Domingo, 7 de Dezembro de 2008

Varsóvia não é Ulaanbaatar

Não recebi um zloty que fosse. Sapo, Turismo da Polónia e Conselho Mundial Judaico estão inocentes!

As coisas boas da vida, como um vinho ou uma viagem (1), devem ser saboreadas com calma, para gozarmos devidamente todo o prazer que elas nos têm para dar.

E o prazer pode e deve ser estendido no tempo. Começo logo quando compro pela primeira vez uma garrafa de Quinta do Vallado moscatel galego e me interrogo sobre se vou ou não apreciar um branco que não é seco (2).

Esta ansiedade é parte inseparável do prazer, que se prolonga na escolha do copo e comidas adequados. Aberta a garrafa, desfrutamos do aroma perfumado antes de levar o copo a boca.

Ao rolar o vinho na boca temos a grata surpresa de gostarmos de um sabor novo e elegante, onde o moscatel está presente, mas não esmaga. Depois,  ainda desfrutamos ao partilhar a experiência e esta opinião com os amigos.

Tal como acontece com o vinho, o prazer de uma viagem é repartido. Começa com os preparativos. A escolha do destino. A busca da Net dos voos mais vantajosos – que nem sempre são os mais baratos, pois há que ter em atenção os horários (chegar à noite e regressar de manhã é queimar inutilmente duas noites de hotel) e certificar-nos de que são directos ou há pelo meio uma escala assassina de tempo e desnecessária.

Prolonga-se com a compra de um ou vários guias, a consulta nos mapas das localizações dos hotéis e, finalmente a marcação. Nas vésperas, consulta-se na Net a previsão metereológica e faz-se a mala em conformidade.

Neste antes, ainda não se gastou muito dinheiro (apenas arejamos o número e validade do Visa) nem dias de férias e já estamos a gozar à brava.

Quando ao durante estamos conversados. Mas o prazer não se esgota quando chegamos a casa e desfazemos as malas.

Mastigar devagarinho as recordações da viagem, ver as fotografias, relatar as experiências aos amigos são alguns dos imensos prazeres do depois.

O abuso dos 69 posts (este incluído) sobre a minha viagem à Polónia enquadra-se na máxima rentabilização do prazer no depois.

Ao longo deste massacre, a que hoje ponho termo (aleluia!), alguém perguntou quem me estava a pagar para escrever o equivalente a um livro sobre uma viagem normalíssima da Silva (Varsóvia não é Ulaanbaatar, o Wisla não é o rio Tuul e Cracóvia não é o Mar da Tranquilidade).

A pergunta é pertinente. Quando alguém me quer convencer a escrever de borla, eu costumo responder com uma pergunta retórica: “Eras capaz de pedir boleia a um taxista?”.

Mas, lamentavelmente, a resposta é não. Ninguém me pagou. Nem o Sapo, nem o Conselho Mundial Judaico, nem o Turismo da Polónia.

Tenho muita pena (vocês nem imaginam quanta!) que assim seja, mas a triste e dura realidade é que não pagaram e eu nem sequer me posso queixar pois ninguém me encomendou o sermão (se bem que haja quem encomende e depois não pague, mas isso já é outra história…).

Escrevi 69 posts (3) sobre a Polónia por uma simples razões: tive tempo e prazer em escrevê-los.

 

Koniec

……………..

(1) Isto só para citar dois exemplos. Se tivesse de citar três, presumo que adivinham o que referiria. Sim, começa com um m e acaba num r, tem seis letrinhas e descende de Eva…

 

(2) Neste particular de secos, recomendo a todos experimentarem o jerez fino da Osborne, bem frio, antes do jantar, a acompanhar umas azeitonas. Seco mais seco não há!

 

(3) Presumo que já repararam que o número indicia um regresso rápido das malandrices à Lavandaria! Há esperanças!

 

música: The end, Doors
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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Cracóvia deve ser consumida no Verão quando os dias são mais longos e as saias muito mais curtas

É impossível não ficar apaixonado por uma cidade como Cracóvia, que tem como símbolo um dragão que cospe fogo (1) e é percorrida por eléctricos azuis e brancos.

