Segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Passeio no Campo Alegre com Groucho na cabeça

 

“Não posso ser sócio de um clube que me aceite como sócio” é um das frases mais conhecidas do baú de humor marxista (tendência Groucho), onde estão arrumadas algumas pérolas que não resisto a partilhar como os preclaros, como

 “Nunca esqueço uma cara, mas no teu caso abro uma excepção”

e

“O meu cliente tem ar de imbecil, mas desconfiem das aparências, ele é mesmo imbecil”

ou, ainda, este fabuloso diálogo, mantido com um dos irmãos que falava:

- Olha, o homem do lixo está a bater à porta...

- Diz-lhe que não queremos lixo nenhum!

Desenterrei estes pedacinhos a propósito de uma das coisas que me faz gostar da rua do Campo Alegre, que é precisamente o Circulo Universitário do Porto, um clube de que eu adorava ser sócio mas que não me pode aceitar como sócio porque a admissão está restrita a professores da Universidade do Porto (UP) e eu não passo de um reles jornalista biscateiro.

 

4.     O Círculo Universitário do Porto é um belo palacete romântico do século XIX,  que foi conhecido como a Casa Primo Madeira, o nome do seu proprietário após uma profunda remodelação levada a cabo pelo arquitecto Marques da Silva.

 

Quando passou para a posse da UP, a reitoria encomendou o restauro ao arquitecto Fernando Távora.

 

Ou seja, dois dos maiores arquitectos da cidade deixaram as suas impressões digitais neste palacete transformado num clube restrito, onde jantei por diversas vezes como convidado, e que além de servir refeições, também recebe festas e disponibiliza alojamento.

 

A qualidade do edifício foi reconhecida pela Câmara Municipal, que em 1990, lhe atribuiu o Prémio João Almada (o equivalente portuense ao lisboeta Valmor). 

Não fui testemunha, nem auricular nem ocular, da melhor história que conheço, tendo como cenário o Circulo Universitário do Porto, que me foi contada pelo seu protagonista, Daniel Bessa, tem a ver com arroz de pato, contempla de raspão a fonice de Braga da Cruz e cruza com a actualidade já que se situa na proto-história do investimento na Quimonda.

 

Acho que, enquanto a situação dos meus pneus dianteiros se mantém estacionária, esta história vale bem um intervalo no enunciar da lista de razões porque gosto da rua do Campo Alegre.

 

(continua)

música: Sinfonia Novo Mundo, Dvorak
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Sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Três razões para gostar do Campo Alegre

Os afazeres derivados desta minha vida de jornalista biscateiro ocupam-me mais tempo do que deviam, pelo que se escoou mais uma semana sem que eu conseguisse arranjar tempo (estive de 3ª de manhã até 5ª à noite em Lisboa) para ir à oficina da Pneus Ramalhão (que está fechada ao sábado e domingo) trocar de lado os pneus da frente para ver se é desta que o meu carro deixa de inclinar para a direita.

Como o Caso do Pneu Estraçalhado parece contaminado pela morosidade da Operação Furacão, aproveito a pausa para vos falar do Campo Alegre e das razões (enunciadas no sentido Lordelo-Praça da Galiza) que me levam a gostar muito desta rua:

1.     A Garrafeira do Campo Alegre é muito porreira e foi preciso vir um gajo de Lisboa para lhe dar publicamente o devido valor. Estou a referir-me ao MEC, que assinou em tempos idos, no DNA (um magnífico suplemento que a direcção do DN decidiu descontinuar, em hora menos feliz), um justo elogio desta garrafeira, que está encaixilhado, em papel já amarelecido, junto ao balcão. Por razões de força maior, o Miguel está agora circunscrito a uma dose diária de ginjinha, que usa à noite, antes de se sentar ao computador a escrever (ele é biscateiro como eu), mas nos seus tempos mais gloriosos era um avisado conhecedor e forte consumidor e de vários tipos de álcoois;

 

