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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Seg | 10.11.08

O devaneio de uma lápide e dois encontros com a História nas ulicas Jozefa e Szeroka, em Kazimierz

Jorge Fiel

Nasci na Maternidade Júlio Dinis, mas a minha primeira casa foi o 304 da avenida Rodrigues de Freitas, em cujo sótão vivi até que na Primavera de 1973 o prédio ameaçou ir abaixo, durante a noite, contagiado pela incompetência com que o edifício vizinho estava a ser demolido. Mudei-me então para a Pasteleira, deixando para trás um poster do Lenine e um volumoso dicionário de Latim.

A casa de dois andares onde passei os primeiros 16 anos da minha vida acabou por sobreviver e tem na sua fachada espaço suficiente para que, um dia, quem sabe?, poder acomodar uma lápide que a Câmara do Porto, a Associação de Comerciantes de Carnes ou Sindicato dos Empregados de Escritório e Ofícios Correlativos achem por bem encomendar e mandar afixar, com o benévolo intuito de lembrar às gerações vindouras que ali viveu, durante toda a infância e parte da adolescência, o Jorge Fiel – um tipo razoável, cujo principal defeito era que, assim que se apanhava com um superávite de tempo, não resistia à tentação de enxofrar a paciência dos incautos que se aventuravam a frequentar o seu blogue com textos onde discorria sobre temas tão improváveis e inúteis como as desvantagens do papel higiénico preto da Renova (1), os perigos que um homem corre se a mulher que lhe está a fazer um broche usa placa dos dentes e não se despojou previamente dela, ou os inconvenientes de alojar a carteira no bolso de trás das calças quando se tem de andar no metro de Lisboa na hora de ponta (2).

Adoraria que esta lápide fosse adornada com uma escultura da minha cabeça (em Praga usa-se muito esse estilo) -  um baixo relevo serve perfeitamente -  mas a última coisa que eu quero neste momento é condicionar o gosto e projectos da vereação, dos comerciantes de carnes ou dos dirigentes sindicais dos empregados de escritório.

Lembrei-me da lápide que eventualmente recorde o prédio da zona oriental do Porto (3) onde me comecei a fazer homem, quando me preparava para socializar com preclaras e preclaros o quanto amo encontros com locais onde se produziu história com agá grande, ou seja História.

Em Kazimierz, o bairro judeu de Cracóvia, tive dois contactos com locais que testemunharam momentos importantes da história do século XX, que passo a descrever:

1.     No número 14 da ulica (rua) Szeroka vi o prédio onde nasceu a Helena Rubinstein, essa verdadeira Rainha dos Cosméticos, ocorrência diligentemente aproveitada por um empresário da restauração astuto e vivaço que logo tratou de baptizar Rubinstein o restaurante que ocupa o número 12.

 

2.     Passei no 12 da ulica Jozefa, em cujo pátio (na foto abaixo) forma rodadas as cenas nucleares do já aqui referido “Lista de Schindler”.

 

(continua)

…………………………………

(1)  Dificulta imenso o apuramento do momento exacto em que podemos dar por concluída com eficácia a tarefa de limpeza.

 

(2) Eu próprio desconfio que estou numa hora de ponta, pois não arranjo outra explicação para a homérica extensão deste parágrafo (1007 caracteres de um fôlego é obra – se conseguiram lê-lo mandem pf a vossa a morada que eu envio-vos diploma comprovativo na volta do correio) , uma coisa capaz de fazer inveja ao Saramago e que estabelece um novo recorde, passando a poder ostentar título de o mais longo da curta mas atribulada história (com agá pequeno, não exageremos!) desta Lavandaria, bem assim como da sua antepassada e saudosa Roupa para Lavar.

 

(3)  Em frente à Garagem Galiza e à Casa de Espanha (no entretanto desaparecida), e ao lado do jardim de São Lázaro.

 

Dom | 09.11.08

Como o Mahatama Fiel ao passear em Kazimierz fez de Mia Farrow e entrou na Lista de Schindler

Jorge Fiel



Na “Rosa Púrpura do Cairo”, Cecília (Mia Farrow) é surpreendida ao ver o herói (Jeff Daniels, no papel de Tom Baxter) sair da tela para ir ter com ela à sala de cinema - e oferecer-lhe uma nova vida (uma vida nova é sempre bom, um “fresh start” como dizem os americanos).