Cracóvia é uma cidade belíssima, mas que ainda deve ser mais bela no Verão quando os dias são mais longos e as saias mais curtas. Poupada à destruição que vitimou Varsóvia , na II Guerra Mundial, é rica e abundante em património.

Na semana que estive em Cracóvia vi muitas coisas, algumas delas foram objecto de longas e maçadoras dissertações aqui na Lavandaria. Outras não.

Desta segunda lista fazem parte muitas coisas altamente recomendáveis, das quais acho relevante citar as três seguintes:

a)     A subida ao Monte Kosciusko

Para comemorar a batalha de Raclawica, em 1794, em que derrotaram o invasor russo, os patriotas polacos ergueram este monte artificial, em 1820 (estava o liberalismo a rebentar em Portugal), baptizando-o com o nome do general que comandou as suas tropas nesta memorável vitória . A deslumbrante panorâmica de que se desfruta do alto dos seus 300 metros compensa amplamente o esforço da subida;

 

b)    Collegium Maius

Cracóvia albergou a primeira e mais prestigiada universidade, que teve aqui as suas primeiras instalações, e por onde passaram alunos tão famosos como Copérnico e Karol Wojtila. Pouco dias antes de eu lá ir, Cavaco Silva recebeu aqui um doutoramento honoris causa. Visitar as instalações o Maius é um agradável mergulho no passado, aqui e ali entremeado de curiosos bocados de presente, como é o caso da vitrina onde está exposta a estatueta do Óscar ganho em 2000 pelo realizador Andrej Wajda e que ele doou à sua antiga universidade;

 

c)     Some Place Else

O bar do Sheraton (ulica Powisle,7) fica junto ao rio Wisla e é um dos poisos preferidos dos expatriados em Cracóvia e basta lá entrar para perceber porquê: espalhados pelas paredes estão muitos plasmas sintonizados em diferentes canais de desporto, enquanto pelo meio da sala circulam empregadas descontraídas a deixar ficar pelas mesas pratos de nachos, canecas de cerveja se respostas bem humoradas num inglês correcto.

(continua)

………………………..

(1) O dragão é da autoria de Bronislaw Chromy, escultor de Cracóvia. Um das coisas obrigatórias a fazer em Cracóvia é visitar a sua fundação e jardim vizinho, na rua Cystersow.

 

música: Deixa-te ficar em minha casa, Filarmónica Gil
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

O grande denominador comum existente entre a garrafa de vodka e a lingerie da Marilyn Monroe

O soutien está no congelador

Do meu ponto de vista, que todos sabem que não é modesto, o sítio certo para acomodar uma garrafa de vodka é exactamente o mesmo que a Marilyn Monroe escolhia para guardar a sua lingerie – o congelador.

Aprecio bastante a viscosidade do escorrer para o copo da vodka (a meio pau entre os seus estados liquido e sólido) armazenada à violenta temperatura negativa de um congelador, apesar da leve incomodidade sofrida pelas mãos no contacto com o vidro da garrafa coberto por uma fina película de gelo.

Não fosse o caso disso contribuir para consolidar a reputação de eu ser uma pessoa exagerada, poderia mesmo qualificar esse escorrer como erótico!

Esclarecida a minha posição sobre a conservação da vodka, passo a socializar com as preclaras e os preclaros o que penso sobre a maneira como ela deve ser consumida.

Sou visceralmente contra os shots . Mas apesar de reafirmar um posicionamento geral moderadamente favorável face aos coktails – vodka tónico, vodka laranja e vodka maçã (variante que ainda não tive o prazer de experimentar) –, não posso deixar de me revelar um entusiasta da vodka a solo, sem misturas.

Tenho para mim que deve ser servida em copos pequenos, similares aos usados pelos turcos para o chá, mas que em vez de consumida javardamente, de um trago só, temos a ganhar se a namorarmos. Primeiro cheirá-la, depois beber um beber uma porção suficiente que dê para rolar na boca, mas que não esvazie o copo logo à primeira.

Ouçam o que lhe digo. Tirar partido de uma boa vodka tem muito que se lhe diga.

Mas antes de pôr um termo a este devaneio sobre vodka que já dura desde segunda feira, quero deixar bem claro que não pactuo com algumas modernices, que estão a ser cometidas.