2.     O Jardim Botânico , com os seus liquidambares, faias, sobreiros, tílias, carvalhos e ofícios correlativos, é um local de que guardo, desde o tempo da faculdade (a FLUP ficava mesmo ali ao lado) gratas recordações, principalmente das margens do laguinho dos nenúfares. Acresce que o jardim está instalado na casa que foi habitada por dois nomes grandes da nossa literatura: Sophia e Ruben A – um tipo que intitula a sua autobiografia “O Mundo à minha procura” e que fez um strip tease integral num museu grego, porque não se sentia bem vestido no meio daquelas belíssimas estátuas nuas, só pode merecer as nossas mais elevadas estima, consideração e admiração;

 

3.     A Confeitaria Botânica é uma das minhas esplanadas preferidas por razões de índole geo-estratégica. Comecei a frequentá-la quando andava em Letras (a faculdade ficava mesmo em frente) e mantenho-me freguês entre outras coisas porque o facto de estar a coberto de uma arcada a torna utilizável mesmo em dias de chuva;

 

(continua)

música: Any time at all, Beatles
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Quinta-feira, 5 de Novembro de 2009

Disfarcei-me de dr House e falhei redondamente

Aspecto actual da minha Fiat Marea, que comprei quando a administração do Expresso não aprovou a recomendação da direcção editorial de me oferecer a Renault Espace azul que me tinha sido atribuída por eu o responsável pelo escritório no Porto daquele semanário

Apesar de ter as suas patas dianteiras calçadas com dois novos pneus usados, adquiridos na Pneus Ramalhão por 44 euros (soma que considerei muito em conta), a minha carrinha Fiat Marea cinzenta, com matrícula do ano em que o Porto foi Capital Europeia da Cultura (e que foi a verdadeira e anunciada odisseia no espaço), descaía para a direita, o que me incomodava seriamente a mim que tenho o coração à esquerda, como aliás estou em crer sucede com a generalidade das pessoas.

Apesar da minha completa e absoluta ignorância em matéria de pneus, aventurei-me a fazer de dr House e diagnostiquei duas eventualidades:

a)    O novo pneu usado da frente do lado direito estava com pressão inferior ao seu homólogo do lado esquerdo;

 

b)    A minha direcção tinha ficado desalinhada durante a emboscada ocorrida no Passeio Alegre, quando, ao cair da noite, um buraco (que a preclara Miou Miou diligentemente baptizou de Buraco do Fiel) matou o meu pneu da frente do lado direito e feriu gravemente a respectiva jante.

Precipitei-me em direcção à Pneus Ramalhão, onde relatei objectivamente a tendência direitista evidenciada pelo meu carro e confiei as duas causas possíveis para esse lamentável comportamento.

A hipótese de pressão desigual foi logo despistada. Seguiu-se a operação computadorizada e algo demorada de verificação do alinhamento da direcção.

No final, o cavalheiro da oficina trazia na cara o ar intrigado de quem está a pensar hmmmmmmmmm. A direcção estava desalinhada apenas  três milímetros. Não tinha a certeza sobre se era a causa do descaimento para a direita do carro. Que eu experimentasse. No caso dele teimar nas tendências direitistas, que o trouxesse de novo à oficina e ele procederia à troca dos pneus da frente. Como eram usados, podia ser que o da esquerda estivesse habituado a andar na direita e vice-versa - e estivesse aqui a raiz  de todos os males.  

Fui ter com a Maria João, perguntando-lhe se lhe devia alguma coisa, alimentando secretamente a esperança de que o alinhamento fosse de borla. Vã esperança. Doce engano. Levou-me 15 euros e, ao ver a minha surpresa, acrescentou que era barato, e que se se eu tivesse de trocar os pneus não me levaria nada.

De volta ao Campo Alegre, a carrinha mantinha o maldito hábito de inclinar para a direita.  A conta do caso do pneu assassinado no Passeio Alegre já se elevava a 59 euros e o dossiê ainda não tinha sido encerrado. Safa, Safa, como diria o Cavaco.

(continua)

música: Leaving las Vegas, Ben & Sera Theme
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Quarta-feira, 4 de Novembro de 2009

Operação Pneu Estraçalhado continua em aberto

Aspecto parcial do meu novo pneu usado dianteiro do lado direito e da respectiva jante, após ter sido vigorosamente desempanada

Como presumo que devem estar lembrados, saí dos Pneus Ramalhão todo satisfeito por ter (aparentemente) resolvido o problema do miserável homicídio do meu pneu dianteiro do lado direito, através da aquisição de dois pneus usados, por 44 euros, soma em que se incluía o pagamento pela desempanagem da jante.

