Segunda-feira, 16 de Fevereiro de 2009

Não se deve usar o Ponto G como bode expiatório

“Grande gaita, escrever sobre o famoso Ponto G. E gozo, também, que dá ler sobre algo de que toda gente fala, fala, fala, mas parece que ninguém sabe se existe mesmo, se está apenas nos estudos ou se é, de facto, transponível para os nossos corpos.

Pois. Ele é ler nos artigos que nem todas as mulheres o têm ou que as que o têm nem sempre têm a sorte de encontrar o garoto que faça o Ponto G gemer por se ter tido o mérito, la chance e/ou a perícia de se ter chegado a ele comme il faut, em vez de tanto se falar, escrever e ler sobre ele como nos mostram detalhadamente os tais artigos que indicam o ‘mapa da mina’ e como chegar até ao fim do arco íris com sucesso . Essa é que é essa”

Sete anos de mau sexo, Ana Anes, página 87

Começo por saudar o estilo adoptado pela autora, que conferiu um recorte literário suplementar a esta sábia dissertação sobre o ponto G ao alinhar uma data de palavras começadas por G (grande, gaita, gozo, gente, garoto, gemer) e todas elas directamente relacionadas com a matéria em equação.

Escrever bem e com cuidado é bem melhor que escrever como quem põe uma carta no correio – e quem disser o contrário mente com quantos dentes tem na boca (e olhem que os postiços também valem).

Nestes dois singelos parágrafos, a autora adverte-nos para a tentação de usarmos o ponto G como bode expiatório para uma queca de deficiente qualidade.

Diz o povo que a culpa morreu solteira e é demasiado fácil atirar a culpa por cima do outro/a. “A queca foi uma merda porque tu não tens ponto G”, atira o rapaz. “A queca não valeu nada porque tu não soubeste encontrar o meu Ponto G”, contra-ataca a rapariga.

Ora esta troca de recriminações não pode acabar em bem, pelo que as partes devem abster-se de assacar ao Ponto G a responsabilidade por uma  confraternização menos conseguida. 

Filmes com Le Genou de Claire (de Eric Rohmer)  - onde Laurence de Monaghan (no papel de Claire) se excitava quando lhe acariciavam o joelho -  ou Garganta Funda (o Ponto G da Linda Lovelace alegadamente situar-se-ia junto às amígdalas) provam-nos que os mistérios insondáveis do corpo, assim devem permanecer -misteriorosos.

A tentativa de cartografar o corpo feminino é um erro crasso que todos nós devemos combater sem descanso.

 

música: Outra margem, Trovante
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publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

Não devemos deixar que a cama seja invadida pela gramática da civilização do telecomando!

A belíssima Cláudia Cristiani porta-se mal em público porque, na sombra, o perverso dr. Fez activou no máximo das necessidades, através do seu malvado telecomando, o centro que comanda desejo sexual

 

“O Ponto G deve ter sido inventado por algum cientista incapaz de satisfazer a partenaire ou então por uma mulher – lá diz a sabedoria popular que são maquiavélicas – que não conseguia ou podia de alguma forma ‘subir uma oitava’, como é suposto fazerem as mulheres ‘normais”

Sete anos de mau sexo, Ana Anes, página 88

 

Em Clic, a mais famosa das bd eróticas de Milo Manara, são sucessivamente contadas as embaraçosas situações vividas por Cláudia Cristiani, uma mulher da alta sociedade, casada com Aleardo, um velho milionário cuja fealdade contrasta com a esplendorosa beleza da sua jovem esposa.

No início da história, a sensual Cláudia é recatada e pudica, travando com determinação os avanços do dr Fez, um velho sátiro que tenta por todos os meios, mas sem sucesso, saltar-lhe para a cueca.

Para se vingar de Cláudia, que o classifica como repugnante, o perverso dr Fez leva a cabo as três malfeitorias que estão na base do desenvolvimento da história:

1.     Apodera-se de um invento do dr. Kranz, que consiste num processo de instalação o centro cerebral do prazer um chip que pode ser comandado externamente;

2.     Rapta Cláudia;

3.     Sem ela dar conta implanta-lhe no cérebro o chip inventado pelo dr. Kranz.

As histórias (sim, Milo Manara não resistiu à tentação de capitalizar o estrondoso sucesso do Clic para fazer uma data de sequelas, Clic 2, Clic 3, Clic 4, pois eu ainda não tenho a certeza de que ele tenha já parado de explorar esta mina) desenvolvem-se com base nas patifarias do malvado dr Fez.

Transportando sempre no bolso das calças o comando, de apenas oito centímetros (ou seja metade do tamanho mínimo regulamentar exigido a um instrumento humano susceptível de provocar os mesmos efeitos), o perverso Fez diverte-se a libertar, à distância, pelo simples acto de rodar um botão, os desejos sexuais mais ocultos da bela Cláudia.

O moral desta história é que a Humanidade não descansa enquanto não consegue controlar os humores da Natureza e que essa obsessão criou um sociedade On e Off em que não conseguimos viver sem telecomandos.

Quando chegamos a casa, não precisamos de sair do carro para abrir a porta da garagem. Quando estamos a ver televisão não precisamos de nos levantar para mudar de canal. Quando estamos na sala a conversar não precisamos de nos levantar para baixar o volume da música que está a tocar na aparelhagem.

A invenção dos Viagras (ou, se quiserem, o invento do dr Kranz, a parábola achada por Milo para abordar esta questão) permite estender à cama a gramática da civilização do telecomando, já que passa a ser possível agendar, com garantia prévia de sucesso, uma queca para um intervalo entre dois compromissos inadiáveis.

