Sexta-feira, 10 de Setembro de 2010

Calor húmido só é bom quando se trata de quecas

Passar a terceira semana de Agosto em Las Vegas significa suportar temperaturas consistentemente superiores a 100º F (cerca de 38º C), um calor muito abafado e ainda mais seco que as piadas que Joaquim Oliveira generosamente distribuiu por conhecidos e amigos, via SMS.

A humidade é um valor muito importante em algumas situações bem específicas (como a queca), mas, do meu ponto de vista, é perfeitamente dispensável quando se trata da temperatura ambiente. Calor abrasador por calor abrasador prefiro o seco ao húmido – ao menos um tipo não anda a arrastar-se pelas ruas a suar como um porco (uma dia ainda hei-de tirar a limpo se os suínos suam…), com a camisa colada às costas e manchas a transbordarem do sovaco.

Do ponto de vista térmico, durante a minha estadia em Las Vegas habituei-me a saborear dois momentos felizes, a saber:

  1. A baforada de calor quente que apanhava quando emergia a tiritar do ar condicionado;
  2. Sentir o frio siberiano que vigora em todo os interiores da cidade do pecado (onde, juro-vos, nunca pequei), após uma caminhada pelas ruas da Strip com uma duração superior a cinco minutos.

Apesar de, por um motivo de força maior (ainda estão por descobrir as cápsulas para viajar no tempo), nunca ter estado em Las Vegas, Fernando Pessoa escreveu que nós nunca estaremos onde queremos, terrível verdade cantada por António variações no ocaso do século XX.

Ao fim e ao cabo, e pensando bem, este estado de insatisfação é outro aspecto da mensagem dos Rolling Stones em “(I can’t get no..) Satisfaction”. Mas o melhor é nunca desistir de tentar.

 

música: Satisfaction, Rolling Stones
publicado por Jorge Fiel às 20:32
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Terça-feira, 27 de Fevereiro de 2007

Como fazer um figurão no regresso de Las Vegas gastando apenas 3.98 dólares (mais taxas)

 

A minha vida é um livro aberto. Por isso, na hora da despedida de Las Vegas, deixo aqui aos meus amigos três boas sugestões para prendas baratas, mas de grande efeito, para trazerem para familiares, amigos e conhecidos, se um dia se sentirem tentados a visitar a capital do pecado.

 

Este gesto, de factura larga, pode acarretar-me sérios problemas pessoais. Apesar do carácter praticamente anónimo e clandestino deste blogue, não estou livre deste «post» ser lido por pessoas a quem eu trouxe algumas das prendas aqui descritas - e que elas fiquem muito aborrecidas ao tomarem conhecimento das rídiculas somas que eu gastei com elas.

 

Não importa. Acho que com esta atitude provo de forma inequivoca que a Roupa para Lavar presta um serviço público superior ao praticado pela Sic com a exibição da Floribella.

 

Ora vamos lá á sugestões:

 

a) Baralho de cartas: 99 cêntimos

 

As cartas usadas nos casinos são posteriormente vendidas um pouco por todo o lado a um preço bastante competitivo;

 

b) Fichas: um dólar

 

Há imitações das fichas usadas nos casinos. Mas não há nada que chegue à «real thing». Na minha opinião as fichas mais bonitas são as do Bellagio. Por um dólar obtem, legalmente, uma ficha de um dólar. Tão simples quanto isto;

 

c) Dados viciados: 1.99 USD

 

Em qualquer loja de recordações pode adquirir dois dados rigorosamente iguais aos dos casinos que se atiram e dão sempre 11 ou 7, que me parecem ser os números mágicos do jogo (ainda não consegui perceber as regras, se alguém sabe faça o favor de mas explicar, que eu agradeço..).  Isso é conseguido pelo facto de um dos dados ostentar o 5 em todas as faces, enquanto o outro tem duas hipóteses: 6 ou 2.