Muito infelizmente, na descida da rua Campo Alegre em direcção a Lordelo, sempre que eu largava as mãos do volante, a minha carrinha Fiat Marea descaia perigosamente para a direita, o que me deixou seriamente preocupado, tanto mais que nas últimas legislativas, naquele momento solitário em que estamos escondidos numa cabina, com uma Muji de cor roxa na mão e o boletim de voto ainda virgem à frente, a única dúvida que me atravessou o espírito foi a de decidir se punha a cruz no quadradinho do PS ou no do Bloco de Esquerda.

Já era fim de tarde e como estava bastante trânsito, achei por bem não retornar à Pneus Ramalhão (que, segundo creio, fecha às 18h30) e encaminhei-me para casa, desanimado. Afinal não ia poder riscar o item pneu da lista de Tarefas do meu Outlook.

A operação Pneu Estraçalhado continuava em aberto, tal como a operações Furacão, Portucale, Submarinos, Face Oculta, Freeport, etc. Não sei porquê, mas só me vinha à memória a imagem de Cavaco, a dizer: “Safa, safa!” .

(continua)

música: Tuning my guitar, Melanie
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Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A história da minha vida condensada num episódio

Aspecto nocturno do meu LG que pesa tanto como o antigo HP e tem ainda menos autonomia

A culpa é minha. Eu tinha a obrigação de ter percebido logo que não era assim, com aquela facilidade toda que, pagando 44 euros por dois pneus usados, que eu iria resolver o drama induzido pelo homicídio cometido na pessoa do pneu dianteiro do lado direito por um malévolo buraco, implantado no pavimento da rua do Passeio Alegre – e que tem sido aqui referido como o Buraco do Fiel, após eu ter acolhido a amável sugestão feita nesse sentido pela preclara Miou Miou.

Eu  teimo em continuar a ser optimista e a não olhar para os dois lados antes de atravessar uma rua de sentido único, mas não me posso esquecer que a história da minha vida se pode condensar no episódio da compra do LG cujas teclas estou a martelar neste momento.

Antes do LG, tinha um HP que se portou à altura durante três anos, após o que começou a evidenciar preocupantes sinais de senilidade. De vez em quando, sem razão aparente, apagava-se por vontade própria, mandando para o galheiro o trabalho que eu estava a redigir e ainda não tinha sido gravado.

Como o HP se revelava cada vez mais temperamental (recusava-se arrancar logo de seguida aos trecos, solicitando um período de descanso após cada colapso) e  eu estava farto de andar a fazer save sempre que concluía uma frase, resolvi investir num novo portátil, antes que de eu próprio ter uma síncope, por contágio com o computador.

Neste doloroso transe, pedi ajuda a um amigo que tem uma empresa de material informático e que já me tinha vendido o HP, no entretanto precocemente acometido pelo Alzheimer dos computadores.

O M simpaticamente disponibilizou um dos seus funcionários para me aconselhar e ajudar neste melindroso momento, a quem eu expliquei que queria o seguinte:

1.     Como o HP estava doente, queria que vissem se era possível pô-lo bom de maneira a oferecê-lo ao meu filho Pedro;

 

2.     Que transferissem para o meu novo portátil os três anos de vida, em textos e fotografias, que estavam armazenados no disco do HP;

3.     O HP pesava quase três quilos e tinha três horas de autonomia. Eu gostava que o meu novo portátil tivesse mais autonomia e fosse mais leve.

Parti para o meu reequipamento informático com este caderno de encargos, que não me parece fosse ultra-ambicioso. O resultado final foi o seguinte:

1.     Não conseguiram recuperar nada do disco rígido do HP, que faleceu nas mãos dos funcionários da empresa do meu amigo, levando o que fiz durante três anos (sim, eu sou um incauto e não fazia backups);

 

2.     A HP carregou no preço para recondicionar o computador e equipá-lo com um disco novo;

 

3.     Comprei este LG que, apesar de muito simpático e de só desligar quando eu o mando, pesa os mesmos três quilos que o HP e tem menos autonomia (duas horas apenas).

