Domingo, 23 de Outubro de 2011

Cracóvia, Pisa e o preto do olho da Daniela Ruah

 

Um pequeno defeito ou imperfeição, contanto que bem explorados em termos de marketing, pode ser muito vantajoso na justa medida em que nos diferencia e personaliza.

Não sei se a Daniela Ruah seria uma actriz tão famosa nos States se o branco de um dos seus olhos não fosse negro - o que até rima com uma sociedade que se pretende multiracial e, às vezes, pratica discriminação positiva em benefício das suas minorias.

Mas tenho quase a certeza que a Torre de Pisa não seria mais conhecida internacionalmente do que a Torre dos Clérigos se não se desse o caso dos engenheiros que a projectarem não terem estado à altura dos acontecimentos e ela estar perigosamente inclinada.

Maior praça medieval da Europa, a Rynek Glówny de Cracóvia é tão bela que dispensava perfeitamente o facto da torre do edifício da Câmara Municipal ter começado a adornar.

Na visita que fiz ao Podzemia Rinku (o museu subterrâneo consagrado à história da cidade, que reúne os vestígios achados durante a escavação arqueológica da praça) fiquei a saber que a torre do edifício da Câmara já descaiu 55 centímetros para o lado.

Cracóvia, uma maravilhosa cidade visitada anualmente por oito mlhões de turistas, não precisava de um torre tipo Pisa para entrar no mapa dos melhores destinos europeus.  Tenho dito! 

publicado por Jorge Fiel às 19:06
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Sexta-feira, 21 de Outubro de 2011

Matar saudades dos tróleis estupidamente abandonados

 

O 10 foi o trólei que mais usei em S. Petersburgo. Mas também me desloquei a bordo dos tróleis de linha 1, 5 e 7, de autocarros - apreciei muito o trajecto do 22, que me levou até ao Teatro Mariinsky (ainda muito conhecido como teatro Kirov), o ponto de partida para uma passeata a pé pela popular e efervescente área de Sennaya Ploschad, o cenário  escolhido por Dostoievski para a intriga do romance Crime e Castigo.

Foi bestial matar as saudades do trólei, um veículo outrora muito usado no Porto e estupidamente abandonado, tal como o eléctrico, que apenas sobrevive em percursos reduzidos e com uma frequência tão escassa e religiosa que reduz a sua serventia à clientela de turistas que a Ryanair nos faz o favor de fornecer, não fazendo efectivamente parte da oferta de transportes públicos da cidade - ao contrário do que acontece em Lisboa que tem muito mais quilómetros de linha e onde, mesmo no famoso 18, a carreira turística por excelência, os camones convivem com os carteiristas e os alfacinhas da terceira idade que ainda vivem ao longo do itinerário.

Pintados de grenat, a cor da camisola da Selecção Nacional nos anos 60, os tróleis do Porto eram muito bonitos e distintos, qualificando por isso a paisagem urbana. O mesmo não se pode dizer do aspecto rude dos tróleis de S.Petersburgo. Mas, mais vale ter tróleis e eléctricos (recomendo vivamente as linhas 2 e 17) um bocadinho a puxar para o feio do que não os ter – penso eu de que….

O melhor elogio que posso fazer à eficiência da oferta articulada de tróleis, eléctricos (a circularem em via dedicada, não conflituando por isso com o resto do trânsito, o que aumenta a sua velocidade média e possibilita o cumprimento de horários) e autocarros de S. Petersburgo é que me desloquei a todos os locais onde quis sem nunca ter de recorrer ao metro, onde o bilhete de uma viagem era quatro rublos mais caro.

Antes de colocar um ponto final nesse post, quero que fique bem claro que estética não é o único nem o principal motivo desta minha nostalgia do trólei e eléctrico, mas sim a poupança de energia e do ambiente. Tenho dito!

publicado por Jorge Fiel às 18:56
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Quinta-feira, 20 de Outubro de 2011

Porque fiquei de pé atrás com a Ludmila

 

Apesar de ainda muito jovem (não lhe perguntei a idade, mas estou em crer que é claramente sub 30) a Ludmila já é viúva. Bastante expansiva – das cinco tipas que conheci sábado passado, na secção de lingerie do department store Gostinnyi Dvor, foi aquela com quem conversei mais  -  foi ela própria que abordou o assunto, dando como explicação para não gostar desta cidade o facto de ter sido aqui assassinado o seu marido.

