Sempre que visito um museu, não resisto a jogar, em cada sala, um jogo comigo mesmo. Se me dissessem: escolhe daqui o quadro que podes levar para casa (para pendurar na parede e desfrutar – não para vender), qual é que levavas? E no final da visita, tento eleger o quadro nº 1.
Assim à primeira vista, o quadro que eu traria do Hermitage era do Matisse – mas não a Dança (um dos mais famosos da colecção do Hermitage, devido ao uso de três cores fortes, o azul, o verde e vermelho, para acentuar o drama e a concentração das cinco figuras que dançam em circulo).
A tela que eu escolheria seria a da família do Matisse, vista pelo pintor. Uma eleição instintiva que me levou a concluir, após alguma reflexão, que sou um homem de família.
Como devem estar lembrados, no sábado travei conhecimento com cinco moças na secção de lingerie dos armazéns de Gostinniy Dvor. Já vos apresentei a Natalya, cujo ligeiro estrabismo me impressionou favoravelmente. Chegou agora a vez de vos falar da Maria Feodorovna – sim tem exactamente o mesmo nome (que tive tanta dificuldade em perceber que até lhe pedi um cartão de visita) da mulher do Alexandre III e mãe do Nicolau II, o último dos czares a quem os bolcheviques limparam o sebo.
Não gostei mesmo nada da Maria. A bem dizer detestei-a. Ao ponto de correr o risco de cair num trocadilho barato e escrever que ela me pareceu uma fedorentinha. Um corte de cabelo a armar ao fashion tão desastroso que até parece uma peruca. Um ar emproado e nojento. Uns olhos semicerrados e lábios fechados a armar-se em boa! Tudo péssimo. Horrível. Nem numa afliçãozinha marchava. Podem crer!
No Hermitage é tudo à grande, o que, aliado ao abuso de natas na gastronomia, é a prova dos nove da enorme influência francesa na Rússia. Matisse? Duas salas. Picasso? Outras duas. E assim por diante, com paletes de Cezannes, resmas de Van Goghs, porradões de Pissarros a desfilarem à nossa frente (só de pensar que se uma daquelas telas fosse minha não teria mais de trabalhar mais até à conclusão dos meus dias…) nas salas do 3º andar.
Porradão. Adoro esta palavra, apesar de estar careca de saber que ela soa muito melhor dita do que escrita. Vá lá, diga alto: Porradão!
Como não tenho segredos para vocês, confesso que prefiro os museus pequenos, verticais, de coleccionadores, aos mega-museus generalistas. Mas ninguém no seu perfeito juízo pode passar por S. Petersburgo e deixar de consagrar um dia ao Hermitage. Ponto final parágrafo!
Para não enjoar, e como fixei em duas horas seguidas o tempo máximo que se deve consagrar à degustação de um museu (consumir arte deve ser um divertido prazer e não uma penosa obrigação), optei por dividir a minha visita em dois períodos de duas horas, separados por um intervalo passado na cafetaria – a tomar café e a bisbilhotar displicentemente no guia do museu (outros 400 rublos). As duas horas da manhã foram aplicadas a espiolhar os aposentos do Palácio de Inverno. As da tarde consagradas aos franceses da segunda metade do século XIX.
Noventa e seis anos depois dos bolcheviques, avisados do início da Revolução por uma salva de artilharia disparada pelo cruzador Aurora (fundeado no Neva), terem assaltado o Palácio de Inverno, chegou finalmente a minha vez de trilhar o mesmo caminho – com a diferença de que antes de entrar tive de aguardar pacientemente 45 minutos na bicha, pagar 400 rublos pelo bilhete de entrada e depositar o encerado Barbour e o saco de mensageiro Aldo (já todo roto) no vestiário.
Lá dentro, subi para o primeiro andar, para visitar os aposentos dos Romanov, ao invés do bolcheviques que avidamente se dirigiram para as caves com o louvável (e conseguido) intuito de darem cabo da garrafeira dos czares. Por razões de calendário, a Revolução de Outubro foi a 7 de Novembro e como nessa altura do ano pode fazer muito frio em S. Petersburgo nada melhor que uns bons vinhos e champanhes franceses para aquecer as almas e os corpos do bom proletariado revoltado, famélico e sequioso.
O Palácio de Inverno integra o complexo do Hermitage, que o seu director, numa declaração curiosa, disse não jurar que seja o melhor museu do Mundo - mas estar em condições de garantir que não é seguramente o segundo melhor.
No final achei uma pechincha pagar apenas 400 rublos para ficar com uma ideia aproximada de como viviam os Romanov (à grande!) e deliciar as vistinhas durante um par de horas com telas de impressionistas, expressionistas e ofícios correlativos , que não conhecia, nem sequer de reproduções ou catálogos.
Estreei-me no sistema de transportes públicos de S. Petersburgo no trólei 10, que me levou da Ploshad Vosstaniya até ao Palácio de Inverno, através de mais de três quilómetros, em linha recta, da Nevskiy Prospekt.
À diferença do que acontece na generalidade das grandes cidades europeias, aqui não estão disponíveis passes turísticos de curta duração válidos para diferentes tipos de transportes. A melhor solução é comprar as viagens a bordo: 21 rublos (um euro igual a 43 rublos) para autocarro, trólei ou eléctrico, 25 rublos para o metro.
Aprendi à minha custa que os cobradores do sistema de transportes colectivos de S. Petersburgo não têm arreigado o hábito de dar troco aos turistas. Dei uma nota de 100 rublos para pagar a viagem no 10 e recebi de volta apenas 70 rublos. À minha revelia, o troco tinha sido arredondado.
O cobrador até foi simpático e (creio que a titulo de retribuição da gorjeta que me extorquiu), adivinhando o meu destino, indicou-me a paragem para o Hermitage (não era preciso…).
Como gosto que me dêem sempre todo troco a que tenho direito, muni-me de trocos e sempre que entro para um trólei ou eléctrico levo na mão três moedinhas, duas de 10 rublos e uma de um. À primeira quem quer cai. À segunda cai quem quer.