Ora, um tipo a quem é capaz de acontecer isto, não se pode convencer que resolve o problema do falecimento de um pneu gastando apenas 44 euros (desempenagem da jante incluida) e numa só ida à oficina. Pensar isso era obviamente um doce engano que não tardaria a amargar.

(continua)

música: Tell me why, The Beatles
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Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

Ninguém me dá dez mil euros em notas ao almoço

Aspecto exterior dos Pneus Ramalhão, na rua do Campo Alegre

Tremi todo cá por dentro no momento em que a Maria José (1) me informou que tinha sido descontinuada a produção do modelo de pneu Michelin cobardemente assassinado pelo Buraco do Fiel, que se situa algures na rua do Passeio Alegre, um pouco depois do Chalet Suisso e do Augusto, para quem segue em direcção à ponte da Arrábida.

Pela minha cara, a Maria João (que além de despachada e simpática, também deve ser uma fina observadora) logo percebeu que eu, lamentavelmente, não fazia parte da lista dos tipos a quem o sucateiro de Ovar dava dez mil euros em notas sempre que almoçavam com ele.

Por isso, e como eu precisava não de um mas de dois pneus, logo percebeu que o melhor que havia a fazer era procurar uma situação mais económica do que a oferecida pela Michelin, e pediu a um dos seus colaboradores que indagasse sobre se haveria ou não disponíveis um par de pneus da marca Eurotyphoon, compatíveis com a minha carrinha Fiat Marea, de cor cinzento rato, que gasta dez litros aos 100 e completará dez Primaveras em Março de 2011.

Havia os pneus baratos, mas mesmo assim a conta situava-se claramente nos três dígitos, creio que 166 euros, o que me pareceu muito dinheiro - reparem que não disse caro, mas apenas muito dinheiro.

Custa-me imenso gastar mais dinheiro a calçar a minha Marea do que os meus próprios pés. Por 120 euros compro uns Citywalker da Ecco que me proporcionam um andar confortável e seguro durante cinco anos, no mínimo. Ora para calçar a carrinha, não com uns pneus topo de gama (como são os sapatos Ecco) mas de uma marca para tesos, teria de gastar quase o triplo – pois enquanto eu assento em apenas dois pés, a Marea tem quatro rodas.

Enquanto, o meu cérebro processava este raciocínio, a minha cara devia evidenciar um tal estado de infelicidade, que a Maria João, prontamente seguiu para o Plano C, o adequado a pelintras. Eu disse logo que sim quando ela me perguntou se eu estaria eventualmente interessado em que ela visse se tinha um par de pneus usados que me resolvesse o assunto.

A coisa começou a compor-se. Nem tudo pode correr sempre mal. Sempre havia o tal par de pneus usados e a festa ficava-me por 44 euros (incluida a desempanagem da jante). ‘Bora aí, disse eu, mas logo fiquei a pensar que para exteriorizar a minha satisfação por manter a solução abaixo dos 50 euros teria sido mais adequado soltar uma frase de mais efeito, do estilo: “Fogo à peça!”.

(continua)

 

(1)              Afinal, de acordo com a prestimosa informação providenciada pelo preclaro Barba Azul, a Maria José (pseudónimo atribuído aleatoriamente por mim) chama-se Maria João, nome porque doravante será aqui tratada, na prossecução da política de rigor e de dar o seu a seu dono que caracteriza esta Lavandaria

música: I should have known better, The Beatles
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Sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

A tenebrosa passagem ao plural do meu problema

Lenine podia ter muito defeitos (certamente os tinha, a Krupskaya que o diga), mas todos temos de reconhecer que foi muito judiciosa a sua escolha do título – Que Fazer? – para o livro que escreveu entre Outubro de 1901 e Fevereiro de 1902, onde procedeu a uma oportuna reflexão sobre as questões palpitantes que afectavam o movimento social democrata russo e só se viriam a clarificar com a posterior cisão entre mencheviques e bolcheviques.

