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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 26.01.08

O paradoxo do desempregado que trabalha

Jorge Fiel

Um HP Pavillion DV 1000 igualzinho ao meu  

 

As preclaras e os preclaros podem e devem muito legitimamente interrogar-se: Porque é que agora que estás no desemprego postas menos do que quando tinhas um emprego?

 

E eu respondo. Tudo na vida tem uma explicação. Neste caso, há até duas explicações.

 

A primeira explicação é a mais simples. Tenho em curso um processo de upgrade tecnológico, que consiste em oferecer ao Pedro (o meu filho mais velho) o meu portátil HP e, em simultâneo, comprar um portátil LG novo, com menos um quilo de peso, mais uma hora de autonomia e menos uma polegada de ecrã (estou em trânsito das 14 para as 13, depois de ter decidido não arriscar as 12) .

 

Argumentarão os distintos (mas infelizmente raros) frequentadores da lavandaria que a troca de computador é uma operação banal, rotineira, que apenas consome um par de horas.

 

Lamentavelmente estão errados pelas razões que passo a detalhar:

 

1. Após dois anos de serviços prestados, o meu HP Pavillion dv 1000 resolveu tornar-se temperamental. Volta e meia apaga-se, sem pré-aviso. O que é uma maçada. E depois de se apagar, é preciso deixá-lo em paz a descansar uma boa meia horinha antes de sequer ousar reiniciá-lo.

 

2. Como bom pai e consumidor atento (…estou em cima do fim do prazo dos dois anos de garantia) resolvi levar o HP ao médico (no caso o paciente e competente Diamantino Mota, da Introduxi) antes de o oferecer ao Pedro.

 

3. O meu portátil esteve durante 48 horas sob observação enquanto era submetido a uma infindável bateria de testes. O primeiro diagnóstico não era animador – como não se tratava de uma infecção viral, o Diamantino temia que o problema fosse na «motherboard» o que obrigaria a enviá-lo para os Cuidados Intensivos da HP.

 

4. No segundo dia de internamento, o Diamantino constatou que afinal o problema é muito provavelmente de sobreaquecimento e tomou as medidas apropriadas ao caso - medidas que me explicou pormenorizadamente mas eu fui absolutamente incapaz de reter.

 

5. A Introduxi não tinha em stock em Valongo o modelo da LG (vem com o Vista, estou curioso, toda a gente diz que é pior que o XP que é o sistema operativo que corre no meu HP) que eu vou comprar, por isso teve de o encomendar do seu armazém em Lisboa (maldito centralismo!). E 6ª feira ao fim do dia ainda não tinha chegado ao Porto, apesar de ter sido encomendado na véspera ao meio dia.

 

Resumindo e baralhando. Uma das explicações para esta semana apenas ter postado na 4ª feira reside no facto de ter estado sem computador desde as nove da manhã de quinta até às 19 horas de sexta.

 

Confesso que foi uma experiência tenebrosa, porque me revelou quão agarrado eu estou. Ao fim de 24 horas sem teclar, comecei a ressacar. Foi terrível.

 

A segunda explicação para a minha fraca produtividade é bem mais sofisticada.

 

Sim, eu sou um desempregado, mas um desempregado do tipo novo. Sou um desempregado que trabalha e que, como agravante, anda à procura de emprego.

 

O facto de estar desempregado significa que estou desprovido de emprego – não de trabalho. Na verdade, nunca deixei de trabalhar.

 

Além do que escrevo «pro bono» aqui na Lavandaria e no Bússola, ainda tenho uma coluna semanal no Oje, as entrevistas de empresários para o Porto Canal e uma colaboração no programa Radar de Negócios - para além de colaborações eventuais e avulsas.

 

Sei que o mais estranho no meu caso é estar desempregado e a trabalhar.

 

Mas não deixa também de ser um pouco fora do comum o facto de estar desempregado e andar à procura de mais trabalho - ou de um emprego.

 

É verdade. Ainda não conseguiu perceber muito bem porquê, mas a verdade é que ando activamente no mercado, o que me rouba imenso tempo (e algum dinheiro).

 

Tentar arranjar emprego e/ou trabalho é uma actividade muito exigente em termos de tempo e de disponibilidade. Uma canseira. Uma espécie de «full time job», que tem o inconveniente de não ser remunerado.

 

Postas estas duas explicações, espero que desculpem as minhas ausências e compreendam em toda a sua dimensão e grandeza o paradoxo do desempregado que se mata a trabalhar, anda à procura de emprego - e por isso tem menos tempo livre do que quando tinha um emprego.

 

 

 

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