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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sab | 09.12.06

A morte de Floque de Neu e uma história de Huizinga

Jorge Fiel

 

Estou desde quinta feira em Barcelona, já completamente recuperado do impacto da notícia da morte do Floque de Neu, o gorila albino que era a vedeta do Zoo e por quem eu me interessei, criando mesmo alguma afeição, durante a minha última visita à cidade em 1992, um pouco antes dos Jogos Olímpicos.

 

Floque de Neu (Copito de Nieve era a horrorosa versão castelhana do seu nome) era único. Não se conhecia em todo o Mundo a existência de qualquer outro gorila albino. E apesar do cativeiro, aparentava viver feliz, na companhia de três gorilas fêmeas - não era monogâmico, como é bom de ver...

 

A morte do gorila ocorreu há cerca de dois anos. Não é «breaking news». Mas o choque para mim foi agora, no momento em que soube do seu infausto passamento.

 

Sempre foi assim. Huizinga, em «Declinio da Idade Média», obra de mesinha de cabeceira para qualquer medievalista que se preze (o que não é obviamente o meu caso) conta-nos, a propósito, um caso exemplar.

 

Um belo dia, um rico senhor feudal passeava a cavalo pelos seus domínios qaundo foi surpreendido pela chegada de um mensageiro esbaforido, que lhe anunciou a morte do seu melhor amigo.

 

A dor do nobre foi tão profunda e lancinante que ele não descansou enquanto não fez desaparecer da face da Terra tudo quanto lhe lembrasse a hora em que tomou conhecimento da morte do amigo. 

 

Matou o mensageiro que lhe deu a má nova e o cavalo em que ele montava. Mandou pegar fogo ao bosque por onde passeava e encarregou-se pessoalmente de reduzir a cinzas a roupa que vestia naquele horrível momento.

 

Se nos colocarmos do ponto de vista da racionalidade, este procedimento foi bárbaro. Muito provavelmente no momento em que o seu amigo foi desta para melhor, o senhor feudal divertia-se à grande no seu castelo, com a grande lareira acesa em labaredas, enquanto ele se embebedava com hidromel, mergulhava os dedos gordurosos nos seios fartos de suculentas esposas ou filhas de servos da gleba, e aplicava pontapés no rabo de anões bobos.

 

Apesar de bárbaro e irracional, este procedimento é recorrente. O que conta não é quando as coisas acontecem realmente mas antes o momento em que tomamos conhecimento do acontecimento.

 

Esta deliciosa história e Huizinga explica também um comportamento muito corrente nos nossos tempos que consiste em confundir a mensagem com o mensageiro.

 

Amanhã à noite, voo de regresso do levante até ao extremo mais ocidental da Península. Prometo nessa altura comentar os comentários em atraso.

 

Seria caro demais fazê-lo a partir de Barcelona, pois os 29,90 euros que pago por mês pela placa de Vodafone só cobrem os usos da net feitos em território nacional. E os custos de «roaming» podem ser exorbitantes.

 

Na Primavera, paguei mais de 500 euros em «roaming» como consequência de abusos cometidos durante uma viagem de dez dias aos States.

 

Qui | 07.12.06

Eu, o Winston, o champanhe e a Lux

Jorge Fiel


 

 

 

 

O Churchill viveu o tempo suficiente para nos deixar duas máximas acertadas sobre praticamente todos os assuntos, menos os blogues - o que se explica por ele ter morrido bastante antes de terem inventado a Internet.

 

A propósito do champanhe, cunhou uma frase óptima: «I cannot live without champagne: in victory I deserve it and in defeat I need it».

 

Partilho a sabedoria do velho pândego e bebedolas. Também gosto muito de champanhe. O meu favorito é o Moet et Chandon Brut Imerial Rosé. Mas como sou teso (de dinheiro), refugio-me no espumante nacional. Sempre bruto.

 

Os melhores são, na minha opinião, o Vértice e o Murganheira, mas como esses andam na casa dos dez euros e por isso tenho consumido o Baga do Luís Pato, o Quinta do Encontro, o A. Henriques (será Afonso Henriques?) – todos  da Bairrada – e o Quinra de Cabriz, do Dão. Acho que todos eles são honestos, mesmo bons,  e, como agravante, andam na ordem dos cinco euros por botelha.

 

Para acompanhar comida - um pedaço de carne assada, por exemplo - a ligeira acidez do Murganheira interage melhor do que o Vértice.

 

Mas para saborear como aperitivo, o Vértice com a sua cor magnifica (onde com atenção se detecta uma pálida presença das uvas tintas que lhe dão origem)  é pura e simplesmente imbatível. O preço a que surge nas prateleiras dos supermercados e das lojas da especialidade, quase sempre a roçar a casa dos dez euros, é a única contraindicação.