Quando, na penumbra do interior da ampla oficina dos Pneus Ranalhão, à rua do Campo Alegre, foi pronunciada a morte do meu pneu dianteiro do lado direito (alvo de um atentado pormenorizadamente descrito em posts anteriores) achei que seria apropriado citar Lenine e perguntar o que fazer à mulher alta, sólida e despachada (mas com um espaço a separar-lhe os dois dentes da frente, do maxilar superior), que dirige o negócio e cujo nome desconheço, mas que por comodidade, passarei a designar por Maria José Ramalhão.

Preparei-me para o pior e fiz muito bem, porque veio o pior em mais uma demonstração da triste e fatal sabedoria encerrada pela na lei de Murphy – se uma coisa pode correr mal, pode estar certo que vai mesmo correr mal.

O pneu morto, apesar da fidalguia da marca (Michelin) tinha deixado de ser fabricado, pelo que eu precisava de adquirir não um mas sim dois pneus.

Não é preciso ser bruxo, um Einstein ou até mesmo fazer parte do lucrativo quarteto dos impagáveis Gatos Fedorentos, para perceber logo, ali naquele preciso momento e à primeira, que a passagem do meu problema para o plural, de pneu para pneus, iria atentar severamente, de forma indelével e irreversível, contra o já depauperado  estado das minhas finanças de jornalista biscateiro.

(continua)

música: Night comes on, Leonard Cohen
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Quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

O pneu que falhou a Ressurreição ao Terceiro Dia

Apesar de suspeitar que já nada haveria a fazer pelo meu pobre pneu dianteiro do lado direito, vítima de um atentado que presumia ser letal, cometido por um buraco na rua do Passeio Alegre (que a simpática Miou Miou sugere doravante passe a ser conhecido por Buraco Fiel), eu esperei pacientemente três dias, com ele arrumado na mala, na vã esperança que 2009 anos depois se repetisse o milagre da Ressurreição. A fé deve ser a última coisa a perder - e pode mover montanhas mas não devolve a vida a pneus estraçalhados, como eu acabaria amargamente por constatar.

Durante os três dias em que rodei com o magro pneu sobresselente (que ostenta um enorme autocolante cor de laranja que nos avisa ser perigoso andar com ele a mais de 80 km/hora) tive tempo para pensar a que oficina me deveria dirigir para tentar encontrar uma solução para o problema.

Hesitei entre a Norauto (tenho a ideia de que oferece um serviço barato e eficiente) e a Pneus Ramalhão. Optei por esta última hipótese, pelas seguintes quatro ordens de razões:

a)    Patrióticas: a Pneus Ramalhão é portuguesa e a Norauto é francesa;

 

b)    Políticas; após uma campanha eleitoral em que todos os partidos, sem excepção, defenderam apoios às micro. pequenas e médias empresas julguei mais adequado recorrer a uma empresa desta categoria do que a uma gigantesca multinacional;

 

c)     Toponímicas; a infausta ocorrência que vitimou o meu pneu dianteiro, do lado direito, da minha carrinha Fiat Marea, teve lugar na rua do Passeio Alegre, e a Pneus Ramalhão está instalada na rua do Campo Alegre. Achei que esta alegre coincidência poderia ser um sinal divino;

 

d)   Proximidade; a Pneus Ranalhão não só fica muito mais perto de minha casa do que a Norauto, como ainda por cima situa-se a escassas centenas de metros na Botânica, uma das minhas esplanadas preferidas, onde calculei que poderia montar escritório enquanto me tratavam do pneu.

Posto isto, dirigi-me à Pneus Ramalhão onde fui bem recebido, mas logo desenganado. Emitiram a certidão de óbito mal olharam para o pneu acidentado. O milagre ocorrido com Jesus Cristo, que segundo as Escrituras ressuscitou ao Terceiro Dia, não se ia repetir com o meu pneu. 

Senti logo ali, naquele preciso momento, que o meu calvário estava longe de estar terminado.

