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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sex | 11.01.08

Três coisas que mudam na nossa vida quando estamos desempregados

Jorge Fiel

Ora aqui está um telemóvel igual aquele em que passei a atender números privados e que não constam da minha lista telefónica

 

 

Bom, tecnicamente, eu não estou desempregado. Os meus 95 quilos ainda não pesam naquelas horríveis estatísticas que envergonham o Governo. Pela primeira vez, temos uma taxa de desemprego (8,2%) superior à média comunitária. E desde que Sócrates é primeiro ministro, evaporou-se o emprego para 167 mil profissionais qualificados, dirigentes, quadros superiores e trabalhadores intelectuais e científicos.

 

Não. Até à véspera do 33ª aniversário do 11 de Março (o golpe falhado de Spínola que teve o efeito secundário de acelerar a marcha da Revolução e a nacionalização da banca) o meu contrato de trabalho com o Expresso continua em vigor.

 

Mas como estou dispensado (por carta) do «dever da assiduidade», apesar de, de jure, estar empregado, de facto já cai na triste e ociosa condição de desempregado, com todas as consequências que ela acarreta.

 

Devo esclarecer que não me estou a queixar desta situação de receber o ordenado ao fim do mês e estar «dispensado do dever de assiduidade» (não sei se já repararam, mas adoro esta expressão!). Pelo contrário. Pela minha parte estaria disposto a eternizá-la até à conclusão dos meus dias. Mas estou convencido que o Balsemão, que justamente desfruta da fama de ser mitra, não estaria por esses ajustes.

 

Estes três mesinhos em que estou «dispensado do dever de assiduidade» são uma espécie de treino para o desemprego. Quando estiver a contar para as estatísticas do INE e do IEFP terei a mesma disponibilidade de tempo – mas muito menos dinheiro no bolso.

 

A ideia é boa. Primeiro, habituo-me a viver com excesso de tempo. Numa segunda fase terei de me habituar a viver com falta de dinheiro.

 

Ter muito tempo e pouca nota é uma equação tramada. O meu colega Vítor Norinha (Oje, Vida Económica e só ele saberá para quantos mais sítios escreverá) voluntaria-se sempre para trabalhar ao fim-de-semana usando como argumento o facto de que não gasta dinheiro enquanto está ocupado a trabalhar.

 

Neste momento, sinto-me como os astronautas que se treinam em ambientes de gravidade zero antes de serem enviados para o espaço sideral. Estou a preparar-me para o desemprego técnico, uma situação que deve ter bastantes pontos de contacto com a de ausência total de gravidade.

 

«Dispensado do dever da assiduidade», estou na antecâmara do desemprego e sinto já algumas coisas a mudar na minha vida. Destaco para já três: uma maçadora, uma simpática e uma embaraçante.

 

1. Passei a atender todos os telefonemas que desaguam no meu Nokia 6680. Até agora recusava-me a atender números privados ou que não constavam da minha lista telefónica. Agora topo a tudo, como os polícias. Atendo as chamadas todas, sem excepção. Não posso correr o risco de não atender uma proposta de emprego. Esta disponibilidade tem a funesta consequência de todos os dias ver o meu jantar interrompido por uma menina da TV Cabo que me quer vender o pacote de canais de cinema.

 

2. Todas as pessoas com quem vou almoçar ou jantar fazem questão de pagar a conta. Esta semana, tive de ir a Lisboa. Almocei com a minha amiga Paula Barreiros, numa esplanada da Marina de Oeiras, uma tosta de atum, e pratinhos de polvo com molho verde e tiras de chocos. Ela não me deixou pagar. Jantei com o meu amigo Afonso Camões, na sala com letreiro azul do Solar dos Presuntos, um arroz de lavagante. Ele não me deixou pagar. E ontem, no final do almoço de francesinha, no Bufete Fase, quase que me tive de chatear com o meu amigo Vítor Pinto Basto para ele aceitar que eu pagasse a conta (20 euros certos).

 

3. As noticias espalham-se com alguma celeridade pelo que todos os dias encontro, ou sou encontrado, por uma meia dúzia de amigos ou conhecidos que me fazem a pergunta sacramental. «Então, por que é que saíste do Expresso?». Como devem compreender, já estou um bocado farto desta FAQ. Foi por estas e por outras que publiquei aqui neste blogue (e também no Bússola) o «post» «Notícia de um divórcio» onde (acho eu) está tudo muito bem explicadinho, tim tim por tim tim. Mas a maior parte das pessoas não se fica quando as recambio para uma visita à lavandaria (que está bem precisada de visitas!). Não. Exigem explicações personalizadas e na hora. Vou ter de fazer alguns «prints» do «post» do divórcio -  e andar com eles no bolso para distribuir aos curiosos. Para poupar saliva – porque tempo, esse não me falta desde que estou «dispensado do dever de assiduidade».

 

 

2 comentários

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    Jorge Fiel

    12.01.08

    Preclaro Paulo G

    A minha colecção de BD não é má.

    Tenho completas a revista Tintin, o (A Suivre), o Jacaré, o Jornal do Cuto, a Gomme, as Selecções da BD, o Jacaré, as duas séries do Spirou, a Flecha 2000 (Jornal da Banda Desenhada), Visão, Jaguar, Riquiqui e a Circus. Entre outras coisas.

    E da Bo Doi só me falta o número 1.

    Mas não está nos meus horizontes vender-ta porque sei que te estava a arranjar mais um problema - o de não saberes onde a irias meter.

    Pois o não te teres pago o almoço (ou pelo menos o café) é um peso que ficará para sempre na tua consciência - partindo do princípio que a tens :-).

    Beijos para a L. e para a M.

    A Bem da Nação!


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