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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 12.04.07

Por que é que os homens portugueses são obcecados pelo sexo anal?

Jorge Fiel

 

É com muito gosto que vos anuncio a inauguração do Consultório Sexual do blogue Roupa para Lavar. Saiba por que é que os homens se socorrem do truque do busto de Napoleão quando o que querem realmente é entrar no ânus da parceira!

 

A minha ideia inicial era integrar no Sunday Post o consultório sexual que hoje se estreia.  Depois mudei de ideias. O que é bom porque, como em devido tempo notou o nosso preclaro amigo Mário Soares, só os burros não mudam de ideias.

 

Presumi que a imensa transcendência dos assuntos que serão escalpelizados neste consultório, obriga a ter um espaço e um dia dedicados. Estou a pensar em fixar a sua publicação algures entre a quinta  à noite e a sexta de manhã. Será, pois, um aperitivo para o fim-de-semana, espaço privilegiado de lazer e tempo livre em que poderão amanhecer nas cabecinhas adoráveis das preclaras e preclaros as questões a serem aqui abordadas.

 

Numa vã tentativa de emprestar a este blogue uma patine de dignidade e classe, vou dotar este consultório sexual do seguinte Estatuto Editorial:

 

Prometemos dizer o que nos aprouver e sobretudo, quando nos aprouver. Sempre com a dignidade que os assuntos de sexo merecem.

 

(desde já aviso os mais distraídos que o presente estatuto editorial foi copiado, apenas com uma ligeira adaptação, do estatuto editorial do recém nascido Jornalismo de Sarjeta, um blogue com imenso potencial, da superior autoria da minha colega e Editora da Política Cristina Figueiredo).

 

A distinta Freudiana pergunta:

 

Por que é que os homens portugueses são obcecados pelo sexo anal?

 

As mulheres vêm equipadas de origem com três aberturas ao exterior, de primeira classe. A saber: boca, pipi e ânus. Por não serem chamados ao caso (recusarei sempre deter-me em práticas que considero aberrantes) não incluo nesta abordagem os orifícios menores, como ouvidos, narinas e o umbigo, que, como todos sabem, é um beco sem saída e habitualmente desprovido da mínima massa crítica do ponto de vista da profundidade (apenas serve para acumular cotão e/ou para enfeitar com piercings).

 

O pipi é a única abertura especificamente feminina. Daí a sua extraordinária relevância.

 

É pelo pipi que entra o porta aviões que lança os espermatozóides em direcção ao útero feminino.

 

É pelo pipi que saem (excepção feita à cesariana) os frutos do suave milagre da fecundação do ovário pelo campeão olímpico da multidão de espermatozóides.

 

É ainda no âmbito geográfico do pipi (compreendido pelas suas bordas e interior) que se desenrola o essencial da relação sexual canónica.

 

Sintetizando, o pipi acumula as duas valências nucleares. É a fábrica de bebés por excelência. E é a fábrica líder na produção de prazer para toda a Humanidade.

 

Chegados a esta importante conclusão, não resisto a pôr-me de pé, em homenagem a todos os pipis do Mundo, presentes, passados e vindouros. E incito todos as preclaras e preclaros a fazerem o mesmo, e a acompanharem-me na entoação sentida de duas singelas palavras de ordem:

 

Viva o pipi!

 

Longa vida ao pipi!

 

Todavia, o que a Freudiana pergunta não tem directamente a ver com o pipi, mas antes com uma das outras duas aberturas de primeira classe que o homem e a mulher têm em comum: boca e ânus.

 

A boca o ânus estão correlacionados, apesar de se localizarem em duas extremidades opostas. A propósito, acho por bem partilhar com as preclaras e preclaros um dos mais criativos insultos que ouvi na vida: «Estás a falar, ou tão só a fazer corrente de ar com o olho do cu?».

 

Para lém da fala, a boca é usada primariamente para a ingestão de alimentos e bebidas. Mas, como é do domínio geral, tem um uso marginal no domínio das relações sexuais. Estou a falar do sexo oral - do «fellatio» (também conhecido em português como uma peça de ourivesaria) , e não da conversa sobre sexo (que também é uma boa prática, mas não vem agora para o caso).  

 

O ânus tem como função primordial a evacuação de gases e restos mortais de alimentos (empacotados sob um formato próximo das alheiras) rejeitados pelo exigente aparelho digestivo. Ora além de servir de esgoto interno, o ânus pode também ser usado como um local de prazer sexual.

 

Temos, portanto, que boca e ânus têm um papel a desempenhar nas relações sexuais. Exclusivo, quando de trata de relações homossexuais masculinas. Subsidiário, no caso da relação heterossexual.

