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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 20.11.08

A nossa triste fragilidade

Jorge Fiel

Interior de um barracão em Birkenau

 

Quando uma pessoa passa o cabo do meio século de vida, dá por si com um aparelho doméstico para medir a tensão arterial numa gaveta da cómoda, identifica-se com os conselhos do pai no diálogo de Father and Son, de Cat Stevens – e as Songs of Love and Hate, de Leonard Cohen, deixaram de ser hinos de combate e foram definitivamente arrumadas no baú das boas recordações.

A idade apara-nos as unhas, poupa-nos ao ódio, rouba-nos a paixão, torna-nos compreensivos e faz-nos voltar à fase dos porquês.

O ódio é um sentimento curto e primário para responder às manifestações da barbárie nazi com que ando há cerca de uma semana a maçar as preclaras e preclaros que teimam em frequentar esta Lavandaria.

O que vi e senti ao percorrer as ruas onde outrora foi o gueto judeu de Varsóvia, ao deambular em Kaziemierz (o bairro judeu de Cracóvia), e ao  demorar-me um dia entre os campos de Auschwitz e Birkenau despertou-me a necessidade de saber mais, para compreender como foi possível a Humanidade chegar tão baixo.

A leitura de Auschwitz: The Nazis & The Final Solution, de Laurence Rees, forneceu-me informações e levantou-me questões, novas e perturbantes, que me obrigaram a pensar, e tornaram ainda mais valiosa a viagem que fiz à Polónia na primeira quinzena de Setembro.

Laurence Rees é um jornalista da BBC que ao logo dos últimos 15 anos se dedicou à investigação dos nazis, e que numa corrida contra o relógio recolheu depoimentos de centenas de protagonistas – de ambos os lados da barricada – que tem sido a matéria prima de documentários televisivos.

Sei que se não tivesse ido a Auschwitz e a Birkenau não teria comprado o livro de Rees, por isso gostaria de muito sinteticamente partilhar algumas das coisas mais importantes convosco algumas das coisas mais importantes que aprendi com esta leitura.

A primeira grande lição que aprendi tem duas faces, uma apresentada por uma das vítimas e outra por um criminoso de guerra.

Toivi Blatt, sobrevivente de Sobibór (um dos mais terríveis campos de morte nazis) ouvido por Rees, diz o seguinte:

“As pessoas perguntam-me: ‘O que aprendeste?’ Eu penso que estou apenas seguro de uma coisa – ninguém se conhece a si próprio. A pessoa simpática que encontramos na rua e que, quando lhe perguntamos ‘Onde fica a rua do Norte?’ faz um desvio no seu caminho para nos levar lá, é muito amável e prestável. Essa mesma pessoa numa situação diferente pode tornar-se num sádico da pior espécie. Ninguém se conhece efectivamente a si próprio. Todos nós podemos ser uma boa ou uma má pessoa consoante as circunstâncias. Às quando conheço alguém realmente muito simpático, dou por mim a interrogar-me: ‘Como seria ele em Sobibór?’”.

Este parágrafo, longo mas muito sábio, lembra-nos a fragilidade e imprevisibilidade do comportamento humano e é uma das chaves para compreender como foi possível acontecer o que aconteceu.

Numa imagem muito feliz, Rees escreve que a água é líquida mas se submetida a violentas mudanças de temperatura se transforma em vapor ou em gelo – e que devemos esperar alterações radicais do comportamento humano em circunstância extremas.

A outra face desta verdade é uma frase recolhida por Laurence Rees quando pressionava um dedicado do partido Nazi a fornecer-lhe uma explicação para os horrores cometidos:

“O problema dos nossos dias é que pessoas que nunca foram submetidas a circunstâncias extremas andam por aí a fazer julgamentos sobre pessoas que viveram e tiveram de enfrentar essas circunstâncias”.

A segunda grande lição, ainda a estou a digerir, e parte de frases do testemunho final de Rudolf  Hoess, o comandante do campo de Auschwitz.

Hoess justifica as suas acções com uma explicação simplista, que tem um lado desonesto e outro perturbante. Alega que os Aliadso mataram mulheres e crianças com os seus bombardeamentos e que os nazis mataram mulheres e crianças nas câmaras de gás.

E vai mais longe: “As crianças que morreram nas nossas câmaras de gás sofreram menos do que as crianças que morreram nos incêndios provocados pelos vossos bombardeamentos de cidades alemãs”.

Esta comparação é repelente. A justificação nazi para o extermínio dos judeus era ideológica – e os assassinatos eram cometidos presencialmente e a sangue frio . Os bombardeamentos aliados das cidades alemãs (e o posterior uso da bomba atómica para obrigar a o Japão a render-se e acabar com a Guerra no Pacífico) eram actos de guerra que tinham como objectivo pôr o mais rapidamente fim à barbárie nazi (1).