 

 

5ª FEIRA 15 FEVEREIRO

All my bags are packed I'm ready to go

 

Não é exactamente um momento perfeito, mas anda lá perto. São dez da manhã. O tempo está bestial. O Fevereiro de Las Vegas equivale aos nossos melhores dias de Primavera. Estou sentado na esplanada do Starbucks do Golden Nugget a beber um copo enorme («venti size», maior que o «tall» e o «grande») de «coffee of the day», que garantem ser da Etiópia.

 

O Starbucks é assim. Levam-nos 3.07 USD por um copo de café (2.85 a mercadoria mais 0.22 de taxas para o Estado de Nevada) mas deixam-nos de bem com a nossa consciência, pois vendem café de Timor e da Etiópia, o New York Times e CDs da Joni Mitchell e da Maggie Gyllenhaal. O Starbucks é um filho bastardo do fabuloso poema America, de Gingsberg («America, quando serás digna do teu milhão de trotskistas?»). O Festival de Sundance é um filho legítimo pois não tem fins lucrativos - não é um «rip off» (uma roubalheira) como o Starbucks.

 

Apesar de tudo, eu não acho o Starbucks caro. Depende. Se se compra o café para levar e beber na rua é mesmo uma roubalheira. Mas se se encara o preço do café como algo que inclui, para além so preço da bebida, o aluguer da mesa, que vamos ocupar pelo menos durante três horas, a ler American Express de Las Vegas, a pôr o email em dia (apagando todos os mails que nos prometem emagrecer enquanto dormimos, «enlarge your penis» ou que oferecem Viagra e Cialis a preços de saldo), pastar a paisagem, dar explicações de francês, ou galar a mãe ainda um pouco gorda mas mesmo assim apetitosa e sequiosa de atenção que empurra cadenciadamente o «side car» com um bebé de peito metido lá dentro (é claramente a mão que embala o berço...), bem, se se trata disto, então o preço pode não ser assim tão caro...

 

Passei o meu último dia em las Vegas na «Downtown», que exala um ar deliciosamente decadente e tem na Fremont Street, uma rua coberta, o seu centro de gravidade.

 

A Baixa, que também responde pelo nome de Glitter Gulch, atrai criaturas ainda mais bizarras do que a sua irmã (muito) mais nova, a Strip, reluzente e sem rugas nem cheiro a mofo.

 

Bebi um café na esplanada do Starbucks do Golden Nugget, a admirar a bela fachada do Binion's, o casino-hotel fundado em 1951 por Benny Binion, jogador de Dlaas e contrabandista, que recebe ainda hoje em dia alguns dos mais excicitantes torneios mundiais de poker.

 

A Fremont Street estava cheia pelo som de «Clocks», dos Coldplay, «Born in the USA», de Bruce Springsteen, e «With you or without you» dos U2, enquanto eu, sentado na esplanada do Starbucks do Golden Nugget, tentava decidir se estava ou não a viver um momento perfeito.

 

Almocei  por sete dólares uma sandes de pastrami e uma Bud Lite no Golden Gate, o herdeiro do Sal Sagev (Las Vegas escrita ao contrário) o primeiro casino de Las Vegas, que faz questão de ainda vender a 99 centims o seu «shrimp coctail» (se bem que disponibilize a versão «big» a uns mais actuais 2.99 USD).

 

Espiolhei as casa de penhores (Pawn) sem arranjar coragem para compra o ouro consumido pela voragem do jogo.

 

Adorei passear-me pelo interior da fantástica Main Station, a estação de caminho de ferro do século XIX que foi reconvertida no mais charmoso dos hotéis-casino da cidade.

 

Depois voltei ao Luxor. «All my bags are packed, I'm ready to go», como cantaram os Peter, Paul & Mary. Dei um dólar de gorjeta para resgatar a Samsonite cinzenta que comprei por cem dólares, em Seul, há quatro anos. Apanhei o Shuttle que me levou por 5.50 USD ao aeroporto (à chegada «tipei» o motorista com um dólar). E apanhei o voo da Continental para Nova Iorque.

