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Lavandaria

por Jorge Fiel

Lavandaria

por Jorge Fiel

Qui | 17.09.09

O papel de outsider desempenhado pelo caracol no clássico dilema entre o queque e o bolo de arroz

Jorge Fiel

Sou acérrimo defensor (e praticante) da teoria de que devemos ter predefinidos formatos para responder às previsíveis  alterações à nossa rotina diária.

Nos casos em que, por um motivo (falta de géneros em casa) ou outro (sair a correr de casa), me vejo na contingência de estar na rua em jejum, tenho pronto a accionar um dispositivo de encomenda de pequeno almoço no café.

A bebida será seguramente água com gás fresca, deixando ao sabor do momento (o improviso é um dos sais da vida) a opção entre a Água do Castello e a Água das Pedras.

Se estou numa de me tentar poupar à decisão, inclino-me para pedir Castello, por ser muito provável que o café não a tenha disponível. Nesses casos, quando me comunicam que não há, encolho os ombros, e digo: “Então traga Pedras”. A distribuição da Unicer (Pedras) é melhor do que a da Nestlé (Castello).

Se por acaso o café onde escolhi tomar o pequeno almoço é do tipo Magnólia, ou seja completamente alinhado com a Central de Cervejas, tenho de me resignar a beber Luso Fresh – apesar de muito contrariado.

A chaveta dos sólidos compreende três itens: queque, bolo de arroz e caracol. Já não me lembro da última vez em que encomendei uma torrada – vá-se lá saber porquê…

O clássico dilema queque/bolo de arroz é de muito difícil ultrapassagem. A massa é em tudo idêntica (penso eu de que…), e o melhor é a parte de cima, que está mais dura e, às vezes, até é deliciosamente crocante.

A parte do fundo, que fica agarrado ao papel, é de muitissimo pior qualidade, e na maior parte das vezes só a como para não desperdiçar comida, o que, todos sabemos, é pecado, pois há muitas criancinhas, adultos e velhos (a fome não escolhe idade, apenas classe social) a morrerem à fome um pouco por todo o Mundo.

O caracol traz-me recordações dos idos de 1975, quando estudei no ISPA e o meu pequeno almoço tipo, tomado num café da Flamenga (Santo António de Cavaleiros), era constituído por um copo de água da torneira, um caracol (enorme!) e um café. Comprava o Diário de Notícias ou o Século, dava uma moedinha de cinco coroas e ainda recebi de troco uma moeda de cinco tostões. A festa ficava muito em conta. Those were the days.

Eu gosto muito do caracol, mas, para ser realmente bom,  ele tem de ter a massa estaladiça e ser generosamente povoado por frutos secos. E, diz-me a experiência (a única coisa boa que vem com a idade), nos tempos que correm é muito difícil encontrar um caracol de qualidade, pelo que normalmente deixo-me ficar pelo dilema queque/bolo de arroz.

Obviamente, a refeição é sepultada por um café – normal e tomado sem açúcar.

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