A comparação de Hoess é repelente, mas dá que pensar. Tal como a mais perturbante das suas frases: “Morro não por causa dos meus crimes, mas porque perdemos a guerra; e morro como um homem incompreendido” (2).

 

(continua)

…………..

(1) Mas não deixam de ser questionáveis o uso de bombas de fósforo e o facto de um dos critérios na escolha de alvos ser a “capacidade de combustão” das cidades (quanto mais incendiáveis melhor).

 

(2)  A frase de Hoess lembra-me que Robert Harris, o autor do romance que estou a ler (Enigma) escreveu um magnífico exercício de ficção intitulado Pátria em que mostra como estaria a Europa se os nazis tivessem ganho a guerra.

 

Qua | 19.11.08

Em Birkenau, com o Exército de Israel

Jorge Fiel

 

Birkenau arrepia-nos a pele logo ao primeiro olhar. Auschwitz irradia uma estranha sensação de banalidade. Aqui o ambiente é realmente pesado.

A linha de caminho de ferro, que divide o campo em dois, ajuda ao dramatismo.

Não é preciso sermos daquelas pessoas com imaginação fértil para surgirem nas nossas cabeças as imagens de um comboio comprido a parar aqui a sua longa marcha, os guardas SS a abrirem os vagões de transporte de gado e começarem a desembarcar judeus, ciganos e comunistas, cambaleantes e desorientados, agarrados às suas malas.

Muitos dos sobreviventes de viagens longas de vários dias, feitas em condições infra-humanas, não chegam a passar a noite em Birkenau. Vão directamente para as câmaras de gás e alimentarão os crematórios (1), convenientemente localizados no final da cais da estação.

A esmagadora maioria dos turistas dá a sua visita ao Museu Estatal Auschwitz-Birkenau por terminada com a exposição no campo de Auschwitz. Fazem muito mal.

No campo de Birkenau, mandado construir por Himmler em 1941 e erguido por prisioneiros de guerra soviéticos, é que se experimenta a sensação de terror e morte - de que este lugar foi cenário há pouco mais de 60 anos.

Birkenau incomoda, mete medo e arrepia. Mas acho que ninguém no seu perfeito juízo tira um dia para ir ver campos de morte e não quer sentir-se incomodado, questionado e descoroçoado.

Em Auschwitz, só começamos a levar socos no estômago quando percorremos o interior dos barracões e vemos os despojos do milhão e meio de mortos – os cabelos, as malas, os óculos, os pincéis de barba, os enxovais e carrinhos de bebés, as próteses, os sapatos.

Aqui em Birkenau leva-se logo à chegada com uma paulada na cabeça e um pontapé nas costas.

Ao dramatismo da linha de caminho de ferro junta-se a vastidão do campo (175 hectares), que albergava em simultâneo 100 mil pessoas – mais do triplo da capacidade de Auschwitz (30 mil pessoas).

Depois há os 45 barracões de tijolo e 22 de madeira que sobreviveram ao pós guerra (2). Sente-se logo que são originais, um pedaço de história crua que se apresenta à nossa frente e não um cenário de filme.

Depois há os visitantes. Em Auschwitz era uma espécie de Babel, com grupos de turistas de variadas nacionalidades a percorrerem o campo. Em Birkenau, não só havia menos turistas, como, no dia em que lá estivemos, três em cada quatro eram israelitas – e não o escondiam.

Havia três grupos. Turistas de excursão, na sua maioria idosos. Grupos de jovens estudantes, na sua maioria enrolados em bandeiras de Israel, E soldados, mulheres e homens, todos fardados, dos mais variados ramos das Forças Armadas e de diferentes patentes. Eram centenas.

Durante a tarde, espalhados em grupos de dez ou vinte, recolhiam-se em orações dentro dos barracões, ouviam explicações ao ar livre, e faziam o percurso recomendado.

Às 18h00, a hora do encerramento do campo, juntaram-se todos, os turistas, os estudantes, os tropas, junto ao Monumento das Vítimas de Fascismo, que fica no final da linha férrea, de frente para a entrada.  Puseram velas nos carris do caminho de ferro. E reunidos num quadrado, cantaram canções tristes, ouviram discursos, evocaram a memória dos antepassados que aqui sofreram e morreram.

Acho que, no essencial, estavam ali para celebrar a sua vitória. Os nazis falharam. Não conseguiram exterminá-los.

 

(continua)  

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(1)  Na tentativa de apagarem as impressões digitais do vergonhoso Holocausto, os nazis tentaram destruir os crematórios, antes de abandonarem Birkenau – mas não o conseguiram totalmente.