A Stoli com aroma e sabor e frutos silvestres é óptima. O limão também casa muito bem com vodka. Mas não pode valer tudo. Há que pôr algum travão a esta moda de adição de todo o tipo de sabores.

Algo está mal quando chegamos ao ponto de termos gente sem escrúpulos que comercializa vodka de caramelo. Ou bem que é vodka ou bem que é um xarope!

 

Desconheço se os collants de rede de pescador, com costura atrás, também iam parar ao congelador

(continua)

 

música: Intervalo, Perfume+Rui Veloso
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Quarta-feira, 3 de Dezembro de 2008

Toma lá para fazeres um chá de vodka

Reza a tradição que a vodka deve ser consumida sob a forma de shot. Enche-se um copo com esta bebida de nome e índole traiçoeiros (1) e depois toca a atirar tudo pela garganta abaixo, de um só trago.

Eu não sou adepto desta prática, que não hesito em qualificar como bárbara. Para estas práticas javardas é um desperdício usar vodkas tão finas como as já referidas Stoli e Zubrowka (ou até a Wyborowa, a mais clássica das vodkas polacas).

Se vão usar a vodka com o único e exclusivo meio de alcançar rapidamente as vantagens derivadas do aumento do teor alcoólico do sangue (protecção face ao frio e/ou acesso a um agradável estado de euforia) aconselha-se o uso da global Smirnoff ou da não menos global (e mais em conta)  Eristoff.

Há ainda outra tradição: a de misturar o vodka com outros líquidos.

Nesta viagem, aprendi que os polacos combatem os rigores do Inverno tomando um chá de vodka logo pela manhã, uma bebida fácil de preparar e que consiste em adicionar em água a ferver à vodka, em partes iguais.

Para bem do meu fígado, espero que o frio português nunca me obrigue a adoptar uma medida tão drástica.

Outra mistura muito do agrado dos polacos é a de vodka com sumo de maçã, que confesso nunca experimentei, mas deve ser agradável – pelo menos tanto quanto o tradicional vodka laranja.

Estas combinações são uma variante do vodka tónico, bebida que fica bem a qualquer um cavalheiro encomendar. Neste caso, acho que fica a matar precisar que se pretende que o vodka seja Absolut.

O Absolut é a água do Luso dos vodkas  - mas com um marketing incomparavelmente superior. Ou seja, não sabe a nada (com a óbvia excepção das suas versões aromatizadas).

A garrafa do Absolut é um verdadeiro achado. E as campanhas de publicitária são das mais espectaculares manifestações de arte popular contemporânea. O Absolut tem por vias disso uma imagem magnífica que só favor de quem o compra ou encomenda.

Mas eu, por mim, prefiro a Zubrowka.  De longe.

(continua)

……………

(1)  Nas línguas eslavas, vodka é diminutivo de aguinha, o que até pode parecer verdadeiro à vista, mas a verdade é que por detrás daquele ar inofensivo está uma bebida explosiva com um teor alcoólico próximo dos 50%.

 

música: Unconditional love, Bangles
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Terça-feira, 2 de Dezembro de 2008

A Stoli é boa, mas a Zubrowka ainda é melhor

 

Os maiores especialistas vivos no grande cisma da vodka dizem que as polacas (as vodkas, não as mulheres, bem entendido) são mais oleosas e têm sabor e aroma mais acentuados e adocicados, sendo mais suaves que as russas, que queimam na garganta.

Devem ter razão. Eu devo dizer que historicamente sempre me dei bem com a Stoli russa, e até fiquei fã de uma sua versão com aroma e sabor a frutos silvestres que comprei em Moscovo no ano passado.

Gostei tanto desta Stoli que até estou surpreendido com o facto da garrafa de um litro resistir ainda com algum liquido dentro (1) no congelador do frigorífico do meu apartamento de São João do Estoril. É um milagre que pede meças às aparições em Fátima da Virgem Maria aos pastorinhos.

Na minha segunda expedição à Polónia, que decorreu sob o alto patrocínio do Millennium BCP, foi apresentado à Zubrowka e devo dizer que se tratou de um coup de foudre – um amor ao primeiro trago, uma paixão que tem resistido à voragem dos difíceis tempos que atravessamos.

