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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 01.05.08

A minha história com a rapariga generosa da camisola cor de rosa no Continente do Vasco da Gama

Jorge Fiel

Já se passaram umas boas doze horas sobre o acontecido, mas ainda me culpo pela falta de uma reacção rápida.

Ontem à noite, depois de sair do jornal, fui de metro buscar o Fiat Marea, que desde domingo estava estacionado em frente à Gare do Oriente. Resolvi aproveitar para abastecer a dispensa e frigorífico no Continente do Vasco da Gama.

Já passava das nove da noite, mas era véspera de feriado e não encontrei filas para as caixas com menos de meia dúzia de pessoas à frente.

Foi com um enorme despreendimento e muito pouca fé que escolhi a fila que a intuição me dizia ser a mais promissora.

A vida ensinou-me que seja nos supermercados, na auto-estrada ou na emigração para entrar nos EUA, a fila que eu escolho é invariavelmente a mais lenta. Trata-se de uma adaptação muito pessoal da lei de Murphy.

Ontem estava com sorte. Para ocupar mentalmente o tempo de espera, comparei a progressão da minha fila com a do caixa ao lado - e qual não foi a surpresa quando constatei que a minha se escoava muito mais rapidamente.

A sensação de que algo de importante podia estar a mudar da minha vida (estarei a transformar-me num Gastão?) obteve uma curiosa confirmação quando uma rapariga de camisola cor-de-rosa, que tinha acabado de pagar as compras, se virou para mim e disse: “Ei senhor, não quer ficar com isto?!” enquanto me enfiava na mão um cupão de desconto de quatro euros e se foi embora.

Foi tudo muito rápido. Quase de certeza que a rapariga da camisola cor de rosa tinha um sotaque brasileiro, mas não quero jurar.

Obriguei-me a um “flash back” e consegui reconstituir os antecedentes desta estranha e generosa oferta.

Não me lembro do que ela comprou, mas sei que a soma dos artigos não chegava aos 22 euros. Entregou o cupão para abater na compra. A rapariga da caixa explicou-lhe que não podia ser. Que só podia usar o cupão – cuja validade expirava ontem, 30 de Abril – em compras de valor igual ao superior a 25 euros.

A caixa ainda lhe sugeriu que ela fosse buscar mais alguma coisa para a conta subir aos 25 euros e poder usar o cupão – ela esperava. Mas a rapariga generorosa da camisola cor-de-rosa devia estar com muita pressa e não seguiu este conselho vantajoso.

Olhou para trás e foi muito rápida a avaliar a situação.

As duas mulheres que estavam entre mim e ela tinham poucos artigos no tapete. Compras seguramente inferiores aos 25 euros. Ora eu não só trazia muitas compras (57.99 que ficaram em 53.99 após o desconto) como ainda por cima tinha nas mão dois cartões vermelhos – o de descontos do Continente (indispensável para beneficiar do cupão) e o Multibanco do Santander.

“Ei, senhor não quer ficar com isto?!”, disse. Meteu-me o cupão na mão e foi-se embora. Nunca cheguei a ver-lhe a cara – apenas a camisola. Antes dela desaparecer, só tive o tempo de lhe agradecer.

Já se passaram umas boas doze horas (o talão de caixa registou as 21.18.07 como a hoar do meu “check out”) sobre o acontecido, mas ainda me culpo pela falta de uma reacção rápida.

Sinto que devia ter partilhado a vantagem do cupão com a rapariga generosa da camisola cor-de-rosa. No mínimo, devia ter-lhe oferecido dois euros.

 

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