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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Dom | 16.10.11

Papei uma missinha bem catita na Catedral de Kazan

Jorge Fiel

 

Papei com muito gosto a missinha das sete na Catedral da Nossa Senhora de Kazan, uma coisa enorme a imitar a Basílica de S. Pedro, em Roma, onde está sepultado o marechal de campo Michael Kutuzov, que ainda é idolatrado pelos russos por ter derrotado Napoleão, recorrendo à inovadora táctica da terra queimada.

A liturgia ortodoxa é muito diferente da católica, na esmagadora maioria das coisas para melhor (ou muito melhor) sendo uma excepção a esta regra a discriminação sexista que obriga as mulheres a cobrirem a cabeça - e os homens a descobrirem-na.

Acho bem que o pessoal esteja sempre de pé! Não me parece educado que uma pessoa permaneça confortavelmente sentada quando se vai encontrar com o seu Deus. Um pouco de respeitinho não faz mal a ninguém.

Depois a Igreja Ortodoxa não poupa na mão de obra. Entre o batushka, que comanda as operações, e pessoal auxiliar, contei pelos menos oito concelebrantes. Ou seja, eles não brincam em serviço.

Os fieis ortodoxos são muito mais activos que os nossos durante a missa. Muito frequentemente executam um versão muito mais sofisticada que a católica do sinal da cruz e depois vergam a espinha, curvando-se quase até porem o corpo a fazer um ângulo recto com os membros inferiores, o que só lhes pode ser proveitoso – um pouco de exercício nunca fez mal a ninguém.

Apreciei também o facto de os sacerdotes estarem no meio dos fieis, e ao mesmo nível, e não a falarem-lhes de alto, ex catedra. E delirei com o coro que acompanhou a missa. Realmente bonito.

Também gostei que antes dd começar a missa propriamente dita, o batushka tenha dado uma volta pelo templo, a espelhar incenso, o que deixou o ambiente agradavelmente perfumado.

Mais estranhos são os rituais finais. Primeiro, o pessoal fez uma fila para beijar o anel do batushka e receber dele o sinal da cruz na testa – até fiquei a pensar se seria útil em aproveitar o ensejo para me submeter a esta espécie de comunhão ortodoxa, na esperança de que esse movimento apague o O de otário que tenho tatuado na testa e que cada vez há mais gente que o vê e tira partido disso.

Em segundo lugar, as pessoas formaram uma nova bicha, desta vez para beijarem, com alguma detenção (ou seja sem pressas), as mãos ou face de um ícone.

Resumindo e baralhando. Se alguma vez tiver puder assistir uma missa ortodoxa faça a si próprio o favor de não desperdiçar essa oportunidade.

Dom | 16.10.11

Vale a pena desfrutar o Sangue Derramado

Jorge Fiel

 

A Igreja do Sangue Derramado é a coisa mais parecida que já vi, em S.Petersburgo, com a Catedral de S. Basilio, o ícone nº 1 da Praça Vermelha. Embora menos colorida que a moscovita, é igualmente impressionante, não só por fora, mas também por dentro.

A igreja começa a impressionar ainda antes da vista, só pelo nome, uma alusão ao facto de ter sido mandada construir por Alexandre III no lugar onde o seu antecessor (o czar Alexandre II) foi assassinado por um grupo de revolucionários. Depois nunca mais deixa de nos fascinar.

As parábolas e cenas bíblicas que cobrem paredes e tectos no interior da Igreja, bem como o fausto dos chãos, merecem o investimento de 250 rublos e de 45 minutos numa visita ao interior da Igreja do Sangue Derramado.

 

Dom | 16.10.11

Encontro no Café Singer com o professor badalhoco

Jorge Fiel

 

Posso ter-me cruzado com o célebre professor badalhoco na casa de banho do Café Singer, em S. Petersburgo.

Se não se recorda – ou até mesmo nunca soube – do episódio do professor badalhoco, eu passo a explicar. Trata-se de um bandalho que apertou o pescoço a uma zelosa funcionária de uma escola secundária alentejana, em retaliação pelo facto da dita senhora o ter admoestado, em plena sala de professores, por mais uma vez ter deixado a casa de banho toda suja após se ter servido dela para satisfazer as suas necessidades fisiológicas de carácter sólido.

Segundo consta, o professor badalhoco não só se abstém de puxar do autoclismo como, ainda por cima, escatologicamente, se diverte a espalhar fezes pelas paredes da casinha. Um porcalhão!

Sábado à tarde, animado pelo propósito de impedir que um eventual aperto de bexiga perturbasse a degustação da minha borsch, dirigi-me à casa de banho do Café Singer, que não cheira a pêssego (como as do aeroporto de Frankfurt) e é destituída de mictórios, resumindo-se a duas sanitas, ou seja uma diminuta capacidade instalada para poder escoar a procura com fluidez – e, por isso, geradora de filas.

Enquanto aguardava pela minha vez tive a oportunidade de confirmar que uma boa parte dos russos honra a tradição do seu pais de lavar as mãos também antes do xixi. Faz todo o sentido porque a pila anda protegida pelas cuecas e calças, enquanto as mãos andam para aí em contacto com todas as imundícies deste mundo.

Quando entrei na casa de banho constatei que o cavalheiro anterior tinha os intestinos desarranjados e não se preocupava nada com as consequências dessa anomalia na higiene da sanita. Será que, inadvertidamente, me cruzei em S. Petersburgo com o célebre professor badalhoco?