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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 26.04.08

179.629,02

Jorge Fiel

Cento e setenta e nove mil, seiscentos e vinte e nove euros e dois cêntimos. Arredondando, estamos a falar de 180 mil euros. É esse o dinheiro que a Sojornal, a sociedade proprietária do Expresso, vai pagar para se ver livre de mim.

 

Ou, dito pelas palavras do advogado que redigiu o documento intitulado Cessação de Contrato de Trabalho por Mútuo Acordo, os 179.692,02 euros são a «compensação pecuniária de natureza global» que «a Empregadora» me paga «em contrapartida da cessação do contrato».

 

«180 mil euros? Não é mau… Podia ser pior!» é frase que ouço de volta sempre que quando me perguntam quanto é que vou receber em troca de conceder ao Expresso o divórcio, amigável e por mútuo consentimento, de um casamento que durava há 17 anos.

 

Podia ser pior. É verdade. Pode sempre ser pior. O Expresso podia não me ter pago um cêntimo sequer - e ainda por cima dar-me um pontapé nas costas. Isso seria seguramente muito pior. Mas também podia ser melhor.

 

Claro que podia ser melhor. Lembro-me que no exacto dia em que chegamos a acordo quanto ao montante da indemnização, li no jornal que o Stanley Ho tinha dado 330 mil euros por uma trufa.

 

Foi um bocado arrepiante pensar que apenas conseguiria comprar uns 57,8% dessa trufa com a indemnização correspondente a 17 anos de vida, durante os quais escrevi milhões de caracteres, engordei 15 quilos, perdi milhares de cabelos, tive de ultrapassar centenas de chatices e sofri um enfarte do miocárdio.

 

As comparações são tramadas. Eu sei perfeitamente que não faz nenhum sentido ir por aí, mas a verdade é que também não gostei nada de saber que o Frank Lampard renovou o contrato pelo Chelsea e passou a ganhar 200 mil euros por semana.

 

Ou seja, numa semana qualquer – mesmo que esteja de férias, lesionado doente ou em baixo de forma -, o Lampard leva para casa mais dinheiro do que o Expresso pagou para aliviar a rubrica do balanço a que os bancos e analistas dedicam especial atenção e a carregar aquela que eles mais apreciam – a dos custos de reestruturação!   

 

As comparações são tramadas. Eu sei perfeitamente que não faz nenhum sentido ir por aí, mas a verdade é que há mil milhões de pessoas no Mundo a viver com menos de 73 cêntimos por dia e que o Cristiano Ronaldo ganha 25 mil euros por dia, ou seja 88 cêntimos de três em três segundos.

 

Eu estou habituado a ganhar por mês aproximadamente o que o Cristiano Ronaldo ganha em quatro horas e meia. Não é mau. Podia ser pior.

 

Por este artigo, a Autêntica prometeu pagar-me 600 euros. Não é mau. Podia ser pior. 636,50 euros foi o salário médio mensal recebido em 2006 pelos nortenhos que trabalham por conta de outrém. Eu escrevi este artigo em cinco horas.

 

Mas podia ser melhor. É quase metade dos mil euros que Pimpinha Jardim pede de cachet para abrilhantar uma festa. A filha da Cinha (que, a idade não perdoa, cobra apenas 500 euros para comparecer num evento) ganha esse dinheiro numa noite, dando dois dedos de paleio a uns imbecis, beberricando umas margueritas e posando para os fotógrafos das revistas cor-de-rosa.

 

Dinheiro (aparentemente) bem mais fácil de ganhar do que estar aqui agarrado a um portátil a escrever os 15 mil caracteres solicitados, num portátil da HP com dois anos de vida e que de vez vai abaixo sem aviso, enquanto ouço os Beatles (A Hard Day’s Night).

 

Chegados a esta altura, o/a leitor (a) está com toda a certeza a pensar duas coisas.

 

A primeira é que o Expresso fez muito bem em pagar os 179.629,02 euros para me despachar, porque um tipo que escreve isto só pode estar doido.

 

A segunda é interrogar-se sobre qual o sentido de eu estar a fazer este «strip tease», revelando verbas (a indemnização, o salário, o «cachet» ganho por este artigo) que a esmagadora maioria das pessoas sabiamente manteria em segredo.

 

Eu explico. Não tenho segredos para si.

 

Desatei a revelar estes números por duas razões.