 

Vem isto a propósito de ontem ter deparado no quiosque do 3º andar do Arrábida Shopping com uma promoção da Lux que vende uma garrafa de Vértice ao preço (sexy) de 5.80. Comprei logo e tive pena de só haver uma.

 

Aconselho todos os meus amigos a fazerem o mesmo, se tal pechincha lhes aparecer pela frente. E não têm de comprar a Lux que se abastardou  muito desde a saída do Carlos Pissarra. Quem avisa bom amigo é.

 

Qua | 06.12.06

Cinco reparos críticos à colecção de cromos da Panini

Jorge Fiel

 

A colecção oficial de cromos da Superliga 2006/07 da Panini (prometo que ainda vou averiguar o que ele têm a ver com os das sanduiches homónimas), que eu e o meu filho João (seis anos) estamos prestes a completa  merece-me os seguintes cinco reparos críticos:

 

1. Os da Panini foram imprevidentes. Após uma gigantesca operação de lançamento da colecção estiveram várias semanas sem capacidade para reabastecer os quiosques com saquetas de cromos.

 

A abrir, distribuiram gratuitamente a caderneta e uma pequena amostra de cromos (onde constavam o Jardel e o Quaresma) encartados com os diários da Global Noticias (DN, JN, 24 Horas e Jogo). Ou seja, assim por alto, inundaram o mercado com umas 300 mil cadernetas de borla (ou, se preferirem, grátis).

 

Milhares de pais incautos, como eu, chegaram a casa e resolveram fazer um brilharete gratuito, dando a caderneta aos filhos. Um acto claramente impensado. Logo a seguir, as crianças moíam-nos o juízo reivindicando mais cromos para preencher 383 espaços vazios.

 

Os pais precipitaram-se para os postos de venda e esgotaram num ápice o stock disponível, que a Panini foi lenta demais a repor, denunciando assim não estar à espera do sucesso alcançado.

 

Foram semanas a fio a correr debalde para os quiosques e a chegar ao fim do dia a casa a confessar ao João a minha impotência - os cromos ainda estavam esgotados. Como ele começou a desconfiar que eu o estava enganar, passei a levá-lo na minha peregrinação pelos quiosques.

 

2. Retomado o abastecimento regular, verifiquei a existência de algumas novidades armadilhadas, a primeira das quais consiste no facto de terem adicionado três novos capitulos (Idolos, Top Reforços e Últimas Aquisições), às habituais secções.

 

A colecção deste ano compreende um plano de duas páginas para cada clube, onde cabem o emblema, fotografia geral da equipa e individual de 18 jogadores, num total de 20 cromos, enriquecida com o palmarés do clube e detalhadas informações objectivas e subjectivas sobre cada  futebolista.

 

Ficamos, por exemplo a saber, que o Vítor Manuel, do Desportivo das Aves, tem como nome completo Vítor Manuel de Sousa Ferreira, que é natural de Santo Tirso, mede 1m76, pesa 72 quilos e que «aos 35 anos apresenta uma frescura física reluzente e confere segurança ao meio campo» (a frase é bonita, mas enganaram-se na idade. O Vítor Manuel já tem 36, pois nasceu a 9 de Setembro de 1970)

 

3. A secção Ídolos é povoada por 16 jogadores, que já temos nos respectivos clubes, o que configura a primeira pequena roubalheira.

 

Por exemplo, nas páginas do FC Porto temos o Quaresma numa fotografia normal, de meio corpo, a olhar para a máquina fotográfica. Aqui, nos  Ídolos, voltamos a ter o Quaresma, mas a corpo inteiro, com bola nos pés, num cromo brilhante. Os textos são diferentes, mas ambos muito bons. O Quaresma «normal» faz «centros de trivela para o sítio onde mais dói às defesas, e dribles arrebatadores». O Quaresma «ídolo» «com uma finta parte o coração dos defesas, baila diante deles mais uns segundos e cruza com esmero».

 

4. A seguir à secção Ídolos vem a de Top Reforços (mais 16 cromos) e a das Últimas Aquisições (mais 36 cromos), ambas bastante mais pobres que as anteriores já que desprovidas dos textos deliciosos e das informações preciosas sobre os jogadores.

 

Esta última secção é um pouco rançosa, já que, por exemplo, o Vieirinha e o Hélder Postiga são apresentados como «últimas aquisições», o que, no mínimo, é discutível.

 

5. A cereja em cima deste bolo de abusos chama-se Substituição. Está convencido de que há apenas um cromo certo por buraco? Está enganado.