A Zubrowka ostenta um bisonte nos seus rótulos (já apanhei pelo menos com três diferentes), numa alusão clara ao facto do seu sabor distinto  (e distintivo) se dever ao uso na confecção da erva do parque de Bialowieza, onde pastam os bisontes.

Há uma versão da Zubrowka  (presumo que a mais cara) em que vem dentro da garrafa, em ameno e pacifico convívio com a vodka, um pequeno pedaço do pasto dos bisontes.

Resumindo. A Stoli é boa. A Stoli com aroma e sabor as frutos silvestres ainda é melhor (2). Mas a Zubrowka é uma experiência a não falhar, podem crer, e que está ao alcance de todas as preclaras e preclaras já que começou a fazer aparições nas prateleiras dos Pingo Doce. 

 

Ora aqui está a erva que dá aquele gostinho especial à Zubrowka
 

(continua)

……………….

(1) Calculo que resistem ainda uns bons 0,2 dl da Stoli aromatizada, mas sei que estou a escrever asneira porque por razões que em escapam em absoluto as doses de vodka são medidas ao peso  -  em gramas.

 

 

(2) Sinto-me um émulo do enorme Tino de Rãs, cujo grande hit musical tinha um refrão em que ele cantava: “pão com manteiga é bom: com fiambre ainda é melhor”.

música: Overcome, Live
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Domingo, 30 de Novembro de 2008

Dez dias na Polónia sem ver uma única joaninha

As verdades têm de ser escritas. Mas antes uma declaração prévia. Não duvido por um instante que seja que a Biedronka (cadeia polaca de supermercados controlada pelo grupo Jerónimo Martins) tenha 1300 lojas na Polónia e seja a líder da distribuição alimentar neste grande e promissor país da Europa Central.

Durante dez preenchidos dias percorri, por terra e ar (falhei o mar, fica para outra vez uma visita a Gdansk), a Polónia.

Vistoriei Varsóvia. Viajei de comboio até Cracóvia. Fui a Nowa Hutta. Demorei-me um dia entre Auschwitz e Birkenau. Inspeccionei Wroclaw. E durante todo este périplo (1)  não vi uma única joaninha (Biedronka em polaco quer dizer joaninha, como já se devem ter apercebido se olharam para a fotografia).

À mingua de Biedronkas, restringe o meu reconhecimento na área de supermercados a duas cadeias locais, a Jubilat e a Alma.

A Jubilat tem uma loja de alguma envergadura que é vizinha do Ibis onde estive aboletado e revelou-se uma cadeia de categoria média, do tipo Jumbo ou Continente, onde se vai às compras não pelo prazer de esperar ser surpreendido pelas prateleiras, mas tão só para repor as faltas de shampoo anti-caspa. Leite meio gordo, liquido amarelo para a louça, papel higiénico ou maçãs gala royal. Mais do mesmo, portanto.

Já o Alma é outra loiça. Apesar da iluminação intimista, tipo pube, que não tenho certeza seja a mais adequada à função (uma vez que os objectos da tentação são inanimados  - e não grupos de boazonas de minisaia já um bocado bebidas e com ar de quem está numa despedida de solteira), está claramente na categoria superior dos supermercados delicatessen, como o El Corte Inglês ou até mesmo o mítico Dean & Deluca.

O Alma não esgota o segmento superior na oferta de mercearia fina em Cracóvia, patamar onde é obrigatório incluir a Kredens (que em polaco quer dizer aparador) .

A Kredens não é generalista como a Alma (de quem recentemente passu a ser propriedade), concentrando a sua oferta em produtos de marca própria, embalado e rotulados de maneira a se tornarem irresistíveis para serem transformadas em prendas (2), se levarmos em conta a relação preço/aspecto.

A gama da Kredens é limitada a conservas alimentares (compotas, bolachas, bolos, frutas, salgados), mostardas, salsichas, chás e uma variada gama de frascos de vodka com todo o tipo, possível e imaginário, de aromas e sabores.

 

(continua)

…………………………..