Um passeio pelas ruelas sombrias de Kazimierz, carregadas de tons cinzentos, proporciona não só um salto no tempo, até aos dias negros da II Guerra Mundial, mas também um movimento contrário ao do filme de Woody Allen – transporta-nos para dentro da tela da “Lista de Schindler”.

As cenas essenciais do aclamado filme de Spielberg foram rodadas aqui no bairro judeu de Cracóvia.  

Deixando-se perder pelas ruelas de Kazimierz e dando Red Bull à sua imaginação, não é preciso ingerir substâncias ilícitas (a melancolia a preto e branco das velhas sinagogas e cemitérios judaicos ajudam ao transporte), para entrar na tela e sentir-se um figurante do filme que contou ao Mundo a história corajosa de Schindler, o alemão (checo se preferirem, pois nasceu na Morávia há exactamente cem anos) que salvou a vida de mais de mil judeus, empregando-os na sua fábrica – que fica do outro lado do Wisla, no número 4 da rua Lipowa.

Ir a Cracóvia e não vagabundear pelas ruas Miodowa, Szeroka e Jakuba, é mais grave do que ir a Roma e não passar uma hora sentado numa esplanada da Piazza Navona (1) a morder o ambiente e apreciar a belíssima Fontana dei Fiumi, do bom do Bernini e a fachada côncava da igreja de Sant’Agnese in Agone. Da autoria de Borromini, seu inimigo jurado.

Além da viagem no tempo, o bairro judeu proporcionou-me duas experiências gastronómicas (uma razoável e uma extraordinária), um momento quase perfeito e dois encontros de diferentes intensidades com a história do século XX.

As duas experiências gastronómicas foram jantares no Szara Kazimierz (2) e no Pimiento (3).

A experiência extraordinária foi no Szara, onde, na sempre delicada hora de encomendar, beneficiei da sabedoria camoniana (4) do Fernando e regalei-me com o Plankstek, um bife que recomendo a toda a gente (5) e se apresenta numa travessa de madeira, acompanhado de batatas gratinadas, feijão verde enrolado em tiras de bacon, tomates assados no forno e molho bearnês (49 zlotys cada, ou seja 15 euros, nada que mate, portanto).

A experiência gastronómica apenas razoável foi no Pimiento, onde a carne não se revelou à altura de um grill argentino, não logrando por isso compensar a ruidosa barulheira que meia dúzia de indígenas (cinco bárbaros e uma bárbara) fizeram na mesa ao lado durante todo o santo jantar.

 

 


(continua)

……………………..

(1)  Essa história de ir a Roma e ser obrigado a ir ver o papa além de  estar gasta é completamente anacrónica. Acresce que este papa alemão Ratzinger não tem um décimo do carisma do anterior, o polaco Wojtila, que estudou em Cracóvia.

 

(2)  Restauracja Szara Kazimierz (também há um Szara na Rynek Glówny), ulica Szeroka 39 www.szarakazimierz.pl

 

(3)  Pimiento, ulica Józefa 26 www.pimiento.pl

 

(4) A sabedoria feita de experiência.

 

(5)  Incluo neste “toda a gente” abrangente não só os amigos e conhecidos do café, mas também eventuais inimigos, numa inequívoca demonstração de abertura de espírito e atitude intrinsecamente católica, ao jeito de quem oferece a outra face após levar uma bofetada na primeira cara - uma atitude que sempre me pareceu parva mas, que querem é a onda pacifista, Gandhi  “make love, not war”, em que eu ando… (se continuo assim ainda acabo a ficar conhecido como o Mahatma Fiel)

 

Sab | 08.11.08

As minhas dez praças preferidas

Jorge Fiel

Adoro listas. Fazer as minhas listas e ver as listas dos outros.

Adoro listas, apesar de estar careca de saber (e também efectivamente careca, mas as minhas desgraças capilares não são chamadas agora ao caso) que as listas valem o que valem, ou seja valem pouco, por causa da sua excessiva exposição aos sabores e humores da conjuntura.