 

(2)  Parte importante dos 300 barracões originais foram destruídos por polacos que procurava material para reconstruir as suas casas .

 

Ter | 18.11.08

Posição do missionário era a única autorizada

Jorge Fiel

Rudolf Hoess no cativeiro. O comandante de Auschwitz, responsável pela orquestra, o bordel - e a morte de um milhão e meio de pessoas-, sustentou até à morte que os nazis fizeram bem em exterminar os judeus

 

Não foi novidade para mim a existência de uma orquestra de presos que todos os dias actuava junto à cozinha, à passagem para o trabalho dos outros prisioneiros.

Esta tentativa macabra de Rudolf Hoess, o comandante de Auschwitz,  de imprimir alegria ao início de uma dura jornada de trabalho escravo  (1), rima com a máxima “Arbeit Macht Frei”, que encima o portão de entrada.

No Verão de 1943, os nazis sofisticaram a oferta de diversão no campo ao instalarem no campo de morte um improvável bordel, destinado a recompensar os presos que usavam como capatazes (kapos) ou para a execução das  tarefas mais sujas (sonderkommandos).

Soube da existência do bordel através da leitura de “Auschwitz: The Nazis & The Final Solution”, do jornalista britânico Laurence Rees (2), que recomendo vivamente a todos os interessados em tentar perceber como é que a Humanidade conseguiu descer tão baixo.

O funcionamento do bordel obedecia a regras muito rígidas.

À chegada, o cliente exibia o “voucher” e era examinado por um médico SS. Se fosse aprovado na inspecção, recebia um carimbo na mão e seguia para uma sala onde era sorteado o quarto e a vez.

Posto isto, ficava na sala de espera, aguardando pacientemente a sua vez de ser atendido. De 15 em 15 minutos, tocava uma campainha, sinalizando o fim de uma visita e início da seguinte.

Era estritamente proibido o cliente e prostituta trocarem palavras – apenas carícias e fluidos. Era proibido recorrer a outra posição que não a tradicional, do missionário.

A fiscalização da observação destas regras estava a cargo de soldados SS, que usufruíam de “peep shows” gratuitos e davam livre curso às suas pulsões voyeuristas ao vigiarem o que se passava no interior do quarto, através de um óculo aberto na porta.

(continua)

 

…………………………………….

(1) O conceito foi adoptado pelo Estado Novo, com a criação da FNAT-Federação Nacional para a Alegria no Trabalho.

 

(2) Há um mês, naquelas bancas de jornais junto aos Cais do Sodré que também vende livros usados, reparei que há uma tradução portuguesa deste livro (que em 2006 ganhou o prémio History Book of the Year), com exactamente a mesma capa e apêndice fotográfico.

 

Seg | 17.11.08

Peúgas de feltro para tripulação dos submarinos

Jorge Fiel

Cabelos amontoados de judeus mortos em Auschwitz

Para se pouparem ao desgaste psicológico do processamento dos mortos, os nazis entregaram essa tarefa mórbida a prisioneiros, que recompensavam com uma ração extra de comida, senhas para o bordel de Auschwitz ou outras pequenas regalias.

Eram judeus, apelidados sonderkommando (1),  que passavam em revista os corpos dos judeus acabados de morrer na câmara de gás decorada com chuveiros.

Extraiam-lhes os dentes de ouro (daí os dentistas terem uma boa hipótese de sobreviverem na triagem inicial, à chegada ao campo), que eram  posteriormente fundidos em barras.  

Despojavam-nos de anéis, pulseiras, brincos, e procuravam com detalhe todos os orifícios do corpo onde pudessem estar dissimuladas jóias ou dinheiro.

Cortavam-lhes o cabelo (dai os barbeiros terem uma boa hipótese de sobreviverem na triagem inicial, à chegada ao campo), posteriormente enviado para fábricas onde era usado como matéria prima para confeccionar, entre outras coisas, peúgas de feltro para a tripulação dos submarinos.

Depois, de processados os corpos, os sonderkommando transportavam-nos para os fornos - ou para as piras, no caso da capacidade instalada do crematório se estar a revelar insuficiente para queimar os judeus mortos na câmaras de gás. (2)

As cinzas do milhão e meio de judeus, ciganos, presos políticos, etc, foram espalhadas pelos lagos e rios dda região de Auschwitz.

Uma das coisas que mais impressiona na mecânica do processo de extermínio, posto em prática pelos nazis, é o seu carácter total e absoluto. Roubaram tudo aos judeus. Não só os bens e a vida, mas também a dignidade.

Auschwitz foi o único campo onde o número de registo dos prisioneiros lhe era tatuado na pele, peça importante de uma operação de despersonalização e bestialização, que inclui um código de cores nos triângulos cosidos nos uniformes:  amarelo ( judeus),  vermelho (políticos),  preto (ciganos e anti-sociais), roxo (Testemunhas de Jeová), rosa (homossexuais), verde (criminais).

