a minha primeira reacção foi responder-lhe : “Têm fome? Comam bifes de vaca!” – e pensar que estava claramente sobre a influência perniciosa de um visionamento mal digerido (e ainda pior compreendido)  de “Ratatouille” o famoso e recente filme de animação da Disney.

Mas já aprendi que devemos ser cautelosos e desconfiar sempre da nossa primeira reacção. Contei mentalmente até dez e respirei fundo, enquanto lia a notícia até ao fim, e constatei que a proposta do governador Prakash não era apenas audaciosa – mas também manhosa.

Ao fim e ao cabo, o que o estimado Vijay ambiciona é um Head & Shoulders -  o verdadeiro dois em um. Se lograr convencer o povo do seu estado a atirar os ratos para o fundo da panela, não só lhes enche o papo como ainda por cima elimina uma marabunta que ataca os stocks de cereais. Estamos assim na presença de uma proposta que não só é manhosa -  mas que ainda por cima é engenhosa.

Apesar disso, e não obstante a proposta do astuto Vijay ser audaciosa, manhosa  e engenhosa, na minha qualidade de frequentador assíduo e entusiasta de restaurantes indianos, declaro desde já urbi et orbi que votarei ao ostracismo (o que, desde já aviso, não tem nada a ver com ostras) se sequer desconfiar que alguma dessas casas está a encarar a hipótese de incluir no seu menu o caril de rato ou a ratazana tandoori.

E nem sequer ousem pensar que esta ameaça não passa de algumas  palavras escritas com a cabeça quente, numa tarde morna de final de Verão, após dez dias de férias passadas entre Varsóvia, Cracóvia e Wroclaw.

Há coisa de 20 anos, estava eu descontraidamente a almoçar no restaurante chinês em frente ao Bom Sucesso (no Porto), quando o meu preclaro amigo Rogério Gomes detectou a presença de uma pequena barata no interior do frasco de molho de soja que usava para temperar a loempia.

Prontamente o Roger chamou a atenção da anomalia à dona do restaurante, que acto contínuo operou um rápido vaivém entre a nossa mesa e a cozinha. No regresso, trazia um sorriso nos lábios e disse ao bom do Roger . “Toma!” enquanto lhe devolvia o frasco de molho de soja já despojado da barata – que ela deve ter comido na cozinha enquanto dizia para os seus botões: “Que tolos estes diablos blancos! Não sabem aplecial o melor!”.

No seguimento deste episódio, adoptei um duro e persistente veto pessoal aos restaurantes chineses, que conheceu uma única excepção, ocorrida a dia 30 de Setembro de 2005, quando paguei 50 euros por um excelente Dim Sum (a Isabel, a Luísa e o Fernando não partilham esta minha apreciação, mas isso não vem ao caso) para quatro pessoas no venerável restaurante Nam Tim, na Jodenbreestraat, 11-13, em Amesterdão.

Não gosto de ratos, sendo que aqui também há uma excepção. Alimento uma vaga simpatia pelo Rato Mickey. Aprecio em particular o peculiar formato das suas orelhas e a paciência que tem para aturar a tonta da Minnie.

Partilho com os ratos a paixão pelo queijo. Partilhei ainda com eles o primeiro andar do 304 da avenida Rodrigues de Freitas onde vivi os primeiros 15 anos da minha vida.

Nunca gostei de ratos. Nem mesmo em pequeno. Sendo que esta animosidade antiga não se filia no facto de eles habitarem clandestinamente, como verdadeiros okupas, a minha residência, sem contribuírem para a renda da casa.

É com algum orgulho que recordo o dia em que assassinei, com um tiro certeiro de sapato, um rato que corria junto ao lambrim do meu quarto nas águas furtadas.

Reconheço não ser muito consequente detestar ratos e ter alguma consideração por alguns dos seus primos, directos ou afastados, como os ternurentos esquilos, as fofas preguiças ou os pacatos cangurus. Mas às vezes a coerência apenas serve para camuflar uma aflitiva falta de imaginação!

 

 

 

 

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