Se há um ano tivesse elaborado o meu ”top ten” de queridinhas das séries de televisão, a Meredith Grey (Anatomia de Grey) tinha lá lugar cativo, muito provavelmente nos lugares do topo. Mas hoje já não constava lá, de certeza absoluta. Enjooei da cara e problemas dela.

Aprendi que tendemos a valorizar os acontecimentos mais recentes durante os largos anos em que fui participante activo no curioso psicodrama colectivo da eleição das figuras e acontecimentos (nacional e internacional) do ano do Expresso.

Na hora de votar, aos olhos da generalidade dos meus antigos colegas, um acontecimento ocorrido em Novembro assumia muito mais importância do que um vivido em Fevereiro, mesmo que muitas vezes não fosse preciso usar óculos para perceber que este outro iria ter muito mais impacto no futuro – e que o mais recente não passava de espuma.

Encontram-se por aí aos pontapés exemplos de como as pessoas se enganam na hierarquização das coisas, quando a escolha não beneficia do tempero de tempo a dar distância ao seu juízo.

Van Gogh não vendeu quadros em vida. Em 1980, o ano do “Apocalipse Now”, a Academia de Hollywood entregou a “Kramer contra Kramer” o Óscar do melhor filme.

Depois temos de contabilizar a volatilidade do gosto.

Quando era pequeno o meu prato preferido era ovos mexidos com salsichas Isidoro de lata, detestava tomate e não me passaria sequer pela cabeça comer carne crua.

Hoje adoro carpaccio, como tomate todos os dias e o meu prato preferido é polvo com molho verde (salsa, cebola, azeite e vinagre).

È por isto tudo que se diz que as listas valem o que valem (excluindo as listas de compras para o supermercado cuja soma varia se se vai ao El Corte Inglês ou ao Lidl).

A Plaza Mayor de Salamanca constaria obrigatoriamente da lista que se segue das minhas dez praças preferidas (que não integra qualquer praça portuguesa por opção) se esta lista tivesse sido feita há um ano.

Mas, no entretanto, tive de criar espaço para a entrada da maravilhosa Rynek Glówny, de Cracóvia, a que só fui pessoalmente apresentado em Setembro.

Desta lista só constam mares já navegados, ou seja praças onde eu já estive ao vivo. Nunca fui a Veneza, pelo que me desculparão a ausência da Praça de São Marcos, que calculo seria uma séria candidata a um lugar nesta lista.

Por último, e como não podia deixar de ser, a lista que se segue está contaminada por muitas paixões e afectos, o que ajuda a explicar escolhas que poderão ser polémicas ao primeiro olhar, como é o caso de Picadilly Circus ou da Plaza del Obradoiro..

Sem mais delongas, eis a lista das minhas dez praças preferidas:   

1.     Praça Vermelha  (Moscovo)

 

2.     Stare Mesto  (Praga)

 

3.     Rynek Glówny (Cracóvia)

 

4.     Grand Place (Bruxelas)

 

5.     Place des Vosges (Paris)

 

6.     Times Square (Nova Iorque)

 

7.     Piazza Navona (Roma)

 

8.     Plaza del Obradoiro (Santiago de Compostela)

 

9.     Djam El Fna (Marraquexe)

  

10.  Picadilly Circus (Londres)

 

Sex | 07.11.08

Algumas reflexões a propósito do Eros Bendato

Jorge Fiel

A escultura Eros Bendato, do polaco Igor Mitoraj, acrescentou, em 2005, um formidável toque de requinte contemporâneo à Rynek Glówny de Cracóvia.

Contrastando com o fedor a mijo e merda de cavalo que mora no lado oposto da praça, neste canto, junto à Torre sobrevivente da Câmara Municipal, esta escultura de grandes dimensões (3m70 por 2m25) exala um perfume de modernidade.

Já estou arrependido de não ter tirado uma fotografia ao lado desta cabeça (de lado) de Eros, que efectivamente não está vendada .

A venda descaiu o que está bem, até porque se é verdade é que há momentos em que o sentido vista é dispensável (o tacto e o odor podem ser poderosos, se bem usados), a verdade é que não é por acaso é que nestas coisas do erotismo há uma disciplina chamada “voyeurismo” – e, aqui cá para nós, acho que quase toda a gente tem no curriculum algumas oftálmicas.