A chave do meu quarto no Luxor
publicado por Jorge Fiel às 00:41
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Sábado, 24 de Fevereiro de 2007

Uma empregada de mesa chamada Sugar que é a rainha do karaoke

 

Neste momento já não tenho dúvidas. A frase «só visto, porque contado ninguém acredita» foi inventada por uma pessoa que foi a Las Vegas e precisava de relatar aos amigos a experiência.

 

Em mais nenhuma outra cidade do Mundo se pode estar no mesmo dia em Veneza, Nova Iorque e Paris. Ou jogar «caribeann poker» a menos dez metros de distância de um leão. Ou ser servido à mesa por uma empregada chamada Sugar que imita na perfeição Petula Clark em «Downtown».

 

Estou obviamente a falar-vos de uma cidade em que de meia em meia hora há um casamento - e um divórcio a cada 45 minutos. «At the end of the day», o balanço é positivo. Viva Las Vegas! 

 

 

3ª FEIRA 13 FEVEREIRO

Passar a tarde com os descendentes de Leo, o leão da MGM

 

Passei a manhã a ver montras nas estreitas ruas de Veneza, com os canais (350 metros deles) a serem permanentemente sulcados por gôndolas manobradas por incansáveis bardos com as camisolas às riscas. Almocei pizza num restaurante na Praça de S. Marcos. O fantástico de tudo isto é que nunca na minha vida pus os pés em Veneza. Fui apenas uma única vez a Itália (o que, eu sei, é lamentável) e não sai de Roma. Estava no Venetian, o hotel-casino ( ou será mais correcto escrever casino-hotel?) de Las Vegas que recria o ambiente da Sereníssima.

 

A seguir ao almoço apreciei os belos frescos (emoldurados a ouro, esta gente não brinca!) do tecto, os mármores, o magnífico desenho das carpetes, e dei uma saltada ao Guggenheim Hermitage, onde estava uma exposição de fotografias de Robert Mapplethorpe e de gravuras maneiristas. O matrimónio era atraente mas deu-me para a fonice e achei o preço da entrada excessivo (15 USD) pelo que me fiquei pela loja do museu. Mais depressa daria os 15 dólares para ver a exposição de fotogarfias do Ansel Adams que está no Bellagio e tem o título genérico America.

 

Não demorei mais de 15 minutos a viajar de Veneza até Nova Iorque, o casino-hotel (ou será mais adequado escrever hotel-casino?) que cometeu a fantástica proeza de reunir num só quarteirão a Estátua da Liberdade, o Empire State Building, a ponte de Brooklyn,  Chrysler Building e a famosa montanha russa Cyclone, de Coney Island, imortalizada por Woody Allen.

 

Em Las Vegas é assim mesmo. Uma pessoa tão depressa está em Nova Iorque, como resolve atravessar a Strip por uma passagem superior e entra no MGM Grand, o hotel-casino (vamos fixar-nos nesta formulação) que tem como principal atracção gratuita a sua colónia de leões - que convivem numa imensa sala com as roletas, as mesas de pano verde e as slot machines.

 

Juram que todos os leões, mais de 20, são todos eles descendentes do Leo, o famoso leão da Metro Goldwyn Meyer. Nesta visita aprendi uma data de coisas sobre leões. Que dormem entre 18 a 20 horas por dia. Que apenas passam 15 semanas na barriga da mãe (nós demoramo-nos por lá 39 semanas, em média). Que quando estão satisfeitos rosnam hummmm e purrrrrr - e esfregam a cabeça uns nos outros. Que o rugido deles se ouve a sete quilómetros de distância (ou seja na outra ponta da Strip).

 

Quem olha para os leões pensa logo na Roma antiga, onde os cristãos eram atirados às feras. Por isso, recuei no tempo até à Antiguidade Clássica. Fui jantar na esplanada do The Palms, no Caesers Palace, com vista para a Fontana de Trevi. Escolhi um Filet Migon de 14 onças, «rare», empurrado por dois copos de Marques de Riscal tinto. 45 USD.

