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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 23.04.08

O finlandês maluco e os “recuerdos” das minhas viagens pelas terras dos outros

Jorge Fiel

O caso do finlandês de 26 anos que foi detido no Chile, após ter arrancado um pedaço de uma orelha das estátua da Ilha da Páscoa, teve o lado bom de me convencer que a fama de exagerado de que desfruto pode ser um tudo nada excessiva.

Não nego a queda para trazer “recuerdos” das minhas viagens pelas terras dos outros. Lembro-me perfeitamente que do primeiro inter-rail, levado a cabo em 1972, trouxe dois cinzeiros:  

a)     Um metálico de parede, absolutamente inútil fora da sua armação, extraído de uma carruagem da Renfe durante a longa e fastidiosa travessia de Espanha no regresso a casa;

 

b)    Um publicitário comemorativo do lançamento da Red Watneys Beer (cerveja que não deve ter tido um sucesso por aí além porque nunca mais ouvi falar dela),  subtraído do pub do campo de trabalho de Fridaybridge, onde eu estive alojado durante a campanha da apanha do morango.

Ainda recentemente, ao vasculhar umas caixas poeirentas, dei com a enorme lista que trouxe a título de “recuerdo” do primeiro restaurante onde jantei, em 1987, nos Estados Unidos.

Tratava-se de uma marisqueira no porto de Boston, o prato de lagosta rondava os 10 a 15 dólares e puseram-nos uma babete à volta do pescoço para não proteger a roupa dos estilhaços dos bichos.

Tive uma fase da minha vida em que fazia questão de trazer dos hotéis os frasquinhos de shampoo, amaciador ou sabonete líquido e outro tipo de cortesias, como calçadeiras ou pentes – à época ainda os usava.

Este acto subreptício não me pesava na consciência porque a Meia Dose (“petit nom” de uma amiga minha que trabalhava no Meridien Porto) garantira-me que a limpeza dos frasquinhos não configurava uma operação ilegal já que o seu custo está reflectido no preço do quarto.

Descontinuei a operação dos frasquinhos de shampoo (e ofícios relativos) há já alguns anos, por duas razões:

a)     Não raro os frasquinhos, transportados no porão dos aviões, vertiam e contaminavam o resto das objectos (corta-unhas, baton de cieiro, escova dos dentes canivete suíço pó de talco) acondicionados no meu  saco das higienes;

 

b)     O acumular dos frasquinhos entupia o armário da minha casa de banho, pelo que um dia me fartei e parei de comprar sabonetes e shampoos até esgotar o stock oriundo dos hotéis.

Para que não fique qualquer espécie de dúvida nas iluminadas cabecinhas das preclaras e dos preclaros, declaro que nunca fui tentado a meter na mala o roupão turco. Nunca. Never. Jamais.

Tenho a consciência que cometi alguns pecadilhos, como trazer um cinzeiro de vidro cinzelado do Marmara de Istambul, mas as minhas malfeitorias no capítulo dos “recuerdos” foram sempre inofensivas em comparação com a ideia peregrina do turista finlandês que vandalizou o aparelho auditivo de uma das estátuas gigantones da Ilha da Páscoa.

Sempre nutri um enorme respeito pelo património alheio. Apesar disso, confesso que durante a minha recente visita o Coliseu de Roma senti-me atraído pelas potencialidades das secções de colunas que estão por lá espalhadas.

Qualquer uma delas daria uma magnífica base de mesa, a que se adicionaria um tampo de vidro grosso. Mas a ideia ficou onde nasceu. Na minha cabeça.

Seria o cabo dos trabalhos sair do Coliseu com um bocado de coluna dórica. E nem quero pensar na astronómica quantia o que teria de pagar no avião por excesso de peso da bagagem.

Acresce que se fosse apanhado, a minha triste desventura circularia pelos jornais gratuitos do mundo inteiro, em notícias de duas colunas, no final de uma página par, a fazer concorrência à do finlandês.

Até estou a ver o arranque da notícia:

“ROMA. Um português de 51 anos foi detido ao tentar sair do Coliseu com um bocado de coluna dórica. Pouco tempo depois, o turista teve de ser hospitalizado, pois estava paralisado - não se conseguia mexer. Amanhã será submetido a uma intervenção cirúrgica. O prognóstico médico é reservado. Algumas vértebras foram desfeitas pelo esforço de transportar o pedaço de coluna, pelo que o mais provável é que tenha de andar de cadeira de rodas até à conclusão dos seus dias”.

 

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