Ou seja, para saber que ver também é bom, não é preciso ter lido ou visto o Ensaio sobre a Cegueira, do camarada Saramago (que está a comemorar o 10º aniversário do desgosto de Lobo Antunes), uma parábola que a associação dos cegos norte-americanos teimou em não perceber – mas, como é claro, nestas coisas o pior cego é sempre aquele que não quer ver.

Gostei de ver o Eros Bendato da mesma maneira que gostei de subir ao alto da Torre da Câmara, de onde se usufruir de uma vista apreciável da praça, apenas limitada pelo facto de estarem disponíveis apenas quatro janelas de de reduzida dimensão – ou seja, nada panorâmicas.

De reduzida dimensão, mas muito pitoresca, é também a minúscula igreja de Santo Adalberto, com que dei de caras quando abordei a Rynek vindo da Grodzka.

De grande dimensão (a vida é feira de contrastes….) é o Mercado dos Tecidos, o belíssimo edifício renascentista que divide a praça em dois espaços.

O Mercado dos Tecidos é do um edifício rectangular, do tipo risca ao meio, com dois pisos, sendo que o primeiro está ocupado por uma secção do Museu Nacional, actualmente em obras e por isso fechada ao público.

No interior do rés-do-chão há uma galeria de lojas que lembra o Grande Bazar de Istambul, mas em ponto pequeno e com muito menos barafunda.

No exterior, as arcadas albergam algumas lojas e cafés. Fiquei arrependido de não me ter instalado a escrever um postal ilustrado à minha filha Mariana à mesa do café outrora foi frequentado por Lenine.  

Mas fiquem sossegados que os dois arrependimentos aqui manifestados são de pequena monta e facilmente reparáveis num posterior (e eventual) visita a Cracóvia.

(continua)

 

Qui | 06.11.08

Tudo que eu penso sobre cavalos

Jorge Fiel

Nada me move contra os cavalos.

Nunca montei num cavalo, sendo que o hipismo é uma actividade que consta - a par de esquiar, comer lampreia e permitir que me introduzam objectos estranhos pela ré -  da lista das coisas que planeio não fazer no tempo que resta até à conclusão dos meus dias.

Mas até acho os cavalos uns bichos simpáticos e estou pronto a reconhecer que, na maior parte das vezes, ostentam uma fina elegância e porte aristocrático.

Já devo ter comido carne de cavalo (juram-me que o bife do Snob é de carne de cavalo) mas foi sem querer. 

Nunca me passaria sequer pela cabeça encomendar um bife de cavalo, apesar de uma vez ter jantado bife de canguru, em Camberra, na companhia do Martins da Cruz e do Fernando Lima (1).

A relação mais próxima que tive com um cavalo foi através da minha ex-mulher, que, além de ter tido um (2), possui uma tal paixão (cuja mantém) pelo gado cavalar que eu, por mais de uma vez, cheguei a encarar seriamente a hipótese de relinchar para ser ouvido lá em casa.

Dito isto, acho que após séculos a fio a prestar excelentes serviços à Humanidade, o cavalo se tornou tão anacrónico como a ópera e tão útil como a máquina de escrever.

A máquina de escrever serve como adereço de filmes de época, sendo que eu continuo a guardar as duas últimas (uma HCESAR e outra AZERTY), porque tenho uma enorme dificuldade em desprender-me das coisas (3).  

A ópera acabou substituída pelas telenovelas televisivas no seu papel de entretenimento das massas, sobrevivendo como prazer para pequenas elites cultas.

O tractor, o automóvel e os tanques substituíram o cavalo, com evidentes ganhos de produtividade, nos campos, estradas e guerras.

Com a sua utilidade circunscrita ao desporto e lazer, o cavalo é usado, com algum lucro para os proprietários, a puxar caleches, para fins turísticos, em cidades tão diversas como Nova Iorque (tendo como epicentro o Central Park), Sevilha (no Parque Maria Luísa) e Cracóvia (a partir da Rynek Glówny).

