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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Seg | 24.09.07

Três razões para detestar os Moleskines

Jorge Fiel
Tenho para mim que um bom profissional tem de ter elevadas estima e consideração pelas suas ferramentas de trabalho.

É no quadro da firme e fiel obediência a este princípio que não prescindo do uso quotidiano dos cadernos quadriculados Clairefontaine (9x14 cm, 96 páginas, made in France) e das esferográficas japonesas Muji ( ponta de 0,5mm, made in Thailand).

Uso estas ferramentas para guardar ideias, projectos, palavras para "passwords" (não sei se isso acontece convosco, mas os meus computadores estão sempre a pedir uma "password" nova), frases (devo confessar, sem falsas modéstias, que sou um grande coleccionador de frases*), listas de compras, códigos Pin, números de telemóvel, endereços, registo das despesas e de movimentos na conta bancária e cartão de crédito, etc, etc, etc.

Na minha vida, os caderninhos Clairefontaine e canetas Muji são tão importantes como a pá de assentar cimento para o trolha, os walkies talkies para os seguranças de centro comercial, as sapatilhas para o Nelson Évora ou a seringa para o arrumador drogado. São a minha ferramenta de trabalho.

Por norma, aprovisiono-me de cadernos e canetas em Paris.

Como nunca descobri nas nossas papelarias cadernos Clairefontaine da dimensão desejada (os mágicos 9x14 cm que se disfarçam com perfeição em qualquer bolso do casaco, mesmo no outrora reservado ao lenço), compro-os aos montes na papelaria no subsolo da Gibert Jaune, logo à entrada do Boulevard Saint Michel, no Quartier Latin.

As esferográficas Muji adquiro-as às dezenas na loja do Marais desta cadeia japonesa que não há meio de se instalar em Portugal (é por essas e por outras que desconfio que a globalização ainda tem de comer muita broa de Avintes).

Os cadernos podem variar na cor da capa (azuis, verdes, vermelhos), mas nunca no tamanho nem no quadriculado. Tenho pavor por cadernos de linhas e acho que o fundo quadriculado é muito mais disciplinador que a  folha em branco.

Confesso que já experimentei a versão 192 páginas, que, pela sua capacidade, é claramente a mais adequada às fases de repórter das nossas vidas (quando se enchem as páginas umas atrás das outras com apontamentos de conversas) mas tem o inconveniente de fazer um enorme chumaço no casaco, o que é muito mau para uma pessoa como eu, que sou um grande perito (provavelmente um dos maiores especialistas vivos) na arte de deformar bolsos.

Posto isto, informo que tenho ao serviço desde 4 de Julho um Clairefontaine de capa azul de 96 páginas, que ainda dura pelo menos até ao final do mês. O anterior, também azul, de 196 páginas, durou de Fevereiro a Julho.

Atendendo ao facto de boa parte da informação que arrumo nos cadernos quadriculados não ser perecível, guardo-os depois de esgotados e após ter posto na capa uma etiqueta com a informação cronológica do período da minha vida em que estiveram no activo.

Chegados a esta altura, 72,9% dos membros da lavandaria ainda se interrogam porque é que eu não uso os famigerados Moleskines.

E eu explico. Detesto quase tanto as pessoas que usam Moleskines como aquelas que calçam sapatos com berloques. 

Detesto os Moleskines por três ordens de razões:

1. São pornograficamente caros. Os dez euros que custa cada um chegam (e  sobram) para eu comprar uma dúzia de cadernos Clairefontaine;

2. É tão provável um escritor ou jornalista usar na dia a dia da sua vida real um Moleskine como o João Garcia (o alpinista, de nariz esquisito, não o meu bom amigo e colega) se equipar para as suas expedições numa loja Coronel Tapioca;

3. O papel dos Clairefontaine é infinitamente melhor que o dos Moleskine.

Cheguei primeiro aos Clairefontaine do que às canetas Muji. Adoptei a Muji como minha esferográfica oficial, depois de ter verificado que era a que mais suavemente deslizava e mais claramente imprimia o papel aveludado de 90 gramas/m2 dos cadernos Clairefontaine.
 
Acresce que é bastante alargada e plural a oferta da Muji na secção de esferográficas. Estão disponíveis num número praticamente infindável de cores. De momento, as minhas favoritas são as roxas, verde musgo, azul ultramarino e vermelho escuro.

Resumindo, baralhando e concluindo. Na minha opinião, a doçura e voluptuosidade da escrita só podem ser obtidas com o uso de esferográficas Muji e cadernos Clairefontaine.

* A  última frase que anotei foi a dirigida pelo impagável W Bush ao camarada Sócrates durante a recente audiência que lhe concedeu na Casa Branca: "I apreciate that you are setting such a good example for people in your own country and around the world by being an avid exerciser at the ripe old age of 50".

(cá para mim estava a gozar com ele de fininho...)

Jorge Fiel

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