 

 

4ª FEIRA 14 FEVEREIRO

Um bailado aquático com mil repuxos ao som de Pavarotti

 

Ernesto, o motorista preto do Strip Trollye, é senhor de um repertório de piadas bastante satisfatório. Quando aproveitava uma paragem no «Strip Loop» para se ausentar (presumivelmente para um xixi ou um cigarro) declarava à volta, com um ar divertido: «I'm black. And I'm back!».

 

Sempre que um casal se preparava para entrar no autocarro, com a senhora à frente como é dos livros, ele anunciava: «'Morning M'dam. Today we have a special. You don't pay. Your husband pays the double». E assim que terminava a risota regulamentar, atirava um «Happy Valentine!» (era o Dia dos Namorados) e oferecia à senhora um candy».

 

O motorista é um cromo, que sabe adoçar as longas paragens nos engarrafamentos ficcionando histórias sobre as suas quatro ex-mulheres que, diz ele, andam a dar a volta ao Mundo à custa dele, que anda a dar voltas à Strip para lhes pagar a ensão de alimentos - após o que fazia o inevitável trocadilho («alimoney» e «all the money»). Em Vegas, até os motoristas de autocarro têm de ter uma costela de «entertainers».

 

Almocei uma sanduiche de »turkey breast», com «swiss cheddar» derretido, acompanhada por «onion rings» e uma Bud lite, no Lucky's Café, o «diner» do Stratosphere. A empregada chamava-se Sugar e cantava como uma rainha. Um dos requisitos para arranjar emprego neste «diner» é ter talento para o canto, já que nos intervalos de servir à mesa os empregados passeiam-se pela sala, de microfone na mão, interpretando em karaoke grandes êxitos da pop e do rock.

 

Depois subi à torre do Stratosphere, o ponto mais alto de Las Vegas, onde se desfruta de uma formidável panorâmica da extensão da cidade que foi plantada no meio do deserto. De cortar a respiração era não só a vista mas também as diversões do tipo feira popular instaladas lá em cima, a 275 metros de altura.  A mais espectacular de todas era uma carruagem idêntica às da montanha russa que era lançada a alta velocidade, em plano inclinado, para o abismo, imobilizando-se depois, abruptamente, no vazio, seguindo-se um ligeiro deslizar que arranca o último grito das gargantas aterrorizadas dos imprudentes que se dispuserem a pagar para correrem o risco de sofrer um ataque cardíaco. Só de ver, a brincadeira metia medo.

 

O hotel-casino Alladinn (onde as Mil e uma Noites são o tema) oferece uma diversão bem menos radical e mais em conta (é de borla). Trata-se de um tempestade tropical que se realiza todas as horas certas num cruzamento da Desert Passage, talvez a galeria comercial mais interessante da cidade (há lá uma loja que vende, a 35 dólares, T Shirts de um verde magnífico, acompanhados de um certificado garantindo que a cor foi obtida com tinta proveniente da destruição de notas de dólar postas fora da circulação!). O céu pintado no tecto da galeria começa ficar mais escuro, depois é iluminado pelos raios, ouve-se o barulho da tempestade lindissimo, e por fim chove. Mas chove mesmo! É espectacular.

 

Nao menos espectacular foi deliciar-me com o bailado aquático proporcionado pelos mil repuxos do lago do Bellagio, com a água a ser lançada a mais de 70 metros de altura e tendo Pavarotti como banda sonora.  Vi os repuxos aquáticos confortavelmente instalado numa esplanada do Paris, na base da Torre Eiffel, a beberricar uma Miller Lite (5 USD).

 

A noite continuou sob o signo da água. Fui ver ao teatro do Bellagio (uma sala copiada da Ópera de Paris) o mega-produção O (ler ô, de eau, água em francês) do Cirque du Soleil, que se desenrola no mais fabuloso palco que já vi em toda a minha vida, com sete elevadores hidráulicos que fazem baixar e elevar o nível da água, proporcionando saltos e acrobacias para as quais não existem no meu vocabulário adjectivos adequados para os qualificar. O preço da entrada correspondia plenamente à categoria do espectáculo e faltam-me também as palavras para o caracterizar.

publicado por Jorge Fiel às 16:37
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Sexta-feira, 23 de Fevereiro de 2007

Duas norueguesas com enormes seios e um encontro com Deus no aeroporto Liberty, em Newark

 

Não joguei em Las Vegas porque recebi um sinal divino nesse sentido quando desembarquei em território norte-americano, por volta das duas da tarde (hora de Nova Iorque) de domingo, dia 11 de Fevereiro.