Inquiria sobre as circunstâncias que rodearam tão infausta ocorrência, mas ela limitou-se a responder, secamente, que tinha sido num night club e depois calou-se, pelo que parti do princípio que ela não queria aprofundar o assunto, pelo que mudei o tema da conversa para as diferenças entre S. Petersburgo (a região de onde são naturais Putin e Medveded) e Moscovo.

A Ludmila tem umas feições muito correctas (a beleza dela compensava largamente o lamentável robe azul cueca que trazia vestido) e uns modos encantadores, mas fiquei na dúvida sobre se não será um pouco fantasiosa – para não dizer mentirosa. Contou-me que vive em Moscovo, onde faz trabalhos de intérprete, depois de ter concluído um curso de línguas estrangeiras – inglês e alemão.

Na verdade é bastante fluente em inglês, que fala com um sotaque ligeiramente britânico, constrói bem as frases e evidencia ser senhora de um vocabulário bastante variado. Foi quando lhe perguntei se tinha nascido em Moscovo que comecei a desconfiar das histórias dela. A Ludmila alega que a sua família é do Cáucaso e que nasceu em Grozny, mas o tipo dela, loura natural e com a pele muito branca não rima com essas origens. Fiquei logo de pé atrás com ela. A Ludmila cheirou-me claramente a esturro. 

publicado por Jorge Fiel às 13:55
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De como o aloquete serve um tradição em contraciclo

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Assim a olhómetro, S. Petersburgo é uma cidade habitada por gente muito jovem. Olhando para quem passa nas ruas diria que metade do pessoal é já pós-Gorbachov, ou seja pode ter nascido na URSS mas cresceu na Rússia.

Apesar do frio, são muitos os sinais de que o amor está no ar, desde a enorme quantidade de carrinhos de bebés até à quantidade de mães que vigiam os filhos nos parques de diversão dos jardins, passando pelos casamentos em que tropeçamos ao andar pela rua.

As traseiras da igreja do Sangue Derramado é um dos sítios onde se vê mais noivos fardados e atrelados aos convidados da boda e respectivo fotógrafo. Não foi à primeira que descobri a origem desta estranha concentração. Há uma tradição.

Não sei o que reza a tradição, mas sei como ela se manifesta. Os noivos vão à ponte sobre o canal que fica atrás do local onde foi assassinado o czar Alexandre II e deixam lá preso às grades um aloquete (artefacto designado por cadeado pelos portugueses nados e criados a sul do Mondego), com os nomes deles gravados e juras de amor eterno.

É uma tradição engraçada, mas nitidamente em contraciclo, pois cá (na Rússia) como lá (no resto da Europa) os casamentos duram cada vez menos  - e não há aloquete que os salve.

 

publicado por Jorge Fiel às 13:49
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Terça-feira, 18 de Outubro de 2011

Não é conveniente assoar o nariz ruidosamente

 

“Vê-se logo que não é russo. Se fosse não me teria devolvido a esferográfica”, exclamou Igor Sharbatov, presidente da Associação de Sommelliers de S. Petersburgo, quando, no final da conversa, o jornalista lhe entregou a espécie de Bic com o nome do hotel gravado que lhe pedira emprestada.

Os russos são muito diferentes dos portugueses, o que até se compreende porque estão na outra ponta da Europa – a bem dizer são a guarda avançada da Ásia no Velho Continente. Seria mais provável o Clark Kent e o Super Homem aparecerem juntos, ou o Zé Carioca arranjar um emprego, do que os russos elegerem um lingrinhas como o Cavaco. Mais. Se em vez de adquirir a cidadania americana para poder governar a Califórnia - e assim ficar habilitado a fazer filhos a torto e a direito a todas as sopeiras hondurenhas, salvadorenhas e panamianas que lhe aparecessem pela frente -, o Schwarznegger optasse por ter sido russo, as próximas presidenciais deixariam de ser favas contadas para o Putin.

