Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

O estranho caso do rapto da estátua do camarada Vladimir Ilitch Lenine em Strzelecki Park

O Voto, de Wlodzmierz Siwierski. Apesar dos esforços do POUP, os cidadãos da Nowa Huta não substituíram o catolicismo pela nova religião

As contas de fazer de Nowa Huta o coração proletário do POUP (1) saíram completamente furadas à clique estalinista instalada em Varsóvia.

A Siderurgia Lenine, começada a construir em 1950, já deitava fumo em 1954, ano em que foi inaugurada com a solenidade devida a uma grande realização socialista – era o maior forno da Europa, com capacidade para produzir sete milhões de toneladas de aço por ano e empregava 40 mil pessoas.

A reputação internacional da Siderurgia Lenine era tal, que quando foi à Polónia, Fidel Castro preferiu visitá-la a ir dar uma espreitadela Rynek Glówny de Cracóvia, uma das mais deslumbrantes praças do Mundo, o que, diga-se de passagem, não abona nada a favor do velho barbudo.

Sucede que a Siderurgia se tornou numa praça forte do sindicato oposicionista Solidarinosci e que os operários e seus familiares  rapidamente se transformaram numa pedra no sapato dosdirigenets do POUP.

Como se não bastassem as recorrentes movimentações a favor da construção de uma cidade que era suposto ser o coração do ateísmo polaco, os habitantes de Nowa Huta divertiam-se a pregar partidas às estátuas de Lenine colocadas em Strzelecki Park.

A primeira desapareceu, em circunstâncias nunca totalmente esclarecidas (o que vale dizer que se foi raptada a verdade é que os autores da façanha nunca se deram ao trabalho de exigiram resgate).

A segunda foi alvo de inúmeros actos de vandalismo, um dos quais fatal para o autor (morreu na explosão prematura da bomba que lá estava a colocar), até ser empacotada e guardada num armazém, na sequência da queda do Muro de Berlim.

Mas ao contrário do que seria de supor, a estátua não encontrou finalmente o sossego. Um empresário sueco soube do seu paradeiro e comprou-a às autoridades polacas por cem mil coroas para a instalar num local público em Estocolmo, onde está disponível para intervenções de jovens artistas, que entre outras coisas já fizeram alguns piercings ao camarada Lenine.

Os habitantes de Nowa Huta habituaram-se a não dar troco nem aos fundadores da cidade, nem ao regime que lhes sucedeu. A praça central chamava-se praça Stalin. Em 2004 foi rebaptizada Ronald Reagan. Eles sempre a conheceram pelo mesmo nome – Centralny.

 

Inauguração, em 1954, da Siderurgia Lenine, em Nowa Huta

(continua)  

 ……………..

(1) Para os mais esquecidos e mais novos ,recordo que POUP são as iniciais do Partido Operário Unificado Polaco, o nome por que respondia o partido comunista pró-soviético polaco.

 

música: Help, Beatles
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Quinta-feira, 27 de Novembro de 2008

Uma fortaleza chamada Nowa Huta

O desenho de Nowa Huta, projectada para facilmente se transformar numa fortaleza inexpugnável

O capitalismo planificou, a partir do zero, cidades como Brasília e Camberra, concebidas para serem as capitais dos respectivos países. Já fui a Camberra (e gostei) e nunca fui a Brasília (mas gostava muito de lá ir)

O comunismo, versão URSS, planificou, a partir do zero, cidades como Nowa Huta e  Magnitogorsk (nos Montes Urais) para glorificar, "urbi et orbi", a superioridade socialista. Já fui a Nowa Hutta (e achei piada, a mesma piada que acho quando vou ao Jardim Zoológico) e nunca fui a Magnitogorsk (e não faz parte dos meus planos ir lá).

Nowa Huta é duplamente bastarda. É uma filha bastarda do pós guerra e de Cracóvia. Como nada me move contra os bastardos, investi uma tarde da minha estadia na terra dos polacos a visitá-la.

Não me arrependi, se bem que não tenho a certeza se, depois da noite cair, seria muito seguro andar a passear-me pelas suas avenidas largas e densamente arborizadas.

