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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Sex | 18.09.09

De como a invenção da Nespresso tem o efeito pernicioso de nos manter enjaulados em casa

Jorge Fiel

O desembarque nas nossas casas das bonitas máquinas de café Nespresso representou mais um passo de gigante no irreversível caminho de privatização das nossas vidas.

Em vez de irmos ao cinema, ficamos no sofá a ver os filmes no DVD. Em vez de irmos jantar fora, convidamos os amigos para jantarem lá em casa. E o Nespresso acabou com o último dos pequenos luxos em que a rua era competitiva: o café.

Sempre existiram aparelhos domésticos de fabricar café, mas o produto final, o vulgo café de saco, não era competitivo, do ponto de vista estético, com aquela chávena de cimbalino (ou a bica, escolham por favor a designação mais adequada ao lugar onde estiverem a ler este pequena diversão) coberta por bonita camada de espuma tão espessa que o açúcar até se demora a afundar-se.

O café Nespresso tem um aspecto absolutamente irrepreensível, capaz de ombrear com os saídos das máquinas profissionais de café, se bem que a sua qualidade, segundo os especialistas, está aquém do produzido pelas boas e velhas máquinas de balão - ou até de alumínio.

Os verdadeiros apreciadores de café (e eu tenho um par deles no meu circulo de relações), dizem que o paladar do Nespresso está para o bom café feito por uma máquina profissional (La Cimbali e respectiva descendência) como o som do CD para o de um gira discos.

Na média, o som do CD e o paladar do Nespresso são aceitáveis e merecedores de uma nota no intervalo entre o dez e o 13, numa escala de zero a 20.

A bica (ou, se preferirem, o cimbalino) servida no café e o vinil lido por uma agulha são susceptíveis de serem muito melhores ou muito piores - de mergulharem nas profundezas das negativas ou de arranharem o céu do 20.

Eu, que sou um leigo em todas as matérias, fico moderadamente satisfeito com o café Nespresso. Uma pessoa também bebe com os olhos e o aspecto final é bastante satisfatório.

Há coisa de três anos, adquiri, por 179,99 euros, uma máquina Nespresso Krups XN2100 (ver foto em baixo), que nunca me deixou ficar mal e é um belíssimo objecto de design, que está acantonada na cozinha mas podia estar perfeitamente exposta na sala. 

Tenho queixas. Não me parece que a bebida atinja nunca a temperatura ideal e, apesar do caleidoscópio de cores das cápsulas ser bastante atraente à vista, o meu palato não é suficientemente culto para apreciar os cambiantes de sabores da gorda oferta.

Tenho a certeza que, numa prova cega, não conseguiria identificar um único dos 16 grand crus (usando a sofisticada terminologia da marca), se bem que tenha um formato predefinido – quando questionado, escolho o Ristretto porque me dizem que é o mais forte e simpatizei, logo à primeira vista, com a descrição detalhada que a marca faz das características deste lote (1).

O preço de 32 cêntimos da cápsula Nespresso (37 no caso dos novos cafés, com denominação de origem Índia, Brasil e Colômbia) é aceitável, o que, acrescentando a amortização da máquina e do serviço de café, bem como os gastos em água e electricidade, coloca o produto final aquém dos 40 cêntimos, ou seja bastante concorrencial com o dos cafés, que raramente levam abaixo de 60 cêntimos a chávena.

As máquinas Nespresos têm a enorme vantagem de serem muito simples de operar e de limpar, o que compensará, o impacto ambiental das cápsulas usadas, pelo menos ao olhar das mentes menos engagé do ponto de vista ambiental (mas a Nestlé está com má consciência e na Suíça já começou a montar uma operação de recolha das cápsulas para posterior reciclagem)

Resumindo e baralhando.  A invenção da Nespresso garante um café para uso doméstico correcto, embora morno e de unhas aparadas,  mas pode ter consequências perniciosas do ponto de vista ambiental e social, ao conspirar no sentido de nos manter enjaulados em casa, em vez de sairmos à rua depois do jantar, para ir tomar café.

(1)            A bula do Ristretto garante que ele combina os melhores Arábicas sul-americanos (Brasil e Colômbia) com Arábicas do Leste de África, ligeiramente ácidos, acrescentando que “a torrefacção lenta e separada dos grãos permite obter uma mistura contrastada, associando ao mesmo tempo, subtis notas intensamente torradas e a cacau". Eu não consigo detectar nada disso, mas admito que seja verdade e faço a justiça de considerar que o assunto escrito com algum romantismo.

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