(continua)

música: But I might die tonight, Cat Stevens
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Quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

Ficamos com as mãos sujas após mudar um pneu

A escolha da fotografia de Jean Paul Sartre para ilustrar este post representa uma tentativa de emprestar alguma densidade intelectual a esta narração, idiota e em fascículos, dos dramas que ainda afectam a minha vida por causa de um pneu furado. O pretexto para a usurpação da imagem do inventor do existencialismo é o facto de ter ficado com as mãos sujas após ter mudado o pneu -  uma piscadela de olhos, portanto, a Les Mains Sales (1948), onde o filósofo francês defende o engajamento político dos intelectuais

Costuma dizer-se que o tempo é dinheiro (do inglês “time is money”) e isso é, com toda a certeza, verdade. Mas esta minha odisseia do pneu e jante assassinados por um buraco anónimo (que a preclara Miou Miou sugere, simpaticamente, que perca essa condição e passe a ser cognominado o Buraco Fiel) veio demonstrar que a informação pode ser tão valiosa como o tempo. Ou seja, informação é dinheiro.

Como presumo estão recordados, deixei a carrinha Fiat posta em sossego, em frente à porta da minha garagem, e só lhe voltei a pegar alguns dias depois, para levar o João à escola de futebol Hernâni Gonçalves, onde ele treina no lugar de defesa central, convencido que um dia o FC Porto vai conseguir transaccionar o seu passe por 30 milhões de euros, como fez com o Pepe e o Ricardo Carvalho.

Neste interim, um vizinho amigo e observador reparou que o meu pneu dianteiro do lado direito estava totalmente em baixo e diligentemente comunicou o facto a uma pessoa lá de casa.

Sucede que a pessoa (que, nem que me torturem, confessarei que tem 17 anos e o seu nome começa por C) que recebeu essa preciosa informação se esqueceu de a comunicar ao interessado (eu).

Resultado deste esquecimento? Ao rodar com o pneu vazio entre a avenida da Boavista e a Damião de Góis dei o golpe de misericórdia no pobrezinho.

No trajecto, constatei que o carro se inclinava tão perigosamente para a direita como o BNP (aquele novo partido inglês de extrema direita que não aceita a inscrição de pretos e que as sondagens dão como recolhendo 22% das intenções de voto), mas como estava atrasado só quando parei à porta da escola de futebol, onde constatei tristemente que o pneu estava completamente estraçalhado – e que nem com a ajuda de um desfibrilhador eu seria capaz de o ressuscitar.

Fui à mala, extrai o macaco e o pneu de reserva, e meti as mãos à tarefa de mudar o pneu. No final, tinha as mãos sujas. Enquanto as lavava, passaram-me pela cabeça os nomes de Sartre e de Judas.

(continua)

música: Rezo pela força do Amor, Bortnianski
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Terça-feira, 27 de Outubro de 2009

De noite todos os pneus parecem cheios

Tive um problema com um pneu. Refiro-me a um pneu pneu, de marca  Michelin, e não aquela inestética camada de adiposidade que se acumula à volta da minha cintura.

Estou a falar-vos do pneu da frente do lado direito da minha carrinha Fiat Marea e da respectiva jante, que não conseguiram recuperar da agressão que lhes foi perpretada por um buraco anónimo – a este propósito, vou já acrescentar à lista de Tarefas do Outlook uma lembrança para ligar ao meu preclaro amigo Germano Silva, que integra a Comissão de Toponímia do Porto, sugerindo-lhe que passem também a baptizar os buracos mais conhecidos das ruas com o nome de figuras e acontecimentos relevantes da cidade, uma vez que isso facilitaria a troca de opiniões e permitiria até a elaboração de um mapa.

Estava eu a dizer que após ter sido atropelado por um buraco, algures no Passeio Alegre, notei que o Fiat começava a descair para a direita, o que é sempre extremamente perigoso.

Como fiquei preocupado com esta tendência direitista do Fiat, logo que pude parei o carro para proceder a uma inspecção sumária.

Uma breve vista de olhos ao estado do pneu, acompanhada do proverbial pontapé aplicado com a biqueira do sapato, não me permitiu detectar qualquer anormalidade, o que me leva a concluir que, das duas uma, ou sou mais nabo do que era preciso nesta matéria ou então há que pegar no velho provérbio “de noite todos os gatos são pardos” e adaptá-lo aos tempos modernos da seguinte maneira: “de noite todos os pneus parecem cheios”.

E continuei a guiar em direcção a casa, onde estacionei o carro e não mais lhe liguei ao assunto.

(continua)

música: Lady Madonna, Beatles
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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