O trânsito automóvel no centro de Cracóvia está limitado aos residentes (ou até mesmo vedado na praça e ruas principais) mas a sua extensão (é bonito mas maneirinho) e topografia (é plano) facilitam a vida aos turistas.

As viagens de caleche são, por isso, apenas um pequeno luxo a que alguns turistas se entregam. Eu não sou fã do estilo, mas há muito que aprendi a ser tolerante, a viver e a deixar viver.

As caleches tiradas a cavalo até dão algum colorido à Rynek Glówny e não me incomodariam nada se não se desse o caso de os animais usarem como casa de banho o sítio onde estão estacionados à espera de freguesia .

Nesse local, o equivalente cavalar à praça de táxis, fede a mijo e a merda de cavalo, o que é um verdadeiro corte numa praça tão linda - e me deixou seriamente revoltado.

Acredito que algumas mulheres, em circunstâncias bem específicas, achem sexy os homens a cheirar a cavalo -  ou até mesmo cavalos a cheirar a cavalo. Mas isso refere-se apenas ao cheiro do suor do cavalo. Não do cocó ou xixi dos ditos.

(continua)

………………………………………….

(1) Conto esta história apenas para evidenciar algum cosmopolitismo, abertura de espírito e bom relacionamento.

 

(2)  Para cujo sustento (estou a referir-me ao cavalo) contribuí sem refilar, o que espero conspirará a meu favor na contabilidade do Dia do Juízo Final.

 

(3) Justifico esta atitude (pouco racional) perante mim próprio dizendo que um dia pode faltar a electricidade ou os computadores deixarem de ser seguros, e por isso tenhamos de voltar às velhas máquinas de escrever e aos linguados.

 

Qua | 05.11.08

A pândega que é o Hard Rock Café de Cracóvia e duas perguntas que levam muita água no bico

Jorge Fiel

O local onde está a loja do Hard Rock Café,  visto do alto da Torre da Câmara

- Foste ao Hard Rock Café em Cracóvia?

Eis o tipo de pergunta que leva água no bico.

Responder Sim não está errado, mas se não acrescentarmos mais nada corremos o sério risco de passarmos por faroleiros aos olhos de especialistas nesta matéria.

As teimas são tiradas com uma segunda pergunta sequencial:

- O que é comeste?

Bom, como o menu da cadeia está globalizado, é fácil responder que encomendamos nachos de entrada, seguidos de Baby Back Ribs, e que tudo foi empurrado com Zywiec bem geladinha.

Mas se respondemos isso, o perguntador já nos apanhou na sua armadilha e arquivou-nos na categoria de “pinta navios” (designação bem mais colorida do que os sinónimos “mentiroso” ou “ficcionista”, não acham?)

Eu passo a explicar. Há um Hard Rock Café em Cracóvia mas não serve comidas nem bebidas.

Esta última frase soa tão estranha como que há uma Zara em Cracóvia mas não vende roupa . Mas é verdadeira.

O Hard Rock Café está magnificamente localizado na Rynek Glówny, a menos de cem metros da porta principal da Basílica de Santa Maria (a entrada que é de borla mas reservada aos fiéis devotos e vedada aos fiéis ateus como eu)  e de porta aberta.

É possível comprar lá uma genuína t shirt com os dizeres Hard Rock Café Kraków, mas muito infelizmente, para os amantes de nachos e ribs (legião em que eu em incluo) não serve refeições - pelo menos por enquanto.

O Hard Rock Café de Cracóvia é apenas uma loja de venda de produtos de “merchandising” da cadeia – roupas, cerâmica, pins e ofícios correlativos. Comida saudável, do tipo bamburguers, batatas fritas, gelados? Ni hablar.

Se calhar faz sentido. A Zara já começou a instalar experimentalmente cabeleireiras nalgumas das suas lojas. Se calhar não andará muito o tempo em que haverá lojas da Zara onde não se vende roupa – mas extensões, ou, quem sabe?, empanadas de bacalhau e “cañas” de San Miguel.

Isto é uma pândega, como diz a minha mãe, a título de ponto final para as opiniões que tem acerca de tudo quanto é matéria prima os telejornais da TVI  - desde as presidenciais americanas até aos roubos de multibanco, passando pelos altos e baixos da relação entre o Angélico e a Rita Pereira.

