Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Ter | 18.10.11

Eu e a Svetlana não fomos feitos um para o outro

Jorge Fiel

 

Esta é a Svetlana, uma das cinco amigas que fiz na secção de lingerie do department store  Gostinnyi Dvor, sábado passado.

Só Deus, Buda, Alá e mais  um grupo restrito e seleccionado de outros deuses sabem a enorme dificuldade que tenho em resistir a uma mulher atraente de cabelo curto.

Ainda por cima a Svetlana, apesar do nariz demasiado perfeito e simétrico para o meu gosto, teimava em olhar-me com os lábios prometedoramente entreabertos, o que só a devia colocar num patamar muito próximo da irresistibilidade. No entanto, um ruído, que não consegui identificar à primeira, perturbava o estabelecimento de química entre nós.

Primeiro pensei que a culpa era da cor improvável que ela usava no cabelo – sem dúvida inexistente na Natureza e que não rimava com a cor das sobrancelhas.

Depois atribuí a responsabilidade da ausência de faísca à parola e levemente enjoativa ondulação do seu cabelo.

Finalmente concluí que todas essas coisas não passavam de minudências e que não era possível encontrar palavras para explicar o inexplicável. Decididamente o amor é uma chama que arde sem se ver e era notório que entre nós não havia chama. Eu e a Svetlana não fomos feitos um para o outro.

 

Ter | 18.10.11

Não é conveniente assoar o nariz ruidosamente

Jorge Fiel

 

“Vê-se logo que não é russo. Se fosse não me teria devolvido a esferográfica”, exclamou Igor Sharbatov, presidente da Associação de Sommelliers de S. Petersburgo, quando, no final da conversa, o jornalista lhe entregou a espécie de Bic com o nome do hotel gravado que lhe pedira emprestada.

Os russos são muito diferentes dos portugueses, o que até se compreende porque estão na outra ponta da Europa – a bem dizer são a guarda avançada da Ásia no Velho Continente. Seria mais provável o Clark Kent e o Super Homem aparecerem juntos, ou o Zé Carioca arranjar um emprego, do que os russos elegerem um lingrinhas como o Cavaco. Mais. Se em vez de adquirir a cidadania americana para poder governar a Califórnia - e assim ficar habilitado a fazer filhos a torto e a direito a todas as sopeiras hondurenhas, salvadorenhas e panamianas que lhe aparecessem pela frente -, o Schwarznegger optasse por ter sido russo, as próximas presidenciais deixariam de ser favas contadas para o Putin.

Os russos não se limitam a ser diferentes de nós. Têm também uma etiqueta diferente. Por aqui, pode cuspir (ou até mesmo escarrar) na rua sem receio de ver este seu acto selvagem receber olhares reprovadores ou até receber um comentário mais azedo, ao estilo “também cospes para o chão em casa, ó meu badalhoco?!?!!!”. Já cruzar as pernas quando se consegue o milagre de arranjar um lugar sentado no eléctrico, entrar a mascar pastilha elástica na Catedral de Nossa Senhora de Kazan, ou assoar o nariz ruidosamente em público, são manias censuráveis ao olhar dos russos.

 

Ter | 18.10.11

A cobradora tipo é idosa, baixa e corpulenta

Jorge Fiel

 

Há já longos anos que o conceito do agente único extinguiu a figura de cobrador (vulgo pica) nos transportes públicos de Porto e Lisboa, mas essa figura continua vivíssima da Silva nas carreiras de trólei, eléctrico e autocarros de S. Petersburgo.

Nos últimos quatro dias, tenho dedicado parte não negligenciável do meu tempo e atenção a esta matéria, o que me deixa habilitado a traçar um perfil do cobrador russo.

Para começar, na esmagadora dos casos o cobrador é efectivamente uma cobradora, que já não é nova (em Portugal, há montes de tempo que já teriam sido mandadas para casa, ao abrigo daqueles simpáticos programas de reformas antecipadas que liquidam qualquer projecto de conferir sustentabilidade à nossa Segurança Social) e é identificada pelo uso de colete retroreflector laranja  - a propósito, por muitos anos que viva, nunca esquecerei o momento em que uma colega minha do Expresso me confidenciou que a mãe tinha o fetiche de fazer sexo com a nudez apenas quebrada por um colete dessa cor (parece que se fosse verde alface a excitação murchava).

A cobradora tipo é idosa, baixa e corpulenta, ou seja tem as características necessárias para desempenhar o seu trabalho, pois o centro de gravidade baixo facilita-lhe a mobilidade no interior de um trólei apinhado de gente acomodada como as sardinhas no interior de uma lata de conserva.

Finalmente, a dureza do ofício da cobradora é amenizada pelo facto de dispor de um lugar privativo e individual, estrategicamente localizado a meio do veículo, sendo que em nove em cada dez casos do trabalho de campo em que assenta esta tese, esse assento está kitado – uma almofada é o acessório mais usado neste esforço de personalização (no caso da foto todo o assento de plástico forrado com carinho).

Ter | 18.10.11

Recordações do tempo em que fui ovo estrelado

Jorge Fiel

 

Ainda fui uma das vítimas do ovo estrelado. No meu ano de caloiro na condução, como se já não bastasse a nabice inata a essa condição, tinha ainda de a apregoar ao resto do mundo através da exibição, algures na traseira do carro, de um autocolante redondo e amarelo, com um 90 dentro que sinalizava a velocidade máxima a que eu estava habilitado a circular.

A versão russa do ovo estrelado é um rectângulo, em amarelo (a cor mantém-se e curiosamente é a mesma escolhida pelos nazis para a estrela de David identificativa que os alemães obrigavam os judeus a coser em lugar de destaque nas suas roupas), com um ponto de exclamação (espantação, se preferirem) que lança um grito de aviso ao resto da circulação automóvel:  tenham cuidado e estejam atentos que eu posso fazer o pisca para a esquerda e virar para a direita.