 

Há, por exemplo, o 233 e o 233bis, para o mesmo buraco. Dois cromos diferentes. Escolhe você qual quer colar.

 

O meu filho chama a estes «malucos» a estes cromos bis, piratas, ou de «substituição», como diz a Panini. Nós usamo-los. Como nunca nos saiu o Bosingwa, completamos as páginas do FCPorto colando o Lisandro (cromo de substituição) no lugar do defesa direito.

 

Agora que nos faltam apenas 27 cromos para acabar, sinto-me eu próprio um cromo. E acho que a Deco (não o Deco) se devia pronunciar sobre as novas armadilhas inventadas pela Panini.

http://expresso.clix.pt/COMUNIDADE/blogs/roupa_para_lavar/archive/2006/12/06/19302.aspx

 

Cinco reparos críticos à colecção de cromos da Panini

 

A colecção oficial de cromos da Superliga 2006/07 da Panini (prometo que ainda vou averiguar o que ele têm a ver com os das sanduiches homónimas), que eu e o meu filho João (seis anos) estamos prestes a completa  merece-me os seguintes cinco reparos críticos:

 

1. Os da Panini foram imprevidentes . Após uma gigantesca operação de lançamento da colecção estiveram várias semanas sem capacidade para reabastecer os quiosques com saquetas de cromos. A abrir,distruibuiram gratuitamente a caderneta e uma pequena amostra de cromos (onde constavam o Jardel e o Quaresma) encartados com os diários da Global Noticias (DN, JN, 24 Horas e Jogo). Ou seja, assim por alto, inundaram o mercado com umas 300 mil cadernetas de borla (ou, se preferirem, grátis). Milhares de pais incautos, como eu, chegaram a casa e resolveram fazer um brilharete gratuito, dando a caderneta aos filhos.  Um acto claramente impensado. Logo a seguir, as crianças moíam-nos o juízo reivindicando mais cromos para preencher 383 espaços vazios. Os pais precipitaram-se para os postos de venda e esgotaram num ápice o stock disponível, que a Panini foi lenta demais a repor, denunciando assim não estar à espera do sucesso alcançado. Foram semanas a fio a correr debalde para os quiosques e a chegar ao fim do dia a casa a confessar ao João a minha impotência - os cromos ainda estavam esgotados. Como ele começou a desconfiar que eu o estava enganar, passei a levá-lo na minha peregrinação pelos quiosques.

 

2. Retomado o abastecimento regular,  verifiquei a existência de algumas novidades armadilhadas, a primeira das quais consiste no facto de terem adicionado três novos capitulos (Idolos, Top Reforços e Últimas Aquisições), às habituais secções. A colecção deste ano compreende um plano de duas páginas para cada clube, onde cabem o emblema, fotografia geral da equipa e individual de 18 jogadores, num total de 20 cromos, enriquecida com o palmarés do clube e detalhadas informações objectivas e subjectivas sobre cada  futebolista. Ficamos, por exemplo a saber, que o Vítor Manuel, do Desportivo das Aves, tem como nome completo Vítor Manuel de Sousa Ferreira, que é natural de Santo Tirso, mede 1m76, pesa 72 quilos e que «aos 35 anos apresenta uma frescura física reluzente e cobfere segurança ao meio campo» (a frase é bonita, mas enganaram-se na idade. O Vítor Manuel já tem 36, pois nasceu a 9 de Setembro de 1970)

 

3. A secção Ídolos é povoada por 16 jogadores, que já temos nos respectivos clubes, o que configura a primeira pequena roubalheira. Por exemplo, nas páginas do FC Porto temos o Quaremsa numa fotografia normal, de meio corpo, a olhar para a máquina fotográfica. Aqui, nos  Ídolos, voltamos a ter o Quaresma, mas a corpo inteiro, com bola nos pés, num cromo brilhante. Os textos são diferentes, mas ambos muito bons. O Quaresma «normal» faz «centros de trivela para o sítio onde mais dói às defesas, e dribles arrebatadores». O Quaresma «ídolo» «com uma finta parte o coração dos defesas, baila diante deles mais uns segundos e cruza com esmero».

 

4. A seguir à secção Ídolos vem a de Top Reforços (mais 16 cromos) e a das Últimas Aquisições (mais 36 cromos), ambas bastante mais pobres que as anteriores já que desprovidas dos textos deliciosos e das informações preciosas sobre os jogadores. Esta última secção é um pouco rançosa, já que, por exemplo, o Vieirinha e o Hélder Postiga são apresentados como «últimas aquisições», o que, no mínimo, é discutível.