A cidade ideal para os comunistas polacos, foi desenhada a pensar num eventual aquecimento da Guerra Fria e daí a largura dos seus arruamentos (que visava impedir o alastramento de incêndios provocados por bombardeamentos) e a imensa arborização (que visava absorver parcialmente os danos de uma explosão nuclear).

Destinada a ser uma amostra da nova cidade socialista, Nowa Huta foi desenhada com o cuidado de poder ser facilmente transformada numa fortaleza inexpugnável em caso de invasão pelas tropas imperialistas da Nato.

A sua arquitectura majestosa impressiona, mas é curiosa aos olhos de um leigo como eu a grande afinidade que liga o gosto nazi, soviético e do Estado Novo português.

A entrada do Parque Gorki, em Moscovo, o que resta da arquitectura nazi, em Berlim, o Palácio da Justiça, do Porto,  e Nowa Huta, em Cracóvia,  apresentam-se perante os meus olhos como variantes de uma mesma escola de arquitectura.

Já a arquitectura fascista (estou a lembrar-me por exemplo da estação Termini, em Roma), apesar de comungar do mesmo gosto pela imponência e grandiosa monumentalidade, deixa-nos ficar na boca um sabor bem mais moderno e atraente.

Aspecto de Nowa Huta

 

(continua)

 

música: Words, Christians
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Quarta-feira, 26 de Novembro de 2008

Piotr Ozanski, furioso assentador de tijolos

Piotr Ozanski, num retrato feito em 1950 por Erwin Czerwenka

À epopeia da construção da proletária Nowa Huta não podia faltar um herói stakhanovista, a patranha inventada pelos soviéticos para tentar convencer o pessoal a matar-se a trabalhar – e, ainda, compor, para consumo externo, a imagem da URSS como um paraíso socialista (cruzes canhoto!).

Mal comparado, o stakhanovismo é uma espécie de fenómeno do Entroncamento (1) à moda soviética.

Alexey Grigoryevich Stakhanov, o herói acidental escolhido pelo regime soviético para glorificar o trabalho, tinha 29 anos e era mineiro na obscura localidade de Kradiyivka, no Leste da Ucrânia, quando emergiu do anonimato directamente para a capa da Time Magazine de 16 de Dezembro de 1935.

Este salto gigantesco, bem maior do que o que valeu a medalha de Ouro a Nélson Évora nos Jogos Olímpicos de Pequim, deve-se ao facto de lhe ter sido creditada a extracção de 102 toneladas de carvão em 5h45 minutos, ultrapassando em 14 vezes a quota fixada pelos planificadores.

O nosso Stakhanov não se ficou por aqui. Nestes casos, convém sempre haver uma confirmação – reparem que, em Fátima, a Virgem Maria não se limitou a aparecer uma vez aos pastorinhos.

Um pouco mais tarde, o herói soviético da batalha da produção atirou-se para o chão (com isto quero dizer que se esmerou), e a acreditar na propaganda do PCUS (2) terá extraído 227 toneladas num só turno!

Para ele foi melhor que lhe ter saído o jackpot no Euromilhões. Rapidamente foi promovido a engenheiro, passou a dirigir minas (o que, convenhamos é muitísimo melhor do que escavá-las), libertou-se da lei da morte dando o nome à cidade que foi o cenário das suas alegadas proezas (Kadiyiva foi rebaptizada Stakhanova), deu origem a um substantivo, recebeu numerosas condecorações (entre as quais duas ordens Lenine e uma da Ordem da Bandeira Vermelha), foi proclamado Herói Socialista do Trabalho e acabou deputado ao Soviete Supremo.

Que mais um homem pode ambicionar na vida?

Pois, na construção de Nowa Huta, foi solicitado aos polacos que arranjassem um herói stakhanovista e o feliz contemplado foi Piotr Ozanski, a quem foi creditada a façanha de ter assente 33 mil tijolos num dia.

Basta seguir o sábio conselho do camarada Guterres para verificar que é peta. Mesmo que o Piotr tivesse assente tijolos durante 24 horas seguidas, isso equivaleria a 1.375 tijolos por hora e a 23 tijolos por minutos. Até me apetece dizer uma asneira (3).  