 

A primeira é uma tentativa desesperada de atrair e prender a sua atenção. Neste mundo em que paramos num semáforo e recebemos três diários gratuitos, chegamos a casa, ligamos a televisão, e temos mais de uma centena de canais à nossa disposição (incluindo dois russos, dois chineses, um romeno e um búlgaro, que é o meu preferido), o factor escasso é a atenção humana.

 

Eu satisfaço-lhe a sua curiosidade «voyeurista», soprando-lhe ao ouvido números que o normal dos jornalistas manteria confidenciais, em troca da sua atenção.

 

É um negócio justo, não acha? Claro que há também uma razão egoísta por detrás deste esforço. É que eu quando escrevo qualquer coisa tenho a vaidade de gostar que me leiam…

 

A outra e segunda razão consiste no facto de eu detestar o excessivo pudor e reserva com que nós, portugueses, tratamos a questão do dinheiro.  Ninguém diz a ninguém quanto ganha – e é considerado má educação perguntar a alguém qual é o seu salário ou quanto levou para casa de prémio no final do ano.

 

Este secretismo mergulha as suas raízes na crença que o dinheiro é sujo. O que se é verdadeiro, do ponto de vista estrito (as notas e moedas passam por muitas mãos e ninguém está habituado a lavá-las antes de manusear o dinheiro), já deixa necessariamente de o ser do ponto de vista figurado.

 

Todo o dinheiro a que me referi é duplamente limpo.

 

Limpo porque ganho de uma forma legítima, com o suor do meu rosto (no Verão, eu suo muito J), em actividades legais, e declarado ao Fisco. A indemnização, o salário, o «cachet» são obtidos em troca de trabalho - e não da venda de drogas, armas, extorsão ou lenocínio.

 

Limpo também porque as verbas a que me refiro são líquidas, depois de deduzidos os impostos, que não são pêra doce. Não sei se sabe (se não sabia, pelo menos desconfiava), mas 38% do salário de um português médio vai para aos cofres do Estado, entre IVA, impostos especiais sobre o consumo (tabaco, gasolina, álcool), IRS e protecção social.

 

Interroguei-me sobre os motivos que estão por detrás da nossa vergonha em falar de questões de dinheiro e conclui que há duas explicações poderosas para este pudor (que eu não partilho): uma prática e outra cultural.

 

A explicação prática tem a ver com o evitar invejas, afugentar roubos e a curiosidade ávida do Fisco. É um motivo a um tempo compreensível e contraditório.

 

O ditado popular nº 524 do Rifoneiro Português, compulsado por Pedro Chaves (Editora Domingos Barreira, 1945) reza o seguinte: «Dinheiro e mulher mostrado, está em véspera de ser roubado».

 

O português deste ditado popular é bastante deficiente, mas a ideia que transmite é clara e cristalina. Ostentar riqueza pode ser meio caminho andado para atrair as forças do Mal.

 

No mundo dos pequenos e médios negócios privados, aprendi que quando se pergunta a alguém «Como vai a vida?», se obtém automaticamente uma mentira como resposta.

 

Se os negócios correm mal, respondem-nos que a coisa corre sobre rodas, a empresa vai de vento em popa. Revelar a triste e dura verdade significaria piorar a situação, pois os bancos e fornecedores torceriam com toda a certeza o nariz e fechariam a torneira do crédito.

 

Se os negócios correm às mil maravilhas, respondem-nos que a conjuntura está muito difícil, pois ninguém paga a ninguém, é a crise. Esta mentira é a aplicação prática do bom e velho principio de que «quem não chora não mama», ao mesmo tempo que as dificuldades apregoadas funcionam como um guarda chuva preventivo face a eventuais pedidos de dinheiro ou emprego.

 

Esta reserva face às questões de dinheiro é algo contraditória com a ostentação que está inscrita no código genético de 99,3% dos portugueses (1) que adoram conduzir carros caros e vistosos, vestir roupa de marca e depositar em cima da mesa da esplanada o último grito da Nokia, enquanto conversam em voz alta sobre as peripécias da passagem de ano no Brasil e detalha a planificação das próximas férias na neve.

 

Deixando por desatar este pequeno nó da explicação prática para o pudor português em falar de dinheiro, passo à pista cultural para este comportamento – e quem fala de cultura em Portugal fala inevitavelmente da religião católica.