 

5. A cereja em cima deste bolo de abusos chama-se Substituição. Está convencido de que há apenas um cromo certo por buraco? Está enganado. Há, por exemplo, o 233 e o 233bis, para o mesmo buraco. Dois cromos diferentes. Escolhe você qual quer colar. O meu filho chama a estes «malucos» a estes cromos bis, piratas, ou de «substituição», como diz a Panini. Nós usamo-los. Como nunca nos saiu o Bosingwa, completamos as páginas do FCPorto colando o Lisandro (cromo de substituição) no lugar do defesa direito.

 

Agora que nos faltam apenas 27 cromos para acabar, sinto-me eu próprio um cromo. E acho que a Deco (não o Deco) se devia pronunciar sobre as novas armadilhas inventadas pela Panini.

Seg | 04.12.06

Um teste inesperado ao papel higiénico preto da Renova

Jorge Fiel

 

Uma ruptura no stock doméstico de papel higiénico obrigou-me a abrir um «pack» de três rolos do preto, da Renova, que por graçola comprei no Verão passado, no supermercado Sá do Campo Pequieno, e que de então permanecera guardado no armário do quarto do meu filho João.

 

Por norma abasteço-me de papel higiénico no Lidl ou no Pingo Doce, onde o de folha dupla, branco e de marca branca, se tem revelado mais do que satisfatório e adequado às necessidades.  

 

Esteticamente, o papel higiénico preto da Renova e inatacável. Confere um toque de classe a qualquer casa de banho. Fica bem em qualquer lado, até tendo como fundo os azulejos amarelo limão da minha casa de banho.

 

Em resumo, plasticamente falando, o preto da Renova é cinco estrelas. Agrada obviamente aos olhos.

 

Já no que concerne ao desempenho propriamente dito, deixa um pouco a desejar. É macio e resistente, cumprindo assim dois dos três requisitos básicos. Mas falha no terceiro, já que atendendo à sua cor não é claro o momento em que já não é necessário insistir porque a operação de limpeza está concluída.

 

Dito por outras palavras, o papel higiénico preto da Renova agrada aos olhos, em geral, e a olho em particular, mas confunde o olhar. 

 

Sex | 01.12.06

Reflexão sobre o tubarão em decomposição de Damien Hirst

Jorge Fiel

  

Os tubarões catapultaram duas pessoas para a fama. O realizador norte-americano Steven Spielberg e o artista plástico inglês Damien Hirst.

 

Há 14 anos, Damien importou um cadáver de tubarão tigre da Austrália, acomodou-o num tanque cheio com uma solução de formol e baptizou com um nome «sexy» este pesado (22 toneladas) conjunto: «The Phsysical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living».

 

O publicitário e coleccionador Charles Saatchi apreciou a ideia  e pagou 50 mil libras pelo tubarão-morto-num-caixão, que rapidamente se transformou na estrela da Saatchi Gallery, o mais supreendente museu londrino.

 

Saatchi não escapou ao gozo dos tablóides. O Sun dedicou uma página ao negócio, encabeçada por um título bem humorado: «50.000 for fish without chips». Mas o publicitário foi o último a rir. Bastou-lhe por a circular o rumor de que estava disposto a vender o tubarão (que, no entretanto, começara a apodrecer...) para logo surgir uma magnífica oferta.

 

Steven Cohen, um jovem americano excêntrico de Connecticut que fez fortuna na bolsa, ofereceu-lhe oito milhões de dólares pela obra e tornou-se assim o feliz proprietário de «The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living», ou, se quiserem, e mais singelamente, do tubarão mal embalsamado de Hirst, que logo se prontificou a resolver o problema.

 

Com o acordo de Cohen, o novo proprietário da obra que o tornou famoso, Damien Hirst, 41 anos, iniciou uma operação de substituição do tubarão que se estava a desfazer por um novo tubarão tigre, também com quatro metros, também com importado da Austrália, uma fêmea com 25/30 anos (a meia idade dos tubarões).

 

A operação de substituição do tubarão está orçada em 100 mil libras (pagas por Cohen) e está a ser levada a cabo num antigo hangar abandonado, em Gloucestershire, usado pela RF durante a II Guerra Mundial, por uma equipa de seis pessoas liderada por Hirst, que deu 200 anos de garantia pela incorruptibilidade do novo tubarão.

 

Esta substituição levanta quanto a mim um problema sério. O novo tubarão, que Chen planeia doar ao MoMa, não passa de uma réplica da obra de arte original. Claro que se trata de uma réplica feita pelo mesmo artista, mas não passa de uma cópia. Não se trata de uma obra de arte original. 

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