A exposição de bens confiscados aos judeus - pares de sapatos, malas, próteses, roupas, óculos pincéis de baba, carrinhos e enxovais de bebé, enxovais – é outro dos socos que o visitante da exposição de Auschwitz leva no estômago.

No Bloco 11, o da Morte, as celas disciplinares subterrâneas provocam-nos arrepios na espinha, em partícular os quatro pequenos bunkers, com 90x90 centímetros cada, onde eram metidos prisioneiros a cumprir penas especiais.

  

 A entrada de um dos quatro bunkers da Cela 22 do Bloco 11

(continua)

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(1)  Chegaram a ser 900 os sonderkommando ao serviço nos quatro crematórios de Auschwitz.

 

(2)  Os sonderkommando também era usados para escoltar os deportados até às câmaras de gás, colaborando na mentira  nazi de que iam apenas tomar banho e serem desinfectados.

 

Dom | 16.11.08

Sete quilos de Zyklon B tinham de chegar para matar duas mil pessoas em 15 a 20 minutos

Jorge Fiel

Chegada a Auschwitz. Separação dos sexos feita, ia começar a triagem…

Um filme do Fantasporto mexe mais connosco do que a primeira percepção do ambiente geral de Museu Estatal de Auschwitz. Mas à medida que percorremos a exposição vamos levando socos no estômago - e ficando sem palavras.

Não há comentários a fazer quando vemos as sete toneladas de cabelo que os soldados do Exército Vermelho (1) encontraram armazenadas em sacos quando libertaram o campo a 27 de Janeiro de 1945 – e que os nazis, na pressa da fuga, deixaram ficar para trás.

O cabelo dos prisioneiros era mandado para fábricas do Reich, que o usavam como matéria prima para confeccionarem tecido de crina. O aproveitamento industrial do cabelo é apenas um detalhe de uma operação de liquidação montada com a fria eficiência alemã.

Há fotografias que documentam a triagem, o primeiro grande momento da tenebrosa operação montada pelos nazis com uma precisão cínica e desumana.

Logo à chegada ao campo, os prisioneiros eram separados por sexo (as crianças ficavam com as mães), e submetidos logo ali, ao ar livre, a um exame sumário, feito por um médico, que em poucos minutos decidia quem era imediatamente enviado para a morte e os que sobreviviam ao primeiro dia em Auschwitz.

O critério da triagem era essencialmente económico. Uma das receitas mais interessantes conseguidas por Rudolf Hoess, o comandante de Auschwitz, era obtida através do aluguer a fábricas da região da mão de obra dos prisioneiros.

Só eram poupados à morte imediata os deportados que eram fortes e saudáveis, ou revelavam ter formação específica numa especialidade (médicos, dentistas, barbeiros, etc) necessária ao bom funcionamento do campo. 

O protocolo para os destinados à morte era simples e eficiente. Primeiro tranquilizavam-nos, dispensando-lhes sorrisos e palavras simpáticas. Depois pediam-lhes para se despirem, pois iam tomar banho, antes de receberem o uniforme e serem conduzidos aos seus alojamentos.

Não se tratava de uma mentira piedosa. Se os prisioneiros desconfiassem de que iam ser gaseados, muito provavelmente resistiriam, obrigando ao uso de mais soldados e atrasando o processo.  Os nazis queriam matar com a máxima economia de esforços.

Tal como foi desenhado pelos nazis, o processo era rápido e eficiente. Não exigia o empenho de muitos recursos humanos pelos nazis. Os prisioneiros despiam-se voluntariamente e deixavam a roupa dobrada ao lado da mala.

Tudo estava meticulosamente calculado. O balneário enorme, com 210 metros quadrados de superfície, devia ser usado sempre na sua capacidade máxima – duas mil pessoas -  para não desperdiçar o gás Zyklon B, produto que enriqueceu os donos da fábrica alemã Degesch.

Sete quilos de Zyklon B chegavam para matar duas mil pessoas, que não deveriam demorar mais de 15 a 20 minutos a morrer.

 

Um médico nazi fardado examina sumariamente a fila masculina, para decidir quem sobrevive ao primeiro dia em Auschwitz e os que vão já para a câmara de gás

(continua)

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(1)  Práticos, como sempre, os russos trataram logo de reconverter os barracões de Auschwitz, em prisões do NKVD (a secreta soviética, antecessora do KGB)

 

Sab | 15.11.08

A estranha e perturbante sensação de banalidade

Jorge Fiel

Está lá tudo. A vedação de arame farpado, as torres de vigia, os avisos com o ícone universal da caveira e tíbias cruzadas – e, à entrada, o letreiro mentiroso  “Arbeit mach frei”(1).