A tentativa de mapear o Ponto G mais não é de que um passo para a elaboração de manual de instruções sobre como libertar os instintos libertinos de uma mulher – de onde se partiria inevitavelmente para a democratização, industrialização e consequente banalização do acesso.

E se se descobrisse que nem todas as mulheres vêm equipadas de origem com o Ponto G, não tardaria muito até que se inventasse uma prótese (um chip do tipo do dr Kranz!), cuja implantação geraria novas e monstruosas filas de espera no Serviço Nacional de Saúde e contribuiria para degradar ainda mais a sua situação financeira.

Do meu ponto de vista, é melhor deixar ficar tudo como está, não deixando que o método da produção em série, que os fenícios nos ensinaram, contamine tudo. Deixemos espaço para o artesanato!

 

música: The land of plenty, Leonard Cohen
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Sábado, 14 de Fevereiro de 2009

Saber demais causa-nos ansiedade

Jayne (Avaria Sexual, Gina nº192) está mais com o ar de quem foi apanhada de surpresa do que de quem está a caminho de ser tocada no ponto G

“Uma mulher normal é uma mulher que não tem macaquinhos na cabeça e que usufrui da sua sexualidade no máximo, com ou sem orgasmos, mas de preferência com eles.

(Nota: descansem que se não ‘virem Deus’ uma vez ou outra é perfeitamente normal. Um orgasmo é como azeitona dentro de um Dry Martini; às vezes o barman esquece-se de a colocar lá dentro, mas não é por isso que vão deixar de o beber)

Além disso, para que raio precisamos nós, malta moderna, em pleno século XXI, de saber da existência ou de saber que efectivamente estamos rodeados de estranhas galáxias circundantes que nos podem eventualmente aniquilar! É este o efeito de terem descoberto um G Spot. Causa-nos ansiedade. E isso é perfeitamente dispensável. Saber demais causa-nos ansiedade”.

“Sete anos de mau sexo”, Ana Anes, página 89

 

Mais uma enorme lição de vida que remata com um pedacinho de ouro – “saber demais causa-nos ansiedade” -  de tão elevada qualidade que merece perfeitamente ser considerado uma pepita.

Na verdade, a insatisfação cresce de forma directamente proporcional ao nosso arsenal de conhecimento, experiência e sabedoria acumulados. Quem já foi à Lua nunca mais achará excitante uma viagem intercontinental de avião.

A autora socorre-se de uma imagem feliz (a da ausência de azeitona no dry martini) para, com rara elegância,  desdramatizar a questão do Ponto G e dizer-nos, por outras palavras, o que a sabedoria popular condensou numa frase simples: o óptimo é inimigo do bom.

Se queremos ser felizes, devemos a todo o custo evitar meter o complicador.

A obsessão pela descoberta do ponto G pode revelar-se uma empresa utópica, tal como a demanda do Cálice Sagrado (aliás ainda ninguém me conseguiu tirar a ideia de que o G de Ponto G não é derivado do G de Graal) a procura da Arca da Aliança e ou a busca da fonte da eterna juventude.

Como podemos aprender com os camaradas israelitas, a Terra Prometida pode não ser exactamente uma terra onde escorre o leite e o mel.

 

música: Here it is, Leonard Cohen
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Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2009

O Ponto G não é uma realidade, é um pensamento

Fotografada no início da aventura Mamas de Sonho (Gina nº 187), Ghitte está com cara de quem acredita mais na existência do Pai Natal do que na do Ponto G

 

“O Ponto G é mais um mito urbano criado para fazer companhia a outros mitos actuais como as depressões e os tradicionais mitos infantis.

Cá para mim, se querem mesmo saber, o Ponto G é a Fada dos Dentes da malta crescida. A única diferença é que, enquanto a Fada do Dente tem uma surpresa agradável para quem acorda, pois, durante a noite, alguém amigo vos põe uma moedinha debaixo da almofada, já no Ponto G o mesmo não acontece, pois é geralmente durante a noite que o Gêzinho ensombra a cabeça e a cama de quem faz por não dormir.

O tal de G não passa de um mito sexual, usado para complicar as nossas existência e nos sentirmos gorados nos nossos objectivos sexuais”

Sete anos de mau sexo”, Ana Anes, página 87

 

Há gente que se desembrulha muito bem quando age sob pressão, mas, para a maior parte das pessoas, o excesso de pressão prejudica muito a sua performance.

Por isso mesmo, este artigo, em boa hora publicado na Maxmen, pode ter o benéfico e terapêutico efeito de funcionar como uma válvula de escape para tensões desnecessariamente acumuladas pelos dois géneros envolvidos numa saudável confraternização.

A rapariga que concluiu o truca truca sem ter visto a Noite Estrelada do Van Gogh e contabilizado pelo menos meia dúzia de orgasmos múltiplos fica muito mais descomplexada depois de ter lido a autora afirmar que o Ponto G é um mito urbano.

O rapaz que concluiu o truca truca sem ter visto a sua parceira revirar os olhos, como se estivesse possuída por Satanás, e agitar o corpo, como se estivesse a ter um ataque epiléptico, fica muito mais descomplexado depois de ter lido a autora afirmar que o Ponto G não passa de um mito sexual.

Leonard Cohen escreveu que ser infeliz não é uma realidade, mas sim o pensamento.

Eu sinto-me tentado a elaborar teoria, traçando uma bissectriz entre as reflexões da Ana e do Leonard, concluindo que o Ponto G não é uma realidade, mas sim um pensamento.

música: In my secret life, Leonard Cohen
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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