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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 19.08.08

Sobre a utilidade marginal de um iPod

Jorge Fiel

 Fazer de conta que somos um pouco duros de ouvido ajuda muito a desembrulhar-nos nestes tempos complicados e difíceis de entender em que vivemos.

Todos os dias ouvimos coisas que preferíamos não ter ouvido. Nestes casos, a melhor táctica é fazer de conta que não as ouvimos, ponto final parágrafo.

Mas a adopção desta táctica obriga-nos ao prévio esforço de estabelecimento da reputação de ligeira surdez junto de amigos, conhecidos, colegas e superiores hierárquicos.

No esforço de construção desta fama, poderá ser fatal incorrer em  exageros, como cair na tentação de imitar as respostas non sense do professor Tournesol ou usar atrás da orelha aparelhos da Sonotone.

Começar a debitar uns decibéis acima do normal, tal como fazem os canais de televisão durante os intervalos publicitários, é um truque de adopção obrigatória, porque todos os surdos falam aos berros.

O Luís Filipe Menezes é a excepção a esta regra, pois é surdo e fala baixinho. Tenho reflectido bastante sobre este caso e conclui que das três uma:

a)     É um falso surdo, que aparenta essa deficiência para fazer de conta que não ouve coisas que prefere não ouvir;

 

b)    Fala baixinho por táctica, pois no meio de uma berraria  baixar o tom de voz é a melhor receita para quem pretende captar a atenção dos presentes;

 

c)     As duas anteriores são verdadeiras.

 

O iPod pode ser um precioso auxiliar neste processo de passar por surdo. Experimente passar em média três horas por dia a ouvir, no volume máximo, uma dieta musical à base de Stones, Led Zeppelin, Yes, Black Sabath e Deep Purple, e ao fim de um par de meses verificará que está a desempenhar na perfeição do papel de surdo – pela única e simples razão de que está efectivamente com sérios problemas de audição.

Mas pode usar o iPod com o mesmo êxito e menos consequências, se andar sempre com os auscultadores brancos colocados os ouvidos mas com o aparelho desligado. As outras pessoas julgarão que está a ouvir o álbum Oito, dos Rádio Macau, e por isso desculparão que não lhe tenha deixado sem resposta a pergunta “Tens aí 20 euros que me emprestes porque eu deixei a carteira em casa?!”.

Os auscultadores nos ouvidos, mesmo com o iPod desligado, têm um efeito dissuasor equivalente ao do livro que, no filme “Turista Acidental”, William Hurt transportava como repelente de eventuais tentativas de paleio desencadeadas pelo parceiro do lado durante uma viagem de avião.

Se fizer de conta que está a ouvir música, evita ter de fazer conversa quando vai na rua, metro ou comboio e tropeça em colegas, amigos ou conhecidos. Basta acenar-lhes e, se for caso disso, piscar-lhes o olho.

 

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