É esquisito, mas apesar de estar no local onde a Humanidade, há pouco mais de 60 anos,  atingiu o seu ponto mais baixo, não fiquei arrepiado quando cheguei a Auschwitz.

As hordas de turistas adocicam o aspecto geral lúgrube. As pessoas fazem ordeiramente filas para comprar o bilhete para uma visita guiada, ou se aliviarem na casa de banho (a entrada no campo é gratuita mas tive de pagar um zloty para fazer o meu xixi) – não para se despirem antes de serem empurrados para uma falsa sala de desinfecção, onde os chuveiros não deitavam água, mas o gás mortal Zyklon B.

Os barracões de tijolo, que albergam as exposições e onde funcionam os serviços do Museu Estatal Auschwitz-Birkenau, não têm exactamente um ar acolhedor, mas também não metem medo.

Os blocos não são os originais, o que ajuda a desdramatizar. O ambiente geral está contaminado pelo ramerrão do dia e dia, transmitindo aos visitantes uma estranha e perturbante sensação de banalidade.

Em Auschwitz, coabitam dois tipos de exposições: as da responsabilidade de diferentes países (e a dos ciganos, um dos grupos mais perseguidos pelos nazis), que ocupam total ou parcialmente um dos barracões, e a da responsabilidade do museu, que percorre os blocos 4 e 7, saltando depois para o 11, o da morte.

O pátio entre os barracões 10 e 11 foi cercado por um muro alto e era usado para fuzilar os prisioneiros encostados ao paredão das execuções.

Além das exposições indoor, não pode deixar de se visitar a câmara de gás e crematório (2), que testemunham a tenebrosa função do campo, bem como Canadá, o barracão onde eram processados os bens roubados aos prisioneiros, que nos lembra a dimensão económica do Holocausto (3).

 

O paredão das execuções, no pátio entre os blocos 10 e 11

(continua)

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(1) Excepção feita a uma ínfima minoria de alienados, conhecidos como workaholics (ou seja pacientes que sofrem de uma perigosa variante do alcoolismo), toda a gente sabe que o trabalho pode viciar, mas não liberta nem tão pouco é saudável.

(2) O crematório e câmara de gás ficavam fora da vedação do campo, estrategicamente situados junto aos edifícios do Comando, Gestapo e do Hospital dos SS.

(3) Os historiadores convergem em considerar que o regime nazi organizou uma operação de expropriação aos judeus. Os soldados alemães apanhados a roubar em beneficio próprio eram fortemente penalizados.

 

Sex | 14.11.08

Destino Oswiecim

Jorge Fiel

 

É imperdoável estar em Cracóvia e não tirar um dia para ir ver o mais gigantesco cemitério da história do Mundo.

Os campos de morte de Auschwitz e Birkenau ficam a 75 quilómetros de distância, que podem ser vencidos em uma hora, hora e meia no máximo, conforme se usa viatura particular (um percurso misto com um bocado de auto-estrada até Katowice, completado com estradas secundárias), autocarro ou comboio.

A oferta de visitas guiadas a partir de Cracóvia é abundante mas eu não sou adepto de excursões e beneficiei do facto da Luísa nos ter emprestado o seu aparatoso SUV Toyota, equipado com GPS.

Nunca fui de andar em manada, seguindo um/a guia que sinaliza a sua presença com um guarda chuva ou bandeira, espetados em direcção ao céu, e trata as ovelhas do seu rebanho com aquele misto de condescendência e carinho característico das professoras primárias.

Nada me move contra os guias turísticos, em ambas as versões - livro ou com duas pernas. Antes pelo contrário.

Sou coleccionador compulsivo e furioso de guias turísticos (de papel, não em carne e osso). E até gostaria de ser cicerone profissional, actividade que exerço, sempre que posso, como amador, com evidentes e óbvios prejuízos para os pés, joelhos, músculos das pernas, rins e paciência dos meus companheiros de viagem.

Mas simplesmente não aguento estar ouvir o papaguear mecânico, debitado de uma forma completamente desprovida de emoção – palavras que são recitadas de cor, como se fossem lidas, e que soam a gastas (poídas, diria mesmo).

Depois há a questão do ritmo e do tempo. Gosto de escolher o tempo que me demoro em cada lugar.

Não me agradaria nada ver-me cerceado na liberdade de escolher ver a correr o lamentável pavilhão da exposição nacional de Itália em Auschwitz e perder despreocupadamente a noção do tempo ao ver os notáveis filmes de época da exposição húngara (1).