(1) Cansativo para todos, em particular para os frequentadores assíduos desta Lavandaria

 

(2)  E os sacanas dos donos da Kredens sabem perfeitamente disso e para capitalizarem este nicho do seu negócio. Têm um balcão estrategicamente colocado junto às salas de embarque, na zona de partidas internacionais do aeroporto de Cracóvia, destinado a caçar os zlotys que sobraram na carteira dos turistas, em geral – e os euros dos turistas distraídos, em particular que se esqueceram de comprar uma lembrançazinha da Polónia para a futura sogra.

 

música: Wish you were here, Pink Floyd
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O estranho caso do rapto da estátua do camarada Vladimir Ilitch Lenine em Strzelecki Park

O Voto, de Wlodzmierz Siwierski. Apesar dos esforços do POUP, os cidadãos da Nowa Huta não substituíram o catolicismo pela nova religião

As contas de fazer de Nowa Huta o coração proletário do POUP (1) saíram completamente furadas à clique estalinista instalada em Varsóvia.

A Siderurgia Lenine, começada a construir em 1950, já deitava fumo em 1954, ano em que foi inaugurada com a solenidade devida a uma grande realização socialista – era o maior forno da Europa, com capacidade para produzir sete milhões de toneladas de aço por ano e empregava 40 mil pessoas.

A reputação internacional da Siderurgia Lenine era tal, que quando foi à Polónia, Fidel Castro preferiu visitá-la a ir dar uma espreitadela Rynek Glówny de Cracóvia, uma das mais deslumbrantes praças do Mundo, o que, diga-se de passagem, não abona nada a favor do velho barbudo.

Sucede que a Siderurgia se tornou numa praça forte do sindicato oposicionista Solidarinosci e que os operários e seus familiares  rapidamente se transformaram numa pedra no sapato dosdirigenets do POUP.

Como se não bastassem as recorrentes movimentações a favor da construção de uma cidade que era suposto ser o coração do ateísmo polaco, os habitantes de Nowa Huta divertiam-se a pregar partidas às estátuas de Lenine colocadas em Strzelecki Park.

A primeira desapareceu, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas (o que vale dizer que se foi raptada a verdade é que os autores da façanha nunca se deram ao trabalho de exigiram resgate).

A segunda foi alvo de inúmeros actos de vandalismo, um dos quais fatal para o autor (morreu na explosão prematura da bomba que lá estava a colocar), até ser empacotada e guardada num armazém, na sequência da queda do Muro de Berlim.

Mas ao contrário do que seria de supor, a estátua não encontrou finalmente o sossego. Um empresário sueco soube do seu paradeiro e comprou-a às autoridades polacas por cem mil coroas para a instalar num local público em Estocolmo, onde está disponível para intervenções de jovens artistas, que entre outras coisas já fizeram alguns piercings ao camarada Lenine.

Os habitantes de Nowa Huta habituaram-se a não dar troco nem aos fundadores da cidade, nem ao regime que lhes sucedeu. A praça central chamava-se praça Stalin. Em 2004 foi rebaptizada Ronald Reagan. Eles sempre a conheceram pelo mesmo nome – Centralny.

 

Inauguração, em 1954, da Siderurgia Lenine, em Nowa Huta

(continua)  

 ……………..

(1) Para os mais esquecidos e mais novos ,recordo que POUP são as iniciais do Partido Operário Unificado Polaco, o nome por que respondia o partido comunista pró-soviético polaco.

 

música: Help, Beatles
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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Uma fortaleza chamada Nowa Huta

O desenho de Nowa Huta, projectada para facilmente se transformar numa fortaleza inexpugnável

O capitalismo planificou, a partir do zero, cidades como Brasília e Camberra, concebidas para serem as capitais dos respectivos países. Já fui a Camberra (e gostei) e nunca fui a Brasília (mas gostava muito de lá ir)

O comunismo, versão URSS, planificou, a partir do zero, cidades como Nowa Huta e  Magnitogorsk (nos Montes Urais) para glorificar, "urbi et orbi", a superioridade socialista. Já fui a Nowa Hutta (e achei piada, a mesma piada que acho quando vou ao Jardim Zoológico) e nunca fui a Magnitogorsk (e não faz parte dos meus planos ir lá).

Nowa Huta é duplamente bastarda. É uma filha bastarda do pós guerra e de Cracóvia. Como nada me move contra os bastardos, investi uma tarde da minha estadia na terra dos polacos a visitá-la.

