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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 19.10.11

A Natacha é uma mosquinha morta

Jorge Fiel

 

A Natacha é daquelas raparigas simpáticas, razoavelmente bem parecidas, mas que não me fala a nenhuma parte da anatomia. Falta-lhe aquele je ne sais pas quoi!

O aspecto geral e modos delas são correctos, não o posso negar, mas a verdade é que não me entusiasma os sentidos. É um pãozinho sem sal , bonitinha, mas uma mosquinha morta que nunca conseguiu salientar-se no meio do grupo de cinco moças com que travei conhecimento no sábado passado, na secção de lingerie do Gostinniy Dvor. Nem cheguei a perceber o que ela faz para ganhar a vida - fiquei com um ideia vaga de que trabalha a fazer não sei bem o quê, calclulo que um trabalho de escritório, na Vodafone.

A Natacha deve ser uma excelente rapariga, boa esposa, mãe competente e, com toda a certeza, um magnífica dona de casa, mas não me entusiasma, essa é que é essa.

Eu sei que as aparências iludem e estou a falar do que não conheço, mas era capaz de jurar que a Natacha não é mulher para despertar um vulcão adormecido - e pô-lo a jorrar lava.

 

 

Qua | 19.10.11

Pedro, um dentista amador com a mania das grandezas

Jorge Fiel

 

Pedro, o Grande. Catarina, a Grande. Moscovo, 15 milhões de habitantes. Leninegrado (a região de S. Petersburgo ainda se chama assim), cinco milhões de habitantes. Os russos -  o povo que mais álcool e carne consome à face da Terra -  são uns incorrigíveis exagerados que têm a mania das grandezas.

Sei perfeitamente que os nossos reis também tinham as suas idiossincrasias. Não vamos mais longe, o nosso D. Pedro, o liberal, era um tipo impecável, que deixou ao Porto um título (mui nobre, invicta e sempre leal) e o seu coração (guardado na igreja da Lapa), mas tinha a fraqueza de adorar mijar do alto da varanda do palácio imperial, no Brasil, por cima dos seus súbditos.

Pedro, o Grande, também tinha a mania das grandezas. Obviamente. Essa mania revelou-se publicamente, com o projecto de arranjar uma saída da Rússia para o Báltico com a fundação de S. Petersburgo, um cidade erguida a partir do nada, em terrenos pantanosos e assente em estacas de madeiras – e também dos ossos dos 40 mil trabalhadores suecos e prisioneiros políticos que morreram durante a empreitada.

A mania das grandezas de Pedro, o Grande, também se manifestou em privado, como se percebe quando se sabe que contratou para criado pessoal um gigante de 2m27 (cujo esqueleto e coração fazem parte da colecção do museu de antropologia Kunstkummer, a par de outras excentricidades como frascos com gémeos siameses e uma ovelha com duas cabeças), se divertia à ganância com as bodas de anões organizadas pelo seu particular amigo o príncipe Menshikov e arrancar dentes aos seus desprevenidos súbditos.

Qua | 19.10.11

O homem dos selos e o astuto vendedor de caviar

Jorge Fiel

 

À saída do Hermitage, quando me tentaram vender selos e caviar (seria?), adoptei o modo que reservo a arrumadores e pedintes entocados em semáforos – faço de conta que não é nada comigo, enquanto abano a cabeça e sigo em frente.

A história acabaria aqui, se o vendedor do alegado caviar não me tivesse desarmado a guarda com a pergunta fatal “Where are you from?”.

3-1, dito em português, foi a resposta que ele me deu, com um sorriso nos lábios, quando lhe disse que era de Portugal. 3-1 foi o resultado com que o Zenit derrotou o FC Porto em S. Petersburgo.

Lembrar uma derrota dos nossos não me pareceu boa política comercial para quem tentava impingir-me um lata de caviar (seria mesmo?), mas quem vende tem de ter a manha e astúcia necessárias para desbloquear estes pequenos impasses.

3-0 acrescentou, precisando estar a falar do resultado com que o FC Porto ganhou a sua última Champions, derrotando o Mónaco na final de Gelsenkirchen – com um golo do russo Alenitchev, lembrou o vendedor.

Não foi ele, mas o vendedor de selos, quem lucrou com esta esperteza à Tom Sawyer. O meu colega Couto Soares pediu-me para lhe levar selos, e o parceiro do astuto vendedor de latas de caviar (nunca saberei se seria mesmo caviar) aproveitou o diálogo para ir mostrando um álbum de selos bem apresentado e razoavelmente guarnecido de selos da era soviética. Começou por pedir mil rublos. Fui ao bolso quando ele desceu para 500. Espero que o Couto Soares goste.