As visitas guiadas a Auschwitz são perfeitamente dispensáveis. Uma ida e volta de autocarro ou comboio,  a partir de Cracóvia, ficam bastante em conta (em números redondos, dez euros por pessoa devem chegar). E há um vaivém regular a fazer o percurso de três quilómetros entre Auschwitz e Birkenau.

Munido com o guia do Museu Estatal Auschwitz-Birkenau - que é barato (cinco zlotys, se a memória não me atraiçoa-a), pequeno  (26 páginas), tem mapas e há disponível em português – desembrulha-se na perfeição na visita aos dois campos.

Se for de carro e munido de GPS (ou seja à lorde, como eu!) há uma pequena precaução a tomar. A coisa não vai funcionar se teimar em introduzir Auschwitz como destino na maquineta.

Auschwitz não é reconhecido como tal pelos polacos.

Para viajar até ao local onde 1,5 milhões de pessoas (1/4 dos seis milhões vitimas do Holocausto)  foram barbaramente assassinados pelos nazis, o destino certo a inserir no GPS (ou a verificra no letreiro do autocarro ou estação de comboio) é Oswiecim – acrescentado de um acento grave no “s” e de uma cedilha no “e”, preciosismos que o meu teclado de computador não está à altura de concretizar.

Oswiecim é o nome primitivo da localidade polaca que os alemães rebaptizaram Auschwitz e onde, em 1940, instalaram um campo de concentração.

  

(continua)

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(1) Não deixa de ser curioso que o maior contingente nacional de vitimas de Auschwitz tenha sido o húngaro, um pouco à frente do polaco.  

 

 

 

 

Qui | 13.11.08

O Tratado de Tordesilhas na noite de Cracóvia

Jorge Fiel

Atendendo ao desenho peculiar do meu nariz e ao facto de Oliveira constar do meu nome, não é impossível que haja sangue judeu (1) a correr-me nas veias.

É possível. Apesar de estar habituado a trabalhar ao sábado, gosto muito do Larry (Calma, Larry! Take it easy!) e sou fábrica descoberta (2).

Apesar de não ser um mitra (3), acho que ninguém me pode acusar de ser um estroina, um “big spender”. Quando faço compras no supermercado dou-me ao trabalho de pôr os óculos de leitura para decifrar o preço por quilo dos produtos. E na hora de atirar o produto para o carrinho, podem crer que vai a marca de mostarda de Dijon mais barata ao quilo.

A possibilidade de eu ter uma costela judaica é aqui invocada a título preventivo.

Espero que os filhos de David não levem a mal qualquer coisinha mais melindrosa que eu possa escrever neste “post” que evoca um momento quase perfeito vivido por mim no bairro judeu de Cracóvia e que finaliza o capítulo das minhas aventuras em Kazimierz. Shalom!

Há mais de 500 anos,  que Kazimierz é habitado por judeus e, por isso, teve períodos melhores e outros piores. Dos cerca de 60 mil judeus que residiam em Cracóvia à data da invasão nazi, apenas três mil sobreviveram à II Guerra Mundial,  mais pela graça de Schindler do que de Deus propriamente dito, se me perdoam o ateísmo deste aparte.

O anti-semitismo endémico do regime pró-soviético instalado no pós guerra em Varsóvia não favoreceu a regeneração da comunidade judaica, cujo Outono demográfico foi compreensivelmente acentuado por um fluxo migratório para a Terra Prometida.

Kazimierz acompanhou o declínio da comunidade judaica de Cracóvia e em 1989, quando o comunismo se desintegrou, era um bairro perigoso, onde, conta quem sabe, apenas um turista desmiolado ousaria entrar.

Menos de 20 anos chegaram para mudar a face e alma de Kazimierz, que se transformou no bairro da moda, uma espécie de Marais (o antigo bairro judeu de Paris) à moda de Cracóvia, possuído por uma vibrante vida nocturna.

Há uma espécie de Tratado de Tordesilhas, não escrito, subjacente à noite de Cracóvia: os turistas de excursão vão para a Stare Miasto  (a cidade  velha, que tem como coração a belíssima Rynk Glówny) ; os indígenas e turistas iniciados passam-na em Kazimierz.

Além da pedra, dos cemitérios e das velhas sinagogas, o bairro judeu está cheio de lojas, bares e restaurantes frequentados por gente de aspecto plural que lhe conferem um ar cosmopolita e alternativo.

Foi na Plac Nowy, o centro de gravidade do bairro, que vivi um momento quase perfeito, instalado numa esplanada a deitar abaixo uma caneca de Zywiec (uma das marcas locais de cerveja), enquanto pastava o desmontar das bancas verdes que ocupam  a zona central da praça, que durante o dia vendem coisas tão variadas como sapatos de plástico, carne de cavalo, after shave (de marcas conhecidas mas origem duvidosa), e graves relógios de parede com a corda partida.

