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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 14.05.08

Uma visão crítica da teoria de gorjetas do camarada Mora

Jorge Fiel

 

Num dia da semana passada fui almoçar ao Andaluz, na rua de Santa Marta. Correu bem. As lulas grelhadas estavam boas, como de costume, e o meu amigo e camarada Mora (trata-se de um pseudónimo porque ele me proibiu de citar o seu nome de BI) estava muito menos implicativo do que é costume.

 

A conversa mole do almoço só endureceu quando chegou a altura de pagar a conta. A causa não foi a divisão da conta, já que o Paulo Freitas (num gesto de grande largueza que só o dignifica) resolveu arrematá-la. Não. A esquina teve só a ver com a gorjeta.

 

Amigo da América, onde, segundo creio, tem primos, Mora surpreendeu-nos ao criticar vigorosamente as bases do sistema de gorjetas em vigor nos Estados Unidos.

 

Não lhe parece bem que a gorjeta, que recompensa um serviço, seja uma percentagem da conta e não um montante fixo.

 

Argumenta que não há diferença sensível entre servir uma garrafa de Merlot argentino, de dez dólares e o Opus One, que pode custar 400 dólares a botelha.

 

Aplicando a percentagem de referência para as gorjetas em território americano (15%), no caso do vinho sul-americano haveria lugar a uma gorjeta de 1,5 dólares (um euro) enquanto que quem se atrevesse a encomendar o Opus One californiano incorreria numa “tip” de 60 dólares – cerca de 45 euros, dinheiro que chegava e sobrava para comprar uma caixa de Fontanário de Pegões branco e outra de Evel tinto.

 

Estou pronto a reconhecer que o raciocínio do camarada Mora é, à primeira vista,  muito sedutor, mas não é suficientemente sexy para me convencer.

 

A gorjeta ser calculada com base numa percentagem sobre a despesa realizada tem o encanto romântico de ser uma atitude do tipo Robin dos Bosques ou, se preferirem, ao estilo “os ricos que paguem a crise”.

 

Como se sabe, nos Estados Unidos a remuneração dos empregados de mesa é, no seu essencial, constituída pelas gorjetas, o que torna o exercício desta profissão especialmente atraente nos restaurantes caros.

 

Parece-me completamente sintonizado com os princípios básicos do marxismo e a doutrina da Santa Madre Igreja que um indivíduo que comeu um refeição de 20 dólares pague uma gorjeta de três dólares, enquanto um hedonista, com um salário anual na ordem dos seis dígitos,  que consumiu um opíparo jantar de 400 dólares, seja esportulado em 30 dólares. Acho isso muito bem feito. Quem não tem dinheiro não tem vícios. Ponto final, parágrafo.

 

Estou firmemente convencido que o terceiro do almoço do Andaluz (o nosso bem amado mecenas Paulo Freitas) comungou do meu ponto de vista crítico face à teoria das gorjetas do camarada Mora.

 

Mais se me oferece dizer sobre esta magna e candente questão que, no nosso país, encaro a gorjeta como um investimento. As minhas mãos são mais largas nos restaurantes de que sou cliente frequente, na esperança de que a minha generosidade renda dividendos.

 

Já no que toca a restaurantes que uso na base do “one meal stand” declaro-me um apoiante entusiasta da doutrina do meu amigo Joe Berardo que preconiza dar-se gorjeta à cabeça, antes de encomendar a refeição.

   

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