 

(continua)

 

Ter | 04.11.08

Como gastando 12 zlotys (quatro euros) evitei a ira de Deus e sérios problemas de consciência

Jorge Fiel

As fachadas servem para isso mesmo, para atrair a nossa atenção. As mulheres sabem isso desde que existem - e usam e abusam desse conhecimento com efeitos perniciosos para os homens (na generalidade dos casos).

Eu olhei para a fachada da Basílica de Santa Maria, gostei do que vi e senti de imediato a irresistível tentação de entrar, para a conhecer melhor e por dentro.

Foi isso mesmo que decidi fazer, apesar de saber dos enormes riscos em que incorremos quando não somos suficientemente fortes para resistir às tentações – e cedemos.

Mais cedo do que esperava (a factura destes impulsos só costuma aparecer depois), vi-me a braços com um complicado problema de consciência.

À porta principal da basílica das torres assimétricas estava um aviso, escrito em inglês, informando que esta entrada estava reservada aos fiéis (categoria em que me incluo) que iam papar uma missinha ou rezar ao Altíssimo (categorias em que eu já não me incluía).

Os ateus e agnósticos curiosos, que apenas queriam espiolhar as ricas entranhas do templo, eram convidados a munir-se de um bilhete e a usarem a entrada lateral.

Ainda hesitei, mas rapidamente percebi que me iria sentir como um ladrão de túmulos se optasse por ser penetra. E fui aplicar seis zlotys por cabeça para entrar na basílica à turista, sem a obrigação de rezar umas Avés Marias, Padre Nossos ou Salvé Rainhas (que podiam ser em português, pois Deus é, com toda a certeza, poliglota) para sossegar a minha consciência e evitar enganar o Senhor (o que, com toda a certeza, configuraria um pecado - talvez mesmo mortal).

Bem vistas as coisas, os 12 zlotys (os rapazes optaram por ir dar uma volta pela Rynek) foram um preço razoável (12 zlotys valem qualquer coisa como quatro eros, ou seja dois cafés no Majestic) para evitar problemas de consciência, eventuais complicações com o Altíssimo e, ainda, ver o maravilhoso altar da Basílica – e receber um folheto em português, onde, em metade de uma folha A4, é fornecida a informação essencial sobre o templo.

O retábulo de Santa Maria, em talha dourada, é da autoria de Veit Stoss (o único alemão com boa imprensa na Polónia), e nele estão representadas uma dúzia de cenas bíblicas, desde a Árvore de Jessé até à Descida do Espírito Santo (nada a ver com a queda dos resultados e cotações do BES), passando pelos clássicos Nascimento de Jesus, Adoração dos Reis Magos e Ressurreição.

Como não poderia deixar de ser, pinturas do incontornável Jan Matejko decoram o espaço circundante do altar.

(continua)

Seg | 03.11.08

O “coitus interruptus” do toque de clarim do infeliz corneteiro que salvou Cracóvia dos tártaros

Jorge Fiel

 

Ter nascido estrábico só pode ter influenciado a minha paixão pela assimetria.

Nunca compreendi a ditadura estética que nos impõe o uso simultâneo de peúgas da mesma cor.

Acolhi bem a ousadia rebelde das mulheres usarem um brinco de cada nação (ou até mesmo a prática do brinco solitário!) de que Margarida Pinto Correia foi um dos arautos á época em que apresentava telejornais na RTP.

Não escondo que acho bastante erótica a visão de um par de mamas em que uma é maior e/ou mais descaída do que a outra.

Por isso, agradou-me logo ao primeiro olhar a Basílica de Santa Maria, em Cracóvia, com as suas torres completamente assimétricas, uma mais alta (81 metros) do que a outra (69 metros) -  e com soluções decorativas distintas para o seu remate.

Símbolo maior da arquitectura polaca, a imponente Bazylika Mariacka (Basílica de Santa Maria)  pontifica a um dos cantos da deslumbrante Rinek Glowny (praça central), sendo que a sua influência ultrapassa o limitado alcance do sentido vista, prolongando-se no sentido audição – que diariamente, ao meio dia em ponto, é amplificado pela Rádio Nacional para todo o território polaco.