Não me arrependi, se bem que não tenho a certeza se, depois da noite cair, seria muito seguro andar a passear-me pelas suas avenidas largas e densamente arborizadas.

A cidade ideal para os comunistas polacos, foi desenhada a pensar num eventual aquecimento da Guerra Fria e daí a largura dos seus arruamentos (que visava impedir o alastramento de incêndios provocados por bombardeamentos) e a imensa arborização (que visava absorver parcialmente os danos de uma explosão nuclear).

Destinada a ser uma amostra da nova cidade socialista, Nowa Huta foi desenhada com o cuidado de poder ser facilmente transformada numa fortaleza inexpugnável em caso de invasão pelas tropas imperialistas da Nato.

A sua arquitectura majestosa impressiona, mas é curiosa aos olhos de um leigo como eu a grande afinidade que liga o gosto nazi, soviético e do Estado Novo português.

A entrada do Parque Gorki, em Moscovo, o que resta da arquitectura nazi, em Berlim, o Palácio da Justiça, do Porto,  e Nowa Huta, em Cracóvia,  apresentam-se perante os meus olhos como variantes de uma mesma escola de arquitectura.

Já a arquitectura fascista (estou a lembrar-me por exemplo da estação Termini, em Roma), apesar de comungar do mesmo gosto pela imponência e grandiosa monumentalidade, deixa-nos ficar na boca um sabor bem mais moderno e atraente.

Aspecto de Nowa Huta

 

(continua)

 

música: Words, Christians
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Piotr Ozanski, furioso assentador de tijolos

Piotr Ozanski, num retrato feito em 1950 por Erwin Czerwenka

À epopeia da construção da proletária Nowa Huta não podia faltar um herói stakhanovista, a patranha inventada pelos soviéticos para tentar convencer o pessoal a matar-se a trabalhar – e, ainda, compor, para consumo externo, a imagem da URSS como um paraíso socialista (cruzes canhoto!).

Mal comparado, o stakhanovismo é uma espécie de fenómeno do Entroncamento (1) à moda soviética.

Alexey Grigoryevich Stakhanov, o herói acidental escolhido pelo regime soviético para glorificar o trabalho, tinha 29 anos e era mineiro na obscura localidade de Kradiyivka, no Leste da Ucrânia, quando emergiu do anonimato directamente para a capa da Time Magazine de 16 de Dezembro de 1935.

Este salto gigantesco, bem maior do que o que valeu a medalha de Ouro a Nélson Évora nos Jogos Olímpicos de Pequim, deve-se ao facto de lhe ter sido creditada a extracção de 102 toneladas de carvão em 5h45 minutos, ultrapassando em 14 vezes a quota fixada pelos planificadores.

O nosso Stakhanov não se ficou por aqui. Nestes casos, convém sempre haver uma confirmação – reparem que, em Fátima, a Virgem Maria não se limitou a aparecer uma vez aos pastorinhos.

Um pouco mais tarde, o herói soviético da batalha da produção atirou-se para o chão (com isto quero dizer que se esmerou), e a acreditar na propaganda do PCUS (2) terá extraído 227 toneladas num só turno!

Para ele foi melhor que lhe ter saído o jackpot no Euromilhões. Rapidamente foi promovido a engenheiro, passou a dirigir minas (o que, convenhamos é muitísimo melhor do que escavá-las), libertou-se da lei da morte dando o nome à cidade que foi o cenário das suas alegadas proezas (Kadiyiva foi rebaptizada Stakhanova), deu origem a um substantivo, recebeu numerosas condecorações (entre as quais duas ordens Lenine e uma da Ordem da Bandeira Vermelha), foi proclamado Herói Socialista do Trabalho e acabou deputado ao Soviete Supremo.

Que mais um homem pode ambicionar na vida?

Pois, na construção de Nowa Huta, foi solicitado aos polacos que arranjassem um herói stakhanovista e o feliz contemplado foi Piotr Ozanski, a quem foi creditada a façanha de ter assente 33 mil tijolos num dia.

Basta seguir o sábio conselho do camarada Guterres para verificar que é peta. Mesmo que o Piotr tivesse assente tijolos durante 24 horas seguidas, isso equivaleria a 1.375 tijolos por hora e a 23 tijolos por minutos. Até me apetece dizer uma asneira (3).  