Enquanto testemunhava o cair da noite, veio-me à cabeça a ideia de que vir a Cracóvia e não ir a Kazimierz é a mesma coisa que ir a Roma e não descer a escadaria da Piazza di Spagna, desde a igreja de Trinitá dei Monti até à barroca Fontana della Barcacia, projectada pelo nosso preclaro amigo Gian Lorenzo Bernini (4)

Ora aqui temos a tabuleta do mais popular dos bares de Kazimierz

(continua)

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(1) Esperemos que com níveis aceitáveis de colesterol e triglicéridos.

 

(2)  Para os que não são familiares com esta terminologia popular, aqui fica o sinónimo: circuncidado.

 

(3) Estas notas de pé de “post” arriscam-se a tornar-se um dicionário de sinónimos. Mitra = pessoa extremamente poupada, mão fechada, agarrado, fonas, forreta.

 

(4) Não sei se já vos disse, mas essa de ir a Roma e não ver o papa está tão gasta que até já não aguenta mais remendos. Ainda se fosse no tempo do Totus Tuus, que era polaco e estudou em Cracóvia – agora  este é ainda mais reaccionário que o Wojtyla e ainda por cima é alemão.

 

Qua | 12.11.08

Posso afirmar ser falso que o Honoré de Balzac tenha dormido com a Eveline debaixo da Rosa

Jorge Fiel

 

Os ricos devem ter um pó imenso ao Honoré de Balzac  por ele ter cunhado uma frase fácil de decorar (um verdadeiro soundbyte) – “Por detrás de cada fortuna há um crime” – que, no mínimo, não lhes é simpática.

A beleza disto é a impotência dos oligarcas que se sentem difamados com esta sentença, frequentemente citada para os ofender, pois não podem accionar judicialmente o seu autor, que já está a fazer tijolo no Pére Lachaise há 158 anos e 85 dias, se a memória não me falha.

Além de ter dado esta ajuda involuntária ao florescimento e expansão do marxismo, o preclaro Honoré legou à humanidade o adjectivo balzaquiana, que originalmente serviu para qualificar de maduras as mulheres de trinta anos.

Desde o tempo de Balzac, o mundo já deu muitas voltas, a esperança de vida duplicou e apesar de entrarem em actividade cada vez mais novas (e sem correrem o risco de engravidarem por obra e graça da fantástica invenção da pílula), as raparigas amadurecem cada vez mais tarde.

Nos dias de hoje, aos 30 anos as raparigas agem ainda como adolescentes com pedacinhos de placenta ainda agarrados à cara. Só por volta dos quarentas se transformam em mulheres, dignas de serem consideradas balzaquianas, com tudo quanto o termo encerra em experiência, sabedoria e maturidade.

Mas ao contrário de Chopin, o Balzac era francês e não polaco (1) , pelo que só foi aqui chamado por ter sido protagonista involuntário do meu quarto encontro com a História ocorrido durante a minha estadia em Cracóvia.

A ocorrência deu-se na Florianska, uma rua altamente recomendável e movimentada, que liga a Rynek Glówny à porta  de S. Floriano, um dos raros vestígios sobreviventes da muralha medieval em forma de lâmpada que protegia a cidade.

O número 14 da ulica Florianska pede uma paragem, já que se trata do mais antigo e prestigiado hotel de Cracóvia, o Pod Roza (2), onde ressonou gente tão ilustre como o czar Alexandre II e o Franz Liszt.

A passagem pelo Pod Roza deste pessoal é recordada por lápides onde são referenciados outros nomes, além do czar e do compositor, como, por exemplo, Mohamed Riza, um sujeito que nunca me tinha sido apresentado mas que fiquei a ser se notabilizou por ter sido o enviado persa do Napoleão.

Uma placa reclama o Honoré de Balzac como parte integrante da lista de hóspedes ilustres do Pod Roza, mas historiadores rigorosos já tiraram a fonte limpa ser falso que o romancista francês se tenha abandonado nos barcos de Morfeu (e da sua Eveline) no famoso hotel da Florianska.

Na origem deste lamentável equívoco está o facto da placa - gravada para lembrar às gerações vindouras a passagem do autor da Comédia Humana por este hotel – ter sido entregue por engano no Pod Roza e não no veraddeiro destino, o Pod Biala Roza.

Eu sei perfeitamente que enganos destes estão sempre a acontecer. Há coisa de cinco anos, esperei, debalde, três dias que a Ikea me entregasse a mobília no meu apartamento em S. João do Estoril. Quando protestei fiquei a saber que o sofá, cadeiras, mesa de jantar (e por aí adiante) tinham sido desembarcados por engano num apartamento em Massamá.

