Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 27.02.08

Uma denúncia fundamentada das patifarias romanas

Jorge Fiel

Os cinco dias que passei em Roma, o berço da nossa civilização, ajudaram-me muito a compreendê-la (à nossa civilização), permitindo-me detectar com clareza a origem remota de atitudes e comportamentos modernos tão bizarros e condenáveis como a vaidade, o gozo com o mal alheio e a queda para a violência e patifarias.

A coisa começou logo torta, já que o nascimento da cidade está associado ao hediondo crime de Rómulo, que matou o irmão gémeo Remo, e assim continuou ao longo dos séculos.

Vejamos o caso de Júlio César, personagem que me era simpática, apesar da maneira pouco amável como Goscinny o retratou nas aventuras do Astérix e Obélix.

Era-me difícil não admirar um homem que proferiu «sound  bytes» tão eficazes como os famosos «veni, vidi, vici» e «alea jacta est».

Tinha uma boa impressão deste tipo corajoso e decidido, que não hesitou em atravessar o Rubicão e entrar em Roma armado até aos dentes, à frente dos seus exércitos vitoriosos.

Pois confesso-vos que fiquei muito triste ao saber que a República romana caiu às mãos de um careca que tinha vergonha de o ser e inventou a célebre coroa de louros para disfarçar as entradas.

Sim. Júlio César, o conquistador da Gália , vencedor de Vercingetorix e ditador de Roma, era um careca envergonhado, um antecessor do Luís XIII de França, que está creditado como o primeiro homem que usou um capachinho em público para dissimular a falta de cabelo.

A vaidade não era um exclusivo de César. Augusto, o seu sucessor, o primeiro imperador, que governou Roma durante 19 anos divinizado pelo Senado, ganhou a fama de ser uma pessoa austera e frugal, pois habitava uma casa modesta e usava roupas feitas em casa pela sua mulher Lívia.

Ora o nosso amigo Augusto era um falso modesto. No fundo, no fundo, era um vaidoso como Júlio César, já que foi o inventor dos sapatos/plataforma que mandava fazer por encomenda, porque tinha o complexo de ser minorca.

Além de vaidosos, os romanos e os seus sucessores também revelaram uma costela sádica bastante difundida e âncorada no seu código genético.

Ingenuamente, eu pensava que a violência sanguinária e os desmandos de celerados como Nero e Calígula eram uma excepção. Estava enganado. São a regra.

Paguei nove euros para entrar nas ruínas do Coliseu, palco de combates selvagens entre homens (escravos e gladiadores)  e bestas diversas (leões, hipopótamos, tigres, crocodilos, ursos, etc) que lutavam até à morte perante uma multidão ululante de 55 mil pessoas que deliravam com o espectáculo e ser divertiam em incitar o imperador a pôr o polegar para baixo  (hoje em dia os polegares são usados para um fim bem mais pacifico – escrever SMS).

Quando o desgraçado tombava morto na areia, entrava em cena um assistente, disfarçado de Caronte (o mítico barqueiro da Morte), que removia o cadáver da arena depois de se certificar que ele estava bem morto, perfurando-lhe o corpo todo com ferros em brasa, não fosse o caso do infeliz ter-se armado em engraçado fingindo-se de morto para tentar escapar.

Saído do Coliseu, passei pelo Fórum Romano, onde apreciei a Rostra, a tribuna em frente à Cúria onde Marco António fez o discurso «Amigos, romanos, conterrâneos» , posteriormente imortalizado por Shakespeare, após ao assassinato de Júlio César.

Pois foi nessa mesma Rostra que foram exibidas ao público a cabeça e as mãos de Cícero, assassinado às ordens do segundo triunvirato  (Augusto, Marco António e Marcos Lépido) com requintes de malvadez e profanação de cadáver. 

Fúlvia, a mulher de Marco Aurélio, perfurou com um gancho do cabelo a língua do grande orador («Quosque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?», ou dito por outras palavras, «Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?).

Confirmei o carácter violento dos romanos quando desaguei na Piazza del Popolo, vindo da Via del Corso, e me documentei sobre esta espaçosa praça.

Fiquei a saber que nos séculos XVIII e XIX , a Piazza del Popolo era o cenário de grotescas execuções públicas, integradas no programa dos festejos carnavalescos.

Os condenados não eram fuzilados, nem enforcados. Eram mortos à base de sucessivos murros nas têmpora, apesar de à época já ter sido inventado a guilhotina.

Apesar de violentos, os romanos eram comprovadamente crédulos, prontos a caírem na primeira patranha que lhe enfiavam.

Uma das atracções da igreja de Santa Francesca Romana (a patrona dos motoristas romanos) são as impressões dos joelhos de Pedro e Paulo, que terão sido feitas na sequência de um estranho caso desencadeado por um tal Simão Mago.

O Simão pôs-se com basófias perante os apóstolos e decidiu provar que tinha mais poderes do que eles. Para o efeito pôs-se a levitar. Pedro e Paulo caíram de joelhos (se fosse de queixo teria sido pior)  rezando a Deus para indicasse quem é que efectivamente tinha mais poderes. O Altíssimo atendeu as preces, fazendo-lhes a vontade, e o pobre do Simão espatifou-se no chão.

No Vaticano, nos deslumbrantes aposentos do papa Júlio II decorados por Rafael, um dos frescos mais célebres é o do «Incêndio do Borgo», relatando uma patranha aceite à época – a de que o papa Leão IV apagara um violento incêndio com o simples acto de fazer o sinal da cruz.

A ser verdade esta história do papa-bombeiro, tenho pena que já não se façam papas assim, com super-poderes, pois dariam um jeitaço na época dos incêndios.

Já agora a propósito do Rafael, deve dizer-vos que tinha tanto de bom artista como de mau carácter.

Para começar era um graxista sem vergonha. No fresco «O Encontro de Leão I e Átila» começou por retratar o papa Leão I com as feições do papa Júlio II, que foi quem lhe encomendou o trabalho.

Mas, mal o Júlio bateu a bota e foi substituído por Leão X, logo Rafael  pintou a cara do novo papa no lugar da do falecido. Um oportunista!

O mau carácter de Rafael está também espelhado no episódio da sua amante Margherita «La Fornarina» (tinha essa alcunha por ser filha de um padeiro de Siena).

Enquanto a Fornarina era viçosa, Rafael fartou-se de fornicar com ela, apesar de não estarem unidos pelos sagrados laços do matrimónio, fazendo assim com que ela ganhasse a fama de «mulher desonrada».

Mas mais tarde, quando o pintor já pressentia a morte - e por isso não precisava que a Fornarina lhe continuasse a aquecer os pés -, teve o desplante de a escorraçar do seu leito, no intuito de obter a absolvição de Deus e garantir um lugar nos céus. Um escroque!

 

13 comentários

Comentar post