 

Presumo que sabem, senão ficam a saber, que a cerimónia da verificação dos passaportes nos Estados Unidos é das coisas mais chatas, demoradas e humilhantes a que um viajante pode ser submetido.

Como se já não bastasse termos sido obrigados a preencher aquele questionário idiota na tira de papel verde do Department of Homeland Security, em que temos de jurar que nunca estivemos envolvidos em actividades de espionagem, sabotagem, terrorismo ou genocídio, nem metidos, entre 1933 e 1945, nas perseguições movidas pela Alemanha nazi ou seus aliados e, ainda, garantir por fim que não queremos entrar nos Estados Unidos para «perpretar actividades criminosas ou imorais».

 

Um antigo colega meu do Expresso que não tinha sido avisado do protocolo, respondeu mal quando lhe perguntaram qual era o motivo da visita. O desgraçado ousou responder que ia em trabalho. Perguntaram-lhe então pelo visto de trabalho, que ele obviamente não tinha. Foi logo encarcerado numa sala e repatriado no voo seguinte da TAP. Chorou como um desalmado durante o tempo em que esteve preso. Quando voltou teve a lata de descrever no jornal esta sua triste desventura. A última vez que soube dele integrava o «staff» de um ministério do Governo Sócrates...

 

Os agentes da US Costums and Border Protection são rudes e mal educados com toda a gente (dou-lhes o desconto de terem sido treinados e instruídos para adoptarem essa atitude), excepção feita às duas jovem norueguesas que estavam à minha frente na fila, possuidoras de um «look» ultra saudável e tão bem apetrechadas que estou certo que nunca lhes passará pela cabeça submeterem-se a operação plástica para aumentarem as mamas.   

 

Há uma maneira simples e infalível de apurar qual é a fila mais rápida. É sempre aquela em que eu não estou.

 

Quando cheguei ao controlo do passaportes em Newark julguei que o meu azar tradicional tinha acabado. Descobri que uma das seis filas em actividade tinha consideravelmente menos gente que as outras. Quase metade. Esgueirei-me muito sorrateiro para ela, convencido que desta vez não seria o último a passar na alfândega. Doce engano.

 

Entretanto chegou outro voo, abriram mais postos de controlo, moveram para lá ordeiramente passageiros das filas maiores e, quando tal, dei por mim a ser o único passageiro à espera de entrar em território dos Estados Unidos, atrás das duas norueguesas com grandes seios que confraternizavam animadamente com o tipo do seu posto e o do posto ao lado, que me tinha impedido de ir para lá quando ficou livre (preferiu ir ajudar o colega do lado a desalfandegar as beldades nórdicas).

 

Depois disto, o que é que estavam à espera?! Que eu fosse para Las Vegas jogar poker? Na alfândega de Newark, Deus aconselhou-me, de forma clara e inequivoca, a manter-me longe do pano verde.

 

Como o prometido é devido, início hoje um breve diário da minha última viagem aos Estados Unidos. Para não eternizar o folhetim vou tentar um dois dias em um, todos os dias.

 

 

Domingo, 11 Fevereiro

Um passageiro nervoso com fato de treino cor de merda

 

Não tenho qualquer dúvida em eleger o lugar junto ao corredor como o melhor na turística de um avião. Sempre que faço o «check in» nunca me esqueço de pedir um «aisle seat».

 

As vantagens da coxia são inúmeras. Para começar, uma pessoa levanta-se sempre que lhe apetecer, sem ter de incomodar ninguém. E para continuar, pode usar (com algum cuidado, é certo, para não fazer nódoas negras nas pernas das hospedeiras) o espaço aéreo do corredor.