 

A verdade é que nas sociedades protestantes e anglo-saxónicas a generalidade das pessoas não se incomoda nada em revelar o seu salário e em falar descomplexadamente de dinheiro.

 

Em Portugal, a lista dos mais ricos da Exame é uma estimativa mais ou menos grosseira (é a melhor aproximação que se consegue a uma realidade nebulosa), enquanto que a lista da Forbes é científica.

 

É perfeitamente clara a diferença na maneira como a questão do dinheiro é abordada no Antigo e no Novo Testamentos.

 

No Antigo Testamento, a riqueza é bem vista, olhada como um dom de Deus. O dinheiro, que recompensa a virtude ou o trabalho, é um bem desejável.

 

Já no Novo Testamento, em particular no Evangelho de Lucas, o dinheiro é olhado como algo sujo:  «É mais fácil fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus» (Lucas, 18.25).

 

Judas vendeu o filho de Deus por 30 dinheiros. Jesus adverte-nos para os perigos do dinheiro: «Não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro».

 

O Novo Testamento deixou as suas impressões digitais espalhadas por todo o lado na nossa cultura face ao dinheiro, em que os bens espirituais são sobrevalorizados e contrapostos aos terrenos.

 

Esta cultura neotestamentária, que incensa os valores espirituais como a verdadeira riqueza e exalta a pobreza, está sintetizada de uma forma soberba num verso da mais conhecida canção da telenovela Floribella: «Sou rica em sonhos, mas pobre, pobre em ouro».

 

Só vestida na pele da personagem de cinema de rapariga má (a «call girl») é admissível à portuguesa Soraia Chaves (2) declarar que prefere ser infeliz ao volante do seu Audi a ser feliz a viajar num banco de autocarro.

 

O actor Jack Dempsey (o eterno namorada da intrigantemente bela e Meredith em «Anatomia de Grey») afirmou recentemente que «a vida é, sem dúvida, muito melhor com dinheiro».

 

É muito pouco provável que a Soraia Chaves educada numa cultura que cunhou o provérbio «o dinheiro não trás felicidade» (o que é verdade, mas ajuda muito…) algum dia venha a fazer em público uma declaração de teor idêntico à do seu colega norte-americano.

 

Ao não me ralar nada em divulgar quanto ganho, revelo um comportamento minoritário e transgressor da cultura tradicional portuguesa face ao dinheiro.

 

Ao sentir um imenso terror a dever dinheiro, revelo ter ficado com um mandamento da cultura tradicional portuguesa tatuado na minha personalidade.

 

Só que volto a ter um comportamento minoritário, pois foi neste particular do endividamento que há a registar a mais espectacular e recente mudança na nossa cultura e mentalidade. 

 

Por norma, os portugueses eram seres poupados e tinham aversão a pedir ou emprestar dinheiro. Salazar apanhou bem esta nossa faceta idiossincrática, que estruturou em código de conduta.

 

Pobrezinhos mas honrados, devemos habituar-nos a viver com o que temos, dar graças a Deus e ser felizes com o que nos coube em sorte nesta vida.

 

A sabedoria popular está pejada de ditados que reflectem este aspecto da nossa cultura tradicional: «Dinheiro emprestado, dinheiro arriscado», «Dinheiro emprestado, inimigo ganhaste», «dinheiro emprestado parte rindo e volta chorando».

 

Não é por acaso que não conhece estes ditados. É que a contenção e os valores que eles apregoam foram sacrificados, após o 25 de Abril, no altar do consumo e do endividamento.

 

As famílias portuguesas, habituadas durante séculos a poupar («Dinheiro guardado, dura muito tempo») começaram por torrar as suas poupanças antes de se mergulharam em alarmantes níveis de endividamento, atraídos pelas sedutoras ofertas de dinheiro fácil e barato sugeridas pelos bancos.

 

Do dia para a noite, o poupado povo português transformou-se num povo gastador e endividado.

 

O endividamento das famílias portuguesas atingiu, no final de 2006, 124% do rendimento disponível e já equivale a 88% do PIB.

 

Não é com o meu contributo que atingimos estes lamentáveis valores. O meu pavor a pedir dinheiro emprestado é tal que compro tudo a pronto pagamento.

 

Houve apenas duas únicas excepções a esta regra. Na compra de dois andares – um em Matosinhos, para os meus filhos, e outro em S. João do Estoril, adquirido para capitalizar em meu benefício o subsidio de deslocação que o Expresso me pagava por eu estar a trabalhar em Lisboa durante os três anos em que editei a Economia – recorri ao crédito à habitação.