Os russos não se limitam a ser diferentes de nós. Têm também uma etiqueta diferente. Por aqui, pode cuspir (ou até mesmo escarrar) na rua sem receio de ver este seu acto selvagem receber olhares reprovadores ou até receber um comentário mais azedo, ao estilo “também cospes para o chão em casa, ó meu badalhoco?!?!!!”. Já cruzar as pernas quando se consegue o milagre de arranjar um lugar sentado no eléctrico, entrar a mascar pastilha elástica na Catedral de Nossa Senhora de Kazan, ou assoar o nariz ruidosamente em público, são manias censuráveis ao olhar dos russos.

 

publicado por Jorge Fiel às 22:37
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Recordações do tempo em que fui ovo estrelado

 

Ainda fui uma das vítimas do ovo estrelado. No meu ano de caloiro na condução, como se já não bastasse a nabice inata a essa condição, tinha ainda de a apregoar ao resto do mundo através da exibição, algures na traseira do carro, de um autocolante redondo e amarelo, com um 90 dentro que sinalizava a velocidade máxima a que eu estava habilitado a circular.

A versão russa do ovo estrelado é um rectângulo, em amarelo (a cor mantém-se e curiosamente é a mesma escolhida pelos nazis para a estrela de David identificativa que os alemães obrigavam os judeus a coser em lugar de destaque nas suas roupas), com um ponto de exclamação (espantação, se preferirem) que lança um grito de aviso ao resto da circulação automóvel:  tenham cuidado e estejam atentos que eu posso fazer o pisca para a esquerda e virar para a direita.

 

publicado por Jorge Fiel às 22:21
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Segunda-feira, 17 de Outubro de 2011

Eu e o Matisse somos homens de família

 

Sempre que visito um museu, não resisto a jogar, em cada sala, um jogo comigo mesmo. Se me dissessem: escolhe daqui o quadro que podes levar para casa (para pendurar na parede e desfrutar – não para vender), qual é que levavas? E no final da visita, tento eleger o quadro nº 1.

Assim à primeira vista, o quadro que eu traria do Hermitage era do Matisse – mas não a Dança (um dos mais famosos da colecção do Hermitage, devido ao uso de três cores fortes, o azul, o verde e vermelho, para acentuar o drama e a concentração das cinco figuras que dançam em circulo).

A tela que eu escolheria seria a da família do Matisse, vista pelo pintor. Uma eleição instintiva que me levou a concluir, após alguma reflexão, que sou um homem de família.

publicado por Jorge Fiel às 21:53
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No Palácio de Inverno, 96 anos depois dos bolcheviques

 

Noventa e seis anos depois dos bolcheviques, avisados do início da Revolução por uma salva de artilharia disparada pelo cruzador Aurora (fundeado no Neva), terem assaltado o Palácio de Inverno, chegou finalmente a minha vez de trilhar o mesmo caminho – com a diferença de que antes de entrar tive de aguardar pacientemente 45 minutos na bicha, pagar 400 rublos pelo bilhete de entrada e depositar o encerado Barbour e o saco de mensageiro Aldo (já todo roto) no vestiário.

Lá dentro, subi para o primeiro andar, para visitar os aposentos dos Romanov, ao invés do bolcheviques que avidamente se dirigiram para as caves com o louvável (e conseguido) intuito de darem cabo da garrafeira dos czares. Por razões de calendário, a Revolução de Outubro foi a 7 de Novembro e como nessa altura do ano pode fazer muito frio em S. Petersburgo nada melhor que uns bons vinhos e champanhes franceses para aquecer as almas e os corpos do bom proletariado revoltado, famélico e sequioso.

O Palácio de Inverno integra o complexo do Hermitage, que o seu director, numa declaração curiosa, disse não jurar que seja o melhor museu do Mundo - mas estar em condições de garantir que não é seguramente o segundo melhor.

No final achei uma pechincha pagar apenas 400 rublos para ficar com uma ideia aproximada de como viviam os Romanov (à grande!) e deliciar as vistinhas durante um par de horas com telas de impressionistas, expressionistas e ofícios correlativos , que não conhecia, nem sequer de reproduções ou catálogos.

 

publicado por Jorge Fiel às 21:34
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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