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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 15.01.08

As minhas contribuições para um Mundo perfeito Parte III subidas e descidas

Jorge Fiel

 

A existência de subidas – estou a referir-me, por exemplo, à subida para o Alto da Graça, em Lisboa, ou à da rua 31 de Janeiro, no Porto (para já não falar da Rampa da Escola Normal!)  - é uma das coisas que mais me faz desconfiar seriamente de que Deus não existe.

 

Se Deus existisse - parece-me - o Mundo seria mais perfeito e por isso não teria subidas. Apenas descidas.

 

Não quero com isto defender um Mundo plano, como pretende o título do «best seller» do nosso preclaro amigo e guru Tomas Friedman, que tenho a certeza absoluta seria um frequentador assíduo da lavandaria caso dominasse a língua de Camões o que, lamentavelmente não acontece, apesar de estar disponível no mercado um curso audiovisual da Berlitz para a aprendizagem do português em nove semanas e meia (presumo que na companhia da Soraia Chaves).

 

Lisboa perderia todo o encanto sensual sem as suas sete colinas, se fosse tão rasa, tão rasa que saísse ao pai, como Amesterdão.

 

O que eu preconizo é um Mundo com descidas mas sem subidas, um objectivo que acredito estar fora do alcance da mão e cérebro humanos.

 

O Homem foi capaz de inventar a roda, o telemóvel, a penicilina e o formidável conceito de férias pagas. Muito provavelmente descobrirá a cura contra o cancro e como evitar a queda do cabelo e parar o envelhecimento.

 

Mas acho que está muito para além da capacidade das nossas célulazinhas cinzentas solucionar a equação da inevitabilidade de que o que se desce agora se subirá depois - e vice versa.

 

Penso que esta inevitabilidade é o prolongamento topográfico do dostoeivskiano principio do castigo que pune o crime e, ainda, uma outra possibilidade de declinação prática do sábio provérbio anglo-saxónico «no pain no gain», que poderá ser liberalmente vertido para a nossa língua com o seguinte enunciado: a única coisa que cai do céu é a chuva, se queres dinheiro ou engatar uma gaja tens de te atirar para o chão (sinónimo de «te esforçares seriamente») para o conseguir.

 

Só uma mão divina poderia substituir todos os elevadores da Bica ou da Glória, ou funiculares de Guindais desta vida, na urgente e premente tarefa de exterminar as íngremes subidas que tornam mais difícil e penosa a nossa passagem por este Mundo.

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