 

Mas o dinheiro da indemnização pela cessação do meu contrato de trabalho com o Expresso vai ser, no seu essencial, aplicado em liquidar estes dois créditos a habitação.

 

Garanto-lhe que o dia, que se aproxima, em que liquidarei os meus dois créditos à habitação vai ser um dos mais felizes da minha vida. A sensação de não dever nada a ninguém é para mim tão voluptuosa que até chega a ser erótica.

 

Sei fazer contas e, por isso, compreendo perfeitamente os que acusam este meu comportamento de ser irracional.

 

A subida na taxa de juros do crédito a habitação ainda não foi suficiente para encorajar o resgate. Penso que com alguma facilidade conseguiria obter para os 179.629,02 euros da indemnização uma remuneração superior à taxa que pago pelos créditos a habitação.

 

Mas eu sou assim. E decidi que a partir dos 50 anos o que era defeito passa a ser feitio. Da minha educação nos valores judaico-cristãos, guardei uma profunda aversão a dever dinheiro.

 

Tenho dois carros. Uma carrinha Fiat Marea, de 2001, que me custou 3500 contos, e um Mini Clubman de 1974, que me custou 500 contos. Paguei-os ambos a pronto.

 

Noutro dia, passei na Fnac por um Sony Vaio, levezinho, bonito, com oito horas de autonomia, que mal deu pela minha presença se pôs logo a sorrir-se para mim. Não se anunciava com o preço final - mas sim através do custo mensal de cada uma das 12 prestações. Não era nada que me causasse grande mossa ás finanças pessoais. Bastava-me alocar à prestação o que ganho com uma das crónicas semanais para o Oje e saia com ele debaixo do braço.

 

Chegados a esta altura já me conhece suficiente bem para saber o desfecho desta história. Só comprarei o maneirinho e sedutor Sony Vaio quando o puder fazer a pronto pagamento, sem perturbar o deve e haver mensal da minha conta bancária.

 

O meu pavor ao endividamento estende-se ao cartão de crédito. O meu é um Visa Universo. Atraiu-me o baixo custo do cartão, que rapidamente amortizo com o desconto de um por cento sobre o total do movimento efectuado, devolvido sob a forma de cheques válidos nos hipermercados Continente.

 

Não sou um bom cliente para o BPI, porque opto sempre pela liquidação a 100% do extracto. Nunca recorri ao crédito fácil ao consumo disponibilizado nos cartões a taxas de juro altíssimas que engordam as pornográficas contas de resultados dos bancos portugueses.

 

Dito isto, agradeço a atenção que me dispensou ao ler este artigo até ao fim e tento retribuir-lhe a gentileza citando uma das minhas frases favoritas do meu humorista preferido (Groucho Marx): «Basta de falar de mim. Falemos um pouco de si. O que é que pensa de mim?».

 

Espero que não tenha ficado com uma ideia errada sobre a minha relação com o dinheiro.

 

Eu adoraria ser rico. Tenho muita pena de não ser um dos 11 mil compatriotas que têm mais um milhão depositados no banco - apesar de isso vedar automaticamente a minha eventual entrada no Reino dos Céus. Todos sabemos que é absolutamente impossível um camelo passar pelo buraco de uma agulha…   

 

Dou razão ao povo quando ele, na sua imensa sabedoria, diz que o que nos faz falta é, por esta ordem, Saúde, Dinheiro e Amor.

 

O amor surgir em terceiro lugar, a seguir ao dinheiro, não é arbitrário. Ao fim e cabo, quando hesitantes entre dois lares, as mulheres escolhem sempre a melhor mobília.

 

Neste mundo, o dinheiro é a medida de todas as coisas.

 

 

 

…………………………………………

 

(1)   Esta estimativa é da minha única e exclusiva responsabilidade e foi apurada a olhómetro, pelo que deve ser encarada com toda a reserva. O INE, responsável por quase todos os outros dados estatísticos constantes deste artigo, está inocente neste caso!

 

(2)   Soraia Chaves cobra 3500 euros por aparição num evento, sete vezes o «cachet» de Cinha e umas seis vezes mais do que eu vou receber por este artigo

 

Este texto foi publicado na revista Autêntica

 

 

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