O camarada Stakhanov em plena acção

 

(continua)

………….

(1) Nos anos 50 e 60, os correspondentes do Século e Diário de Notícias no Entroncamento rivalizavam na apresentação aos leitores destes dois diários lisboetas de aberrações produzidas pela Natureza. A primeira destas aberrações terá sido uma abóbora com mais de 50 quilos que um comerciante local expôs na montra da sua loja. A partir daí foi sempre a subir e a delirar. Pepinos gigantes, galinhas com duas cabeças, tomates descomunais geminados – e assim por diante.

 

(2) Para os mais esquecidos e mais novo recordo que PCUS são as iniciais de Partido Comunista da União Soviética, a denominação que após a revolução de Outubro foi dada ao partido bolchevique.

 

(3) O Piotr Ozanski que vá assentar tijolos para o caralho!

 

música: Sweet about me, Gabriella Cilmi
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Como o valoroso camarada Stalin fracassou com estrondo na árdua tarefa de selar a vaca polaca

O camarada Staline entre os membros do grupo folclórico Mazowsze, um belo exemplar do socialismo realista, esta pintura quadro de B.Borowski (1953)

Não é preciso ir à Polónia e passar dois meses a escrever, todos os dias, da viagem para perceber que os polacos estiveram para os comunistas soviéticos da mesma maneira que os gauleses irredutíveis para os romanos.

Se olharmos com alguma liberdade artística para a figura de Lech Walesa, poderemos até detectar uma data de parecenças físicas (a começar pelo bigode e ar bonacheirão) entre o herói do Solidarinosci e os pândegos Astérix e Obélix em boa hora inventados pelo Goscinny – e em má hora ressuscitados pelo seu colega Uderzo.

Se a aldeia no Norte da Gália, povoada por irredutíveis gauleses resistiu à romanização e às legiões de Júlio César com a ajuda da poção mágica produzida pelo druida Panoramix, os polacos resistiram à sovietização e às legiões de Stalin com a ajuda do ópio do povo – a religião católica.

Os gauleses empaturravam-se em poção mágica. Os polacos em missinhas. O resultado final revelou-se descoroçoante para o invasor, ao ponto do camarada Stalin (também ele proprietário de uma imponente bigodaça) ter dito que implantar o comunismo na Polónia era muito mais difícil do que por uma sela numa vaca.

O fracasso do Zé dos Bigodes na tarefa de selar a vaca polaca é particularmente visível no episódio da igreja de Nowa Huta (1).

Desconfiado (e com razão) da intelectualidade burguesa de Cracóvia, o Governo pró-soviético instalado em Varsóvia no pós-guerra logo tratou de mandar fazer ao lado uma cidade proletária, baptizada de Nowa Huta.

A decisão foi tomada a 17 de Maio de 1947, e logo começou a ganhar forma a nova cidade concebida para ser um modelo de realismo socialista a mostrar ao mundo, a ser o contraponto proletário e ateu à Cracóvia intelectual e católica.

A cidade, projectada para albergar cem mil pessoas, engoliu os melhores terrenos agrícolas dos arredores de Cracóvia a que está umbilicalmente ligada por uma linha de eléctrico.

A sua construção estava destinada a ser cantada como exemplo e cumpriu esse seu destino, apesar das histórias relativas ao facto de na pressa de ter a cidade pronta os corpos dos operários mortos durante a gigantesca empreitada terem ficado sepultados nas fundações –  uma solução que, convenhamos, tem tanto de cínica como de prática.

A 23 de Junho de 1949, era inaugurado, com a pompa adequada à circunstância, o primeiro bloco residencial de Nowa Huta.

 

Arka Pana, a igreja de Nowa Huta

(continua)

 

…………………

(1) Desenhada para ser um bastião proletário, Nowa Huta tornou-se rapidamente um covil anti-comunista. A primeira grande reivindicação dos seus habitantes foi a construção de uma igreja – que as autoridades não tiveram outro remédio senão ceder. A igreja de Arka Pana lá está a recordar o fracasso de Stalin em Nova Hutta.

 

música: Around the world, Silver Pozoli
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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