 

Não havendo corredores, peço um lugar à janela. Desfruta-se da paisagem, pelo menos na aterragem e descolagem.- durante o resto da viagem o mais certo é ser sempre a mesma monotonia, mar ou nuvens. O «window seat» tem sobre os outros a pequena vantagem de permitir encostar a cabeça ao avião, o que é útil se a opção for dormir e ainda confere algum poder descricionário e estratégico sobre a janela.

 

O pior de todos é o lugar do meio. Estar entalado entre dois desconhecidos (muitas das vezes excessivamente espaçosos) cujos cotovelos invadem, sem qualquer cerimónia, os braços do nosso assento é um inferno, um verdadeiro bingo negativo.

 

A Declaração Universal dos Direitos do Homem devia proibir as companhais aéreas de comercializarem os «middle seats». É um tortura viajar sentado no lugar do meio, que se for vago é bastante útil para os passageiros da coxia e janela acomodarem jornais, esferográficas, livros, camisolas, cadernos de apontamentos, enfim, o que lhes apetecer.

 

Há sempre uma excepção a todas as teorias e a minha teoria sobre as vantagens e desvantagens dos diferentes assentos no avião não é excepção. Tem, por isso, uma excepção.

 

A excepção dá pelo nome de «emergency row». Qualquer lugar, mesmo o do meio, numa fila de emergência é melhor que qualquer outra assento na classe turística. Porquê? Por causa do extraordinário espaço disponível para as pernas dos passageiros bafejados com esses lugares.

 

A vida está má para toda a gente e as companhias aéreas regulares, para fazerem face à concorrência feroz da «low cost», optaram por poupar no espaço (aumentando as filas, e consequentemente o número dos lugares, à custa do espaço vital consagrado a cada passageiro) e no serviço (a distribuição de jornais na turística já é uma saudade e as bebidas alcoólicas nos voos da Continental, mesmo nos intercontinentais, custam quatro euros ou cinco dólares cada uma). O resultado final é que os passageiros são encaixotados num espaço ainda mais reduzido que a solitária do Tarrafal e viajam com as pernas encolhidas tal qual como se estivessem sentados na sanita de um T0.

 

Passei as oito horas que durou o voo CO 65 de Lisboa para o Newark Liberty Airport confortavelmente instalado no 16A, o lugar de janela de uma «emergency row». Confesso que devo o facto de ter atravessado o Atlântico Norte com as pernas esticadas a uma cunha providencial e bem sucedida.

 

O braço do protector das minhas pernas não foi suficientemente longo para se estender ao voo C0 1468 entre Newark e Las Vegas, onde me foi atribuido um lugar de corredor (35C) na fila imediatamente atrás à de emergência. O avião ia cheio, sem um único lugar vago. Neste caso, funcionou a sorte.

 

No lugar exactamente à frente do meu estava sentado um passageiro trajado com um fato de treino castanho, obviamente caro e ululantemente feio, que estava nervoso. Nos preparativos para a partida, foi pelo menos três vezes buscar ou depositar coisas na bagagem de mão que tinha arrumado na bagageira. E no momento exacto antes de partir, após uma misteriosa chamada telefónica, mesmo antes daquele momento mágico em que a hospedeira anuncia que as portas estão «in armed», o nervoso passageiro do fato de treino cor de merda pegou na mala de computador e no trolley Samsonite (da mesma cor e material) e basou do avião, ainda estou para saber porquê.

 

Eu nem queria acreditar. Quando passou por mim a aeromoça (era parecida com qualquer uma das Supremes e a farda azul escura da Continental assentava-lhe bem), agarrei-lhe delicadamente o braço e perguntei-lhe se o assento da frente estava livre. Ela abençoou o pedido subjacente à minha pergunta com um rápdo e seco «move on». E assim as minhas pernas (não tenho aspecto de jogador da NBA mas ainda assim meço 1m82) estiveram em liberdade durante as quase seis horas que durou o voo até ao McCarran Airport, em Las Vegas, Nevada.