Mas isso é outra história, que não vem ao caso. O que interessa aqui é o registo do meu quarto encontro com a História em Cracóvia – e, revela “urbi et orbi” ao Mundo que é falso que o Balzac dormiu com a Eveline debaixo da Rosa.

Eveline e Honoré: os noivos vistos pelo pintor Boulanger

(continua)   

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(1)  Mas teve uma mulher polaca, com quem se casou aos 50 anos, cerca de um ano antes do seu passamento.  O objecto da paixão de Honoré era Eveline Hanska, uma rica dama polaca, com quem manteve activa correspondência sentimental durante 15 anos.

 

(2)  Traduzido literalmente, Pod Roza quer dizer debaixo da Rosa. Sobre esta posição, que reputo de interessante, já tive oportunidade de me pronunciar favoravelmente. Já quanto à Rosa não sei de que Rosa em concreto estão a falar pelo que acho preferível, neste particular, guardar de Conrado o prudente silêncio.

 

Ter | 11.11.08

Quem dá aos pobres empresta a Deus

Jorge Fiel

 

Por falar no bom do Schindler, sinto-me na obrigação de esclarecer que os meus encontros com a História em Cracóvia não se circunscreveram ao bairro judeu.

Fora do perímetro de Kazimierz tive dois outros encontros com a História que acho oportuno mencionar.

Na Straszewskiego (1), mirei demoradamente, a partir do outro lado da rua, o andar do número 7 outrora habitado pelo preclaro Oskar Schindler, um nativo de Svitavy, na Morávia (pelo que tanto pode ser considerado checo como alemão) que na sua juventude granjeou muito justamente a fama de playboy por levar uma vida dissoluta, entregue aos vícios do álcool e das mulheres. (2)  

Oskar desembarcou em Cracóvia em 1939, na peugada do invasor nazi, e cedo tratou de tirar proveito pessoal do facto de estar do lado do conquistador.

Tomou conta de uma fábrica de esmalte, expropriada a um judeu. E a razão pela qual empregava maioritariamente judeus não era humanitária -  os operários que usavam uma estrela amarela de David cozida na roupa ficavam muito mais baratos.

O espírito ganancioso evidenciado nesta preocupação extrema com a contenção dos custos de produção (característica que um judeu naturalmente apreciaria)  acabou  por dar lugar a um comportamento solidário e generoso.

O clique deu-se quando Oskar foi testemunha ocular do esvaziamento do gueto de Podgórze, acto que agiu na sua cabeça como a leitura da “Mãe” do Gorki na minha. Passou-se para a oposição e jurou a si mesmo fazer tudo quanto estivesse ao seu alcance para frustrar os planos dos nazis para exterminar os judeus de Cracóvia.

Espiolhar a vida de Schindler está ao alcance de todas preclaras e preclaros que achem justificado investir seis dólares na encomenda pela Amazon de uma cópia, usada e em “paperback “, do livro que serviu de base ao filme de Spielberg : “Schindlers Ark”, de Thomas Keneally.

Para o caso em análise -  o meu encontro com a história na Straszewskiego (3) - o que interessa é que nunca é tarde demais para uma pessoa se endireitar e que  o homem se redimiu dos pecadilhos da juventude e deu uma nova dimensão ao dito de quem dá aos pobres empresta a Deus.

Schindler gastou quatro milhões de marcos a evitar que os seus trabalhadores judeus fossem mandados para a morte em Auschwitz – e a sua patroa teve de vender as jóias para fazer face às despesas na farmácia e mercearia.

No final da guerra, o casal Schindler mudou-se para Argentina, onde viveram da terra, como agricultores, até que abriram falência  - mais ou menos pela altura em que foi tirada a minha fotografia em nu integral (mas não frontal) que é uma das imagens de marca desta lavandaria.

Oskar regressou então à Alemanha onde os seus compatriotas lhe reservaram uma recepção gélida, condenando-o a viver da caridade dos judeus que tinha salvo durante a guerra, até à conclusão dos seus dias, no ano do 25 de Abril, altura em que foi enterrado como um herói em Jerusalém.

 

(continua)

 

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(1)  Rua que fica a uma curta distância do Ibis Centrum Kraków que tão generosamente me acolheu no seu seio.

 

(2) Vícios perfeitamente compreensíveis. Assim como assim, há que assinalar que o jovem Oskar logrou escapar ao pleno, pois ao que consta não se meteu no jogo nem na droga, que à época não estava tão em voga como agora. Ou seja fez, como playboy fez a linha – não bingo.

 

(3)   Acima de tudo, e por favor, não tentem pronunciar alto e em público o nome desta rua, sem primeiro treinarem sozinhos e em frente ao espelho, no recato e intimidade do lar, durante um par de dias.