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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qua | 26.12.07

O futuro próximo está a parasitar-me o presente

Jorge Fiel

 

Sinto que estou a ficar velho. E o termómetro não é o Bilhete de Identidade. O meu, por sinal, caducou dia 18. Vou ter de ir á Loja do Cidadão para o renovar. Talvez me emitam um vitalício (ou pelo menos quase vitalício) com um formato que caiba nas carteiras normalizadas.

 

É uma porra. Uma grande porra . Está tudo normalizado por Bruxelas menos o formato do BI português, XXL, enorme, que sai fora das carteiras e com o uso fica danificado nas pontas. Até parece que o andamos a roer com os dentes.

 

Mas não é do BI que vos quero falar, mas sim dos alarmantes sinais do meu irremediável envelhecimento.

 

Acho que o momento de viragem foi o dia em que decidi nunca mais estacionar o carro de frente, mas sim em marcha atrás, de modo a ficar prontinho a sair.

 

Este é um sinal inequívoco de que o meu futuro próximo começou a parasitar o meu presente.

 

Estacionar o carro de cu significa sacrificar o presente no altar do futuro próximo

 

Opero agora uma manobra complicada – ir à frente, primeiro, e depois executar a marcha atrás devagar e com especial atenção aos espelhos retrovisores – para desafogar o futuro.

 

Quando voltar é uma limpeza. É só baixar o travão de mão, embraiar, meter a primeira e ala que se faz tarde!

 

A prudência e bom senso da decisão de estacionar de cu tresanda a velhice. Grita que deixamos de viver como se não houvesse amanhã. O passo seguinte na escala da geriatria consiste em fazer um PPR

 

Tenho estado atento a mim próprio e fico alarmado com a quantidade de sinais de envelhecimento que detecto.

 

Quando alguns meus amigos e beneméritos me convidam para os seus camarotes no Dragão, dou por mim a pensar na enorme chatice que é o regresso do futebol, a espera para entrar numa carruagem de metro superlotada ou os engarrafamentos no trânsito se optar por ir de carro.

 

Quando me desafiam para uma jantarada, dou por mim a pensar se não é melhor inventar uma desculpa para não ir, porque se for é certo e sabido que como e bebo demais -  e por isso vou dormir mal e acordar zangado com o Mundo.

 

E quando entro numa livraria e me sinto tentado a comprar um livro, na maioria das vezes resisto à tentação, cedendo ao argumento interior que muito provavelmente já não vou ter tempo para consumir todos os livros interessantes que me enchem as estantes de casa e que ainda não conseguir ler.

 

É uma grande chatice sentir que o futuro próximo está a parasitar-nos o presente - e vivermos obcecados pelo amanhã.

 

Estou completamente horrorizado com a ditadura do amanhã que passou a governar-me com uma mão de ferro!

 

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