Passo a explicar. Tudo leva a crer que no já longínquo ano de 1241 Cracóvia foi poupada a uma invasão dos tártaros (praga que chegou aos nossos dias mas com os seus efeitos perniciosos circunscritos à dentição) pelos sentidos bem despertos de um bombeiro, providencialmente  apetrechado com um clarim.

O bombeiro, medieval e patriota, entrou para a História da Polónia e no quotidiano dos polacos por estar acordado, ver bem ao longe e ser senhor de um apreciável fôlego.

Mal descortinou as hordas tártaras, na linha do horizonte, o bombeiro desatou a soprar no clarim, acordando a cidade a tempo de ela se defender do invasor.

Este episódio acabou em bem para Cracóvia, que rechaçou o invasor, mas mal, mesmo muito mal, para o corneteiro, cujo toque e vida foram tragicamente interrompidos quando uma certeira flecha tártara lhe trespassou o pescoço.

Em homenagem a está espécie de “coitus interruptus” do heróico corneteiro, a passagem das 24 horas do dia é assinalada por um toque de clarim (interrompido, como é bom de ver) executado na janela da mais alta das torres da Basílica de Santa Maria.

Sendo que ao meio dia, o toque interrompido de corneta é transmitido pelas ondas do éter para toda a Polónia, via Rádio Nacional.

(continua)

 

Dom | 02.11.08

Ponto de encontro junto à estátua de Adam Mickiewicz, o patriota que dava para os dois lados

Jorge Fiel

Cá está a Rynek Glowny de Cracóvia. No meio o Mercado dos Tecidos. Do lado de lá a gótica Torre da Câmara. Deste lado, em primeiro plano, a estátua do poeta Adam Mickiewicz

Os aeroportos resolveram o problema institucionalizando um “meeting point” no interior de cada terminal.

Informalmente, cada cidade tem os seus “meeting points”. Nunca esquecerei que na minha baixa adolescência, passada nas imediações da avenida Rodrigues de Freitas, a porta da estação dos Correios da Praça da Batalha (1) era um dos mais populares locais de encontro.

A estátua de Adam Mickiewicz, na Rynek Glowny (praça do mercado), é o ponto de encontro por excelência em Cracóvia.

Como nestas coisas não se deve inventar, adoptámo-lo e convencionamos que, em caso de nos perdermos de vista, o ponto de encontro seria o sopé da estátua do poeta romântico.

Como em tudo na vida, esta combinação tem uma vantagem (é facilmente localizável) e um inconveniente -  não fomos os únicos a ter essa genial e brilhante ideia, e por isso a estátua tem normalmente mais gente à volta que moscas junto a um poio infecto de merda, numa tarde quente de Verão (2).

A estátua de Mickiewicz, na Rynek de Cracóvia, é um dos mais importantes monumentos da Polónia (3) e o poeta está para o patriotismo polaco como Camões (o Luís Vaz, não o Afonso, nem tão pouco o Tó, que por sinal já não vejo há uma data de anos) para o nosso.

Esgravatando um pouco para além da superfície,  uma pessoa fica com dúvidas, primeiro, e depois convence-se que os polacos são mesmo tolerantes e espíritos muitos abertos nesta delicada questão dos ícones patrióticos.

Para começar, o bom do Adam Mickiewicz não era exactamente polaco, já que nasceu na Lituânia -  dai que seja reclamado como um símbolo da cultura daquele país báltico, onde dá pelo nome de Adomas Mickevicius.

Acresce que Pan Tadeusz, a mais famosa das suas obras, consensualmente aclamada como cânone da literatura patriótica polaca, inicia-se com a seguinte frase: “Lituânia, a minha pátria”.

Além de dar para os dois lados (a Polónia e a Lituânia), o Adam  (Adomas, se preferiram) não teve, ao longo da sua vida (1798-1855)  uma relação muito intensa com Cracóvia, cidade que só visitou 35 anos depois de morto (4).

Cá está a estátua do ambivalente Mickiewicz

(continua)

…………….

(1)  O local que durante o Cerco do Porto estava instalado o hospital onde foi amputado um braço ao herói liberal Sá da Bandeira.

