Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 13.02.08

Discurso sobre o tempo e a conversa de elevador

Jorge Fiel

O que é que dizemos se viajamos de elevador com uma boazona e ela de repente tira as cuecas?

Pelham Grenville, o inglês que ficou conhecido pelo nome literário de P.G.Wodehouse (alias que adoptou por achar que «trabalhar sem três nomes é como sair de casa nu em pêlo»), quando se mudou para Nova Iorque o que o que mais pediu à mulher foi que lhe alugasse um rés-do chão.

A mulher perguntou-lhe o porquê desta estranha obsessão pelos rés do chão e ele explicou: «Nunca sei o que dizer nos elevadores».

Como eu compreendo o grande P.G.Wodehouse, um dos meus idolos porque se fartou de ganhar a dinheiro e fama a escrever sobre nada.

Pega-se num romance dele, vai-se virando página após página, com algum interesse e até aguma avidez, e quando chegamos ao fim damos por nós a interrogarmo-nos sobre o que é que P.G. escreveu. Espremimos as meninges e concluimos que ele escreveu sobre nada – niente, rien du tout, nothing at all.

Mas não é sobre o soberbo e invejável talento de P.G.Wodehouse que vos queria falar, mas antes do pavor dele pelas conversas de elevador (apesar dele ser inglês e da esmagadora maioria dos seus compatriotas ser eximia na arte de fazer conversa sobre o tempo) que eu lamentavelmente partilho.

Eu moro no 4º esquerdo. Se por acaso os vizinhos do 4º direito  - um casal de médicos simpáticos (mais ele que ela) e pacifico – estão a estacionar o carro ao mesmo tempo que eu, não tenho a mínima dúvida em retardar a minha operação de saída do carro.

Desato logo a procurar coisas inexistentes no banco de trás ou no porta luvas, com o subido objectivo de me poupar ao embaraço de ter de estar com eles à espera de elevador e na viagem ronceira (o elevador lá de casa não sobe à velocidade do do Empire State Building) até ao quarto andar.

È tramado cumprimentar o vizinho e depois ficar a pensar ou a dizer «Pois é!» e a olhar para outro lado à espera que o tempo passe, cheguemos ao nosso destino e possamos, aliviados, sepultar o encontro acidental com um educado «Boas tardes» ou«Boas noites», seguido de um «Com licença» emitido pelo primeiro a estar em condições de fechar a porta do seu apartamento.

Ao contrário do que muito boa gente pensa, o tempo é subjectivo. A Swatch demonstrou isso há alguns anos com um magistral comercial (que presumo tinha como banda sonora o «Breathe» do Midge Ure) em que se expplica por a mais bê que um minuto no elevador com uma boazona de mini-saia passa 99 vezes mais depresa que um minuto à porta da casa de banho à espera de vez quando se está aflitinho para fazer xixi e as primeiras gotas rebeldes já molharam as nossas cuecas.  

Feito o ponto sobre a relatividade do tempo (o que não faz de mim um Einstein) faço a excepção que confirma a regra. Há duas alturas (as férias grandes e o Natal) no ano que me é relativamente fácil fazer conversa de elevador. Passo a exemplificar:

«Então!?! Já foi de férias?»

«Este ano para onde vão?»

«Ai já fizeram!! Onde estiveram?»

«Então já começou a fazer as compras de Natal?!?»

 

…………………….

Frase relacionada

«Para um amigo tenho sempre o relógio no fundo da algibeira»

Ramos Rosa

 

26 comentários

Comentar post