 

 

2ª feira 12 Fevereiro

A geografia da Strip e uma acertada política de transportes

 

A primeira coisa que faço quando desembarco numa cidade que não conheço é estudar o mapa e a rede de transportes públicos. Como não sou rico, nem ganhei a lotaria, nem tenho crédito a habitação no BES, não me posso dar ao luxo de fazer as deslocações de táxi. Além de que faz péssimo ao meu coração estar a obervar o trabalho do taxímetro.

 

A geografia de Las Vegas é muito fácil.  A coluna vertebral é uma extensa avenida, a Las Vegas Boulevard, que em parte importante da sua secção sul é bordada por hoteis-casinos de ambos os lados. A essa porção, delimitada a sul pelo Mandalay Bay e a norte pelo Stratosphere, chama-se a Strip, que tem uma extensão aproximada de oito quilómetros. A Las Vegas Blv segue para a norte até à Downtown, que tem um ar encatadoramente decadente, onde estão os primeiros casinos. A Fremont Street, uma rua coberta e que é animada diariamente à noite por espectáculos de luz e som, é o coração da baixa. Há portanto duas zonas de interesse em Vegas. A Strip e a baixa, também conhecida por Glitter Gulch.

 

Há três meios de transporte público (além do táxi):

 

a) O monorail, que circula num trajecto mais ou menos paralelo à Strip. A sua estação mais a sul é junto ao MGM Grand. A sul acaba o seu percurso numa estação a seguir ao Las Vegas Hilton, a uma «walking distance» do Stratosphere. Tem a vantagem de ser rápido e as desvantagens de ser caro (cinco dólares a viagem) e ter um percurso reduzido;

 

b) O Deuce, um autocarro de dois andares que percorre a toda a Los Angeles Boulevard nos dois sentidos, ligando a Baixa até ao hotel mais a sul (o Mandalay Bay). O autocarro funciona numa base 24/7 (ou seja 24 horas por dia nos sete dias da semana) e tem uma frequência óptima: passa com um intervalo entre sete a 12 minutos. Uma viagem custa dois dólares, mas um passe de 24 horas (contadas a partir da aquisição) custa cinco dólares;

 

d) O Strip Trolley, um simpático autocarro antigo, com bancos em madeira, que faz cinco percursos turísticos: o South Loop (ainda mais a sul do Mandalay, um trajecto apenas interessante se o objectivo for fazer compras nos «outlet»), o Strip Loop, o East Loop (que vai até ao um bocado periférico Hard Rock Café), o Strip Loop (Mandalay-Stratosphere) e o Downtown Loop. A viagem custa dois dólares, o passe diário fica por 6.50 USD. E o motorista tem poderes para negociar consigo passes com duraçao supeior. Eu comprei um de quatro dias por 12 dólares.

 

A minha opção inicial pelo Strip Trolley não foi a melhor. Os motoristas são divertidos, os trajectos são adequados mas muito demorados (os oito km da Strip demoram quase duas horas a ser vencidos devido às múltiplas paragens e às brincadeiras dos motoristas), as paragens ficam em locais um pouco laterais, e a frequência é desasatrosa - cheguei a estar mais de meia hora à espera de um.

 

A boa opção para conhecer Las Vegas é usar o Deuce.   

publicado por Jorge Fiel às 13:33
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Quinta-feira, 22 de Fevereiro de 2007

Sim, eu fui a Las Vegas e não só não joguei como também não me casei

 

 

É extraordinário. Absolutamente extraordinário. Estive quatro dias inteirinhos instalado no Luxor (é aquele hotel-casino em forma de pirâmide que tem à frente uma réplica da Esfingie da altura de um prédio de cinco andares), em Las Vegas, a cidade do pecado, e não pequei (uma única vez que fosse), nem joguei, nem me casei. Acho que estou a um passo da beatificação. Temo que os meus amigos me passem a tratar como o beato Fiel.