 

A prática de sexo oral é mais consensual do que a do sexo anal. Em primeiro lugar, porque há sempre uma diferença abissal entre o diâmetro das duas aberturas. Em segundo lugar, porque as pessoas estão habituadas a meter coisa pela boca dentro, não tendo, por norma, o mesmo hábito relativamente ao ânus.

 

A prática do sexo anal não é uma modernice. Jean Luc Henning, na essencial «Breve História das Nádegas» (ed. Terramar, 184 págs) cita um curto mas elucidativo verso de um satírico setecentista:

 

«Deus fez a cona

ogiva enorme

para os cristãos

 

E o cu

abóboda cheia e disforme

para os pagãos»

 

Uma tese complementar é defendida pelo Marquês de Sade que na sua obra seminal «Filosofia na Alcova».

 

Defende o marquês, um sodomita encartado, que a garagem mais apropriada para o instrumento sexual masculino é a o ânus, justificando esta tese no facto de ambos (pila e olho do cu) possuírem o mesmo tipo de secção cilíndrica e por isso se encaixarem na perfeição.

 

Sade parte daqui para a a ousada afirmação de que a relação contra-natura não é a anal mas antes a vaginal.

 

Como é bom de ver, a tese inovadora e criativa de Sade não obteve acolhimento junto dos fazedores de doutrina da Santa Madre Igreja.

 

A apetência masculina pelo sexo anal não é por isso exclusiva dos homens portugueses nem é fruto do desvario de costumes da sociedade contemporânea. A pulsão pela sodomia é ancestral, mergulhando as suas raízes nos tempos.

 

Não obstante, o problema levantado pela Freudiana é real. Os portugueses ambicionam praticar sexo anal com as suas parceiras e numa boa maioria dos casos essa pretensão é-lhes negada.

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Esta negação feminina está na origem daquela que eu considero uma das secas histórias do vasto e rico anedotário nacional: a do busto do Napoleão (há quem a conte referindo Beethoven). Como penso que ela é do conhecimento geral, dispenso-me de a contar, limitando-me a chamar a atenção para a necessidade desesperada do macho de arranjar um pretexto para introduzir (salvo seja, isso queria ele) na conversa um temática que ele sabe de antemão é pouco popular para a sua parceira.

 

Sabemos que o prazer sexual se obtém a partir de bases diferentes, consoante se trata do homem ou da mulher. 

 

A mulher acolhe no seu interior o órgão sexual masculino. O homem entra (penetra) no corpo da mulher. Ele tem prazer em dar. Ela em receber.

 

Neste sentido, acho natural que nós, homens, tenhamos vontade de tomar por atacado todas as aberturas disponíveis. Em experimentá-las a todas. A pulsão de navegar todos os mares disponíveis. De os conquistar a todos!

 

A relutância feminina relativamente ao sexo anal é no meu entender da única e exclusiva responsabilidade masculina.

 

Nós, os homens, somos, por norma, um pouco desleixados nos preparativos. Temos a terrível e inata tendência para negligenciar a suprema importância dos preliminares, e tentar ir logo direito ao assunto. Somos apressados. Queremos entrar o mais depressa possível. Está mal.

 

Em quase todas as esferas da vida (a corrida de 100 metros no atletismo está obviamente excluída deste rol), a pressa é inimiga do óptimo. 

 

A entrada na boca, larga e cheia de saliva, e no pipi (lubrificado) não é por norma dolorosa. Já o mesmo não se poderá dizer do ânus, principalmente se não estiver a ser usado também como porta de entrada. As dimensões reduzidas deste orifício são habitualmente abordadas por nós, homens, à bruta, sem o prévio uso de lubrificação, o que causa dor e e origina a rejeição desta prática pelas nossas parceiras.

 

Esta rejeição gera o efeito de fruto proibido, aumentando a obsessão dos homens português pelo sexo anal.

 

Qual é a solução, perguntará a Freudiana. Paciência. Muita paciência do homem. E disponibilidade ad mulher para aceitar repetir uma experiência que no passado foi dolorosa e traumatizante.

 

O sexo anal não deverá ser o primeiro mas sim o último acto da relação sexual, quando a parceira já estiver bastante descontraída por um ou mais orgasmos. E a entrada deve ser precedida de carinhos e cuidados diversos que proporcionem uma espécie de anestesia local.  Os preparativos podem incluir o uso de lubrificantes (a boa e velha vaselina é uma amiga a ter à mão) que acentue a elasticidade evidenciada pelo ânus na sua função evacuadora.

 

…………………………..

 

PS. Com este «post» já vai longo e penso que há aqui pano para mangas para uma animada discussão, deixo para uma nova oportunidade a pergunta sobre o toque retal levantada pela chérie Magri. Peço-lhe desculpa por não responder já, mas garanto-lhe que não ficará sem resposta.

 

As ilustrações foram tomadas de empréstimo à «História de O», de Guido Crepax, Marginália Editora 172 páginas, 16 euros

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