 

(2)  Temo que não achem esta imagem muito inspiradora, mas, acreditem, foi o melhor que se pôde arranjar.

 

(3)  Como é óbvio a estátua que está disponível é uma cópia da original, de 1898, que os nazis dinamitaram quando ocuparam a cidade, no quadro do seu plano para se verem livres de todos os ícones do patriotismo polaco. 

Sab | 01.11.08

Como o mapa de Cracóvia lembra o Lampadinha, inseparável companheiro do Professor Pardal

Jorge Fiel

 

 

 

A Rynek Glowny de Cracóvia entrou imediata e directamente para o pódio do meu ranking pessoal das mais bonitas praças do Mundo.

Foi um daqueles casos que os franceses - com aquela graça e elegância que a sua língua empresta aos ditos mais banais – designam por “coup de foudre”. Uma paixão fulminante, logo à primeira vista.

Nos primeiros cinco séculos do segundo milénio, de 1038 a 1609, Cracóvia foi a capital de um Estado que se estendia do Báltico ao Mar Negro.

A história da cidade, nas suas diferentes e sucessivas camadas  - medieval, renascentista, barroca e habsburgo - apresenta-se aos nossos olhos, como um apetitoso mil folhas, na praça do mercado (Rynek Glowny).

Ao primeiro olhar, surge uma praça enorme, dividida em dois espaços pelo edifício renascentista do Mercado dos Tecidos (Sukiennice), fervilhante, com cafés, esplanadas, lojas e movimento de pessoas, bordada a toda volta com fachadas lindíssimas que não dão descanso aos nossos olhos.

Completada a primeira volta, já identificamos a Basílica de Santa Maria, que domina a praça a partir de uma das suas quatro esquinas, e três outros equipamentos urbanos plantados na placa central: a pequena igreja de Santo Adalberto, a gótica Torre da Câmara e a estátua de Adam Mickiewicz.

O edifício do mercado dos tecidos e estes três elementos conferem várias dimensões confortáveis a uma praça gigante (1), fazendo as vezes de biombos abertos que criam ambientes diversos inseridos num espaço muito mais amplo.

Mas, se não se importarem, antes de detalhar as impressões mais fortes que esta praça deslumbrante me deixou tatuadas na memória, volto um pouco atrás.

Nós desembarcamos na Rynek Glowny, após uma manhã bem passada na colina de Wawel. O caminho foi curto, simples e agradável. 

A rua Grodzka, uma das mais antigas de Cracóvia (era parte da rota do sal que ia da Hungria até à Grande Polónia), liga directamente Wawel à praça, e é rica em palácios e igrejas.

Das igrejas, a que mais atenção nos chamou a atenção foi a jesuíta de São Pedro e de São Paulo, pois está circundada por estátuas dos doze apóstolos, da autoria de um discípulo de Bernini.

Navegar no centro de Cracóvia é muito fácil. Mal olhei para o mapa lembrei-me logo do Lampadinha, o inseparável companheiro do professor Pardal.

O núcleo central tem o formato de uma lâmpada, sendo que a colina de Wawel é a base, o ponto de contacto com a fonte de alimentação (3), e a Rynek o filamento de onde emana a luz.

Esta espécie de lâmpada foi desenhada pelas fortificações medievais, desmanteladas no século XIX (2), e que deram origem a um belo jardim (Planty), cheio de recantos encantadores, fontes, estátuas e bancos para descansar – uma bela sugestão para uma passeata de duas horas a seguir ao almoço.

(continua)   

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(1)  Um dos guias que consultei garante que a Rynek Glowny de Cracóvia é a segunda maior da Europa, mas não dispensa a informação sobre qual é a primeira. Pode ser. Mas nestas coisas acho indispensável fornecer termos de comparação. A informação de que a Cordoaria Nacional, em Lisboa, é o segundo edifício mais largo da Europa ganha muita credibilidade quando na frase a seguir se diz que o mais largo é o Louvre.

 

(2)  Apenas sobreviveu um pequeno trecho, junto à rua Florianska, junto ao Barbicã.

 

(3)  O Wisla é a fonte de alimentação, o que não é nada estúpido, dada a importância da energia hídrica

 

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