 

 

Jogar podia. Casar não podia, porque já usufruo desse estatuto legal. Reincidir na contracção dos laços do matrimónio implicaria deslizar para as turvas águas da bigamia - que além de pecado é também crime. Ora eu posso ter muitos defeitos mas não sou um criminoso.

 

Podia jogar, mas não joguei. No thriller «O Peso da Prova», Scott Turow escreveu: «A libido é uma espécie de portão enferrujado. Uma vez aberto, é muito difícil fechá-lo». Dito por outras palavras, há demónios que mais vale deixar em sossego. Deixei de fumar há 15 anos e não ouso, nem por brincadeira, pegar num charuto. Adoro a emoção («thrill») de um jogo de poker mas tive medo de trocar cem dólares em fichas («chips») e sentar-me à mesa de pano verde. O jogo é como a libido...

 

As gigantescas salas dos casinos impressionam. Estão sempre a uma média luz, pontuada pelos irrequietos neons das «slot machines» que nada revela sobre a hora do dia. Tanto pode ser meio dia como meia noite.  Acresce que não há relógios nas paredes nem a mínima sinalização da saída. A única maneira segura de descobrir o caminho para a rua é seguir os letreiros que indicam Registration, pois o balcão do «check in» fica sempre junto à principal porta de entrada.

 

Las Vegas tem 1,8 milhões de habitantes (e uma fantástica taxa demográfica de crescimento de 5% ao ano!) que vivem essencialmente da mono-indústria da cidade - o entretenimento, em todas as suas vertentes. Em 2006, a Meca do jogo foi visitada por 38,9 milhões de turistas que asseguraram uma generosa ocupação dos 132.600 quartos de hotel da cidade.

 

Os casamentos são um dos subprodutos mais emblemáticos da oferta turística da cidade. Em 2005, realizaram-se 122.259 casamentos em Vegas. Este ano prevê-se uma verdadeira loucura de casamentos para o dia da sorte que só ocorre uma vez por século: 7.7.7 (7 de Julho de 2007).  Cada hotel-casino tem produtos estruturados de casamento. A oferta do Monte Carlo Resort & Casino começa com o Princess Package, que cobra 385 US dólares pelo casamento, que terá de se realizar de 2ª a 6ª (feriados e fins de semana estão excluidos), e acaba no Chateau Royale Package, que custa 1510 USD, que inclui um jantar para dois no restaurante Blackstone's, duas noites no «standard deluxe room», 20 fotos e um DVD para mais tarde recordar.

 

A cidade do vício e do pecado é um lugar estranho. É impossível andar na rua sem coleccionar pequenas cartas coloridas em que as Lily, Savanna, Misty, Nikki, Angel,  Kira, Sandy, Yvonne, April, Harmony, Belle, Bonnie, e por aí adiante, disponibilizam os seus serviços (o leque de preços da minha amostra oscila entre os 35 USD e os 65 USD, sendo que a Kissarah e a Krista cobram 79 USD mas são duas e garantem «free introduction) e fornecem uma amostra dos seus atributos fisicos - para chamar a atenção do pessoal e provocar alguma polémica, optei por abrir este «post» com uma composição feita a partir destes cartões. No entanto, a prostituição, legal na maior parte dos condados do Estado do Nevada, e proibida no Clark County, ou seja em todo o perimetro urbano de Las Vegas.

 

Outros aspectos draconianos da lei surpreendem. Nas noites de fim de semana ou de dias feriados, os menores de 18 anos estão proibidos de circularem na Strip (os cerca de seis quilómetros da Las Vegas Boulevard bordados por casinos dos dois lados) depois das 21 horas, a não ser que estejam acompanhados pelos pais. Fora da Strip, os sub 18 não podem circular sozinhos na rua depois das dez da noite, à semana, ou após a meia noite, aos fins de semana.

 

Para não dotar este «post» de uma dimensão pantuagruélica e de dificil digestão, optei pelo formato fascículos e ao longo dos próximos dias continuarei a socializar com todas as preclaras e preclaros as minhas mais fortes impressões desta estadia em Las Vegas. Usando o formato de diário.

 

publicado por Jorge Fiel às 11:30
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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