O camarada Stakhanov em plena acção

 

(continua)

………….

(1) Nos anos 50 e 60, os correspondentes do Século e Diário de Notícias no Entroncamento rivalizavam na apresentação aos leitores destes dois diários lisboetas de aberrações produzidas pela Natureza. A primeira destas aberrações terá sido uma abóbora com mais de 50 quilos que um comerciante local expôs na montra da sua loja. A partir daí foi sempre a subir e a delirar. Pepinos gigantes, galinhas com duas cabeças, tomates descomunais geminados – e assim por diante.

 

(2) Para os mais esquecidos e mais novo recordo que PCUS são as iniciais de Partido Comunista da União Soviética, a denominação que após a revolução de Outubro foi dada ao partido bolchevique.

 

(3) O Piotr Ozanski que vá assentar tijolos para o caralho!

 

música: Sweet about me, Gabriella Cilmi
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Terça-feira, 25 de Novembro de 2008

Como o valoroso camarada Stalin fracassou com estrondo na árdua tarefa de selar a vaca polaca

O camarada Staline entre os membros do grupo folclórico Mazowsze, um belo exemplar do socialismo realista, esta pintura quadro de B.Borowski (1953)

Não é preciso ir à Polónia e passar dois meses a escrever, todos os dias, da viagem para perceber que os polacos estiveram para os comunistas soviéticos da mesma maneira que os gauleses irredutíveis para os romanos.

Se olharmos com alguma liberdade artística para a figura de Lech Walesa, poderemos até detectar uma data de parecenças físicas (a começar pelo bigode e ar bonacheirão) entre o herói do Solidarinosci e os pândegos Astérix e Obélix em boa hora inventados pelo Goscinny – e em má hora ressuscitados pelo seu colega Uderzo.

Se a aldeia no Norte da Gália, povoada por irredutíveis gauleses resistiu à romanização e às legiões de Júlio César com a ajuda da poção mágica produzida pelo druida Panoramix, os polacos resistiram à sovietização e às legiões de Stalin com a ajuda do ópio do povo – a religião católica.

Os gauleses empaturravam-se em poção mágica. Os polacos em missinhas. O resultado final revelou-se descoroçoante para o invasor, ao ponto do camarada Stalin (também ele proprietário de uma imponente bigodaça) ter dito que implantar o comunismo na Polónia era muito mais difícil do que por uma sela numa vaca.

O fracasso do Zé dos Bigodes na tarefa de selar a vaca polaca é particularmente visível no episódio da igreja de Nowa Huta (1).

Desconfiado (e com razão) da intelectualidade burguesa de Cracóvia, o Governo pró-soviético instalado em Varsóvia no pós-guerra logo tratou de mandar fazer ao lado uma cidade proletária, baptizada de Nowa Huta.

A decisão foi tomada a 17 de Maio de 1947, e logo começou a ganhar forma a nova cidade concebida para ser um modelo de realismo socialista a mostrar ao mundo, a ser o contraponto proletário e ateu à Cracóvia intelectual e católica.

A cidade, projectada para albergar cem mil pessoas, engoliu os melhores terrenos agrícolas dos arredores de Cracóvia a que está umbilicalmente ligada por uma linha de eléctrico.

A sua construção estava destinada a ser cantada como exemplo e cumpriu esse seu destino, apesar das histórias relativas ao facto de na pressa de ter a cidade pronta os corpos dos operários mortos durante a gigantesca empreitada terem ficado sepultados nas fundações –  uma solução que, convenhamos, tem tanto de cínica como de prática.

A 23 de Junho de 1949, era inaugurado, com a pompa adequada à circunstância, o primeiro bloco residencial de Nowa Huta.

 

Arka Pana, a igreja de Nowa Huta

(continua)

 

…………………

(1) Desenhada para ser um bastião proletário, Nowa Huta tornou-se rapidamente um covil anti-comunista. A primeira grande reivindicação dos seus habitantes foi a construção de uma igreja – que as autoridades não tiveram outro remédio senão ceder. A igreja de Arka Pana lá está a recordar o fracasso de Stalin em Nova Hutta.

 

música: Around the world, Silver Pozoli
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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