O 10 foi o trólei que mais usei em S. Petersburgo. Mas também me desloquei a bordo dos tróleis de linha 1, 5 e 7, de autocarros - apreciei muito o trajecto do 22, que me levou até ao Teatro Mariinsky (ainda muito conhecido como teatro Kirov), o ponto de partida para uma passeata a pé pela popular e efervescente área de Sennaya Ploschad, o cenário escolhido por Dostoievski para a intriga do romance Crime e Castigo.
Foi bestial matar as saudades do trólei, um veículo outrora muito usado no Porto e estupidamente abandonado, tal como o eléctrico, que apenas sobrevive em percursos reduzidos e com uma frequência tão escassa e religiosa que reduz a sua serventia à clientela de turistas que a Ryanair nos faz o favor de fornecer, não fazendo efectivamente parte da oferta de transportes públicos da cidade - ao contrário do que acontece em Lisboa que tem muito mais quilómetros de linha e onde, mesmo no famoso 18, a carreira turística por excelência, os camones convivem com os carteiristas e os alfacinhas da terceira idade que ainda vivem ao longo do itinerário.
Pintados de grenat, a cor da camisola da Selecção Nacional nos anos 60, os tróleis do Porto eram muito bonitos e distintos, qualificando por isso a paisagem urbana. O mesmo não se pode dizer do aspecto rude dos tróleis de S.Petersburgo. Mas, mais vale ter tróleis e eléctricos (recomendo vivamente as linhas 2 e 17) um bocadinho a puxar para o feio do que não os ter – penso eu de que….
O melhor elogio que posso fazer à eficiência da oferta articulada de tróleis, eléctricos (a circularem em via dedicada, não conflituando por isso com o resto do trânsito, o que aumenta a sua velocidade média e possibilita o cumprimento de horários) e autocarros de S. Petersburgo é que me desloquei a todos os locais onde quis sem nunca ter de recorrer ao metro, onde o bilhete de uma viagem era quatro rublos mais caro.
Antes de colocar um ponto final nesse post, quero que fique bem claro que estética não é o único nem o principal motivo desta minha nostalgia do trólei e eléctrico, mas sim a poupança de energia e do ambiente. Tenho dito!
Na minha casa, no Porto, tenho sempre generosas quantidades de boa vodka polaca no congelador, cortesia do Fernando, o meu primo que está emigrado em Cracóvia e me estraga com mimos. Gosto de vodka, que consumo moderadamente. As únicas bebidas que sou capaz de consumir sem moderação é água, chá gelado, espumantes brutos e vinho.
Gosto de vodka que (não sei se já vos disse…) consumo moderadamente, ao contrário do que acontece com o uísque, brandy e cognac que só bebo quando o rei faz anos - não sei que rei, ainda tenho de tirar isso a fonte limpa, talvez seja o Gustavo da Suécia, marido da Silvia, pai da Vitória e sogro daquele professor de ginástica com ar de serial killer.
É precisamente por apreciar uma vodka bem gelada, baptizada com um ou duas gotas de limão, que consumo moderadamente (vocês julgam que eu sou um bêbado tipo Boris Ielstin ou quê?!?), que dei por mim a pensar ser um pouco estranho ter passado sete dias em S. Petersburgo sem tocar com os lábios num copo de vodka.
Por junto e atacado, no capitulo do álcool, bebi dois copos de uma razoável cerveja local (Boyka) e uma data de copos de bons vinhos e espumantes portugueses durante os dois jantares em que participei com os produtores de vinho presentes na Portugal Market Week – o evento que em boa hora me trouxe até à cidade de Pedro, o Grande.
Não toquei na vodka russa com os lábios mas confesso ter-lhe tocado com as mãos, os dedos e os olhos, durante uma visita guiada que me foi proporcionada pelo Leonid Gelibterman, presidente da secção russa do International Center of Wine and Gastronomy, ao imenso corredor dedicado, de ambos os lados, a esta bebida no hipermercado O’ken, na periferia de S.Petersburgo, que me deixou com a vaga ideia que a Diplomat seria uma boa opção, no critério qualidade/preço que dita as nossas compras, se não se desse o caso de eu suspeitar que já não tinha espaço para garrafas na minha mala – e de, ainda por cima, ter em casa um stock apreciável, quer do ponto de vista de qualidade quer de quantidade.
Uma reflexão mais aprofundada sobre a momentosa e candente matéria de me ter abstido de beber vodka durante a minha recente estadia russa permitiu-me concluir que provavelmente isso de se deve à permanência no meu carácter de resquícios da rebeldia que marcou boa parte da vida adulto.
Gosto de romper com os convencionalismos. È por isso que estive em S. Petersburgo e não bebi vodka, que estive duas vezes em Berlim e não comi as famosas bolas locais, que estive duas vezes em Las Vegas e nunca joguei. E, a bem dizer, da última vez que fui a Roma, investi a manhã de domingo no Vaticano, mas estava tanta gente na praça de S. Pedro que não posso jurar que tenha mesmo conseguido vislumbrar o papa na janela.