Sábado, 20 de Dezembro de 2008

Papel de jornal: uma solução que tem tanto de ecológica e económica como de desconfortável

 

Quando era miúdo, não era raro as folhas macias do papel higiénico serem substituídas por papel de jornal.

Tratava-se de uma solução que tinha tanto de ecológica e económica como de desconfortável.

À época, os jornais usavam tintas baratas, empanturradas de produtos tóxicos susceptíveis de provocar arreliadoras irritabilidades no buraquinho (1) e, quem sabe?, induzir desagradáveis crises de hemorroidal.

Acresce que, no dealbar da década de 60, os jornais eram impressos em papel de fraquíssima qualidade, com uma rugosidade que desaconselhava a sua utilização com sucedâneo do papel higiénico – se ainda fosse o papel branco premium do Expresso…

Já ontem tive oportunidade de elencar sumariamente alguns dos usos domésticos legais que os jornais podem ter depois de esgotado o seu prazo de validade. A saber:

a)     Colocados entre o nosso corpinho e roupa molhada não só aquecem como previnem constipações, gripes, pneumonias e broncopneumonias;

 

b)    Amarrotados, por forma a encher por completo o interior de sapatos encharcados, ajudam a que eles sequem mais rapidamente e não fiquem deformados;

 

c)     São um precioso auxiliar das pinhas e acendalhas na sempre ingrata tarefa de acender uma lareira.

Se espremesse um pouco mais as meninges, estou certo que poderia alongar esta lista.

Mas acho desaconselhável e pindérico usar folhas de papel de jornal (salvaguardo, como possível excepção, o Expresso, devido à elevada qualidade do seu papel)  a fazerem as vezes de papel higiénico. a não ser em situações de óbvia emergência - em tempo de guerra não se limpam as armas, mas isso não pode servir de desculpa para andar com o cuzinho badalhoco.

Na hora de limpar o rabo há que ter a coragem e a frontalidade de dizer Não a soluções cripto-proletárias, como o papel de jornal, ou tardo-aristocráticas, como o papel higiénico preto da Renova.

O papel higiénico branco, folha dupla e macio, do Pingo Doce, é uma opção certa, e ao alcance de todas as bolsas, para fechar com chave de ouro uma boa cagadela.

 

PS. A imagem que ilustra este post é de uma instalação (Jorge Fiel, 8h48, 20 Dezembro 2008, Pasteleira ) que tem como elemento central um monte constituído por 1080 quadradinhos de papel de jornal - com a dimensão aproximada de nove por onze centímetros (o quadrado de papel higiénico marca branca do Pingo Doce, que se pode ver na imagem, é 9,3 cm por 11,5 cm)  - fabricado a partir dos dois cadernos (40 páginas do primeiro caderno, 32 do de Economia) broadsheet da edição do Expresso de 13 Dezembro de 2008, ainda sem Ricardo Costa (que nas vésperas de ser extraído da Sic assinou um artigo no Diário Económico considerando escandalosa a intervenção estatal para salvar o Banco Privado, onde, por acaso, Balsemão tem a sua fortuna) no cabeçalho, e que anuncia Carrilho da Graça como vencedor do Prémio Pessoa e o sorteio de 4 Toyotas iQ pelos leitores do Expresso. O autor (eu próprio) está a analisar a possibilidade de ligar ao João Fernandes e doar esta instalação (excluindo o portátil LG) à colecção permanente da Fundação de Serralves.
 
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(1) Este diminutivo é literal, ou seja não e carinhoso, excluindo à partida o diâmetro mais avantajado do ânus gays.

 

música: Otherside, Red Hot Chili Peppers
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Sábado, 26 de Abril de 2008

179.629,02

Cento e setenta e nove mil, seiscentos e vinte e nove euros e dois cêntimos. Arredondando, estamos a falar de 180 mil euros. É esse o dinheiro que a Sojornal, a sociedade proprietária do Expresso, vai pagar para se ver livre de mim.

 

Ou, dito pelas palavras do advogado que redigiu o documento intitulado Cessação de Contrato de Trabalho por Mútuo Acordo, os 179.692,02 euros são a «compensação pecuniária de natureza global» que «a Empregadora» me paga «em contrapartida da cessação do contrato».

 

«180 mil euros? Não é mau… Podia ser pior!» é frase que ouço de volta sempre que quando me perguntam quanto é que vou receber em troca de conceder ao Expresso o divórcio, amigável e por mútuo consentimento, de um casamento que durava há 17 anos.

 

Podia ser pior. É verdade. Pode sempre ser pior. O Expresso podia não me ter pago um cêntimo sequer - e ainda por cima dar-me um pontapé nas costas. Isso seria seguramente muito pior. Mas também podia ser melhor.

 

Claro que podia ser melhor. Lembro-me que no exacto dia em que chegamos a acordo quanto ao montante da indemnização, li no jornal que o Stanley Ho tinha dado 330 mil euros por uma trufa.

 

Foi um bocado arrepiante pensar que apenas conseguiria comprar uns 57,8% dessa trufa com a indemnização correspondente a 17 anos de vida, durante os quais escrevi milhões de caracteres, engordei 15 quilos, perdi milhares de cabelos, tive de ultrapassar centenas de chatices e sofri um enfarte do miocárdio.

 

As comparações são tramadas. Eu sei perfeitamente que não faz nenhum sentido ir por aí, mas a verdade é que também não gostei nada de saber que o Frank Lampard renovou o contrato pelo Chelsea e passou a ganhar 200 mil euros por semana.

 

Ou seja, numa semana qualquer – mesmo que esteja de férias, lesionado doente ou em baixo de forma -, o Lampard leva para casa mais dinheiro do que o Expresso pagou para aliviar a rubrica do balanço a que os bancos e analistas dedicam especial atenção e a carregar aquela que eles mais apreciam – a dos custos de reestruturação!   

 

As comparações são tramadas. Eu sei perfeitamente que não faz nenhum sentido ir por aí, mas a verdade é que há mil milhões de pessoas no Mundo a viver com menos de 73 cêntimos por dia e que o Cristiano Ronaldo ganha 25 mil euros por dia, ou seja 88 cêntimos de três em três segundos.

 

Eu estou habituado a ganhar por mês aproximadamente o que o Cristiano Ronaldo ganha em quatro horas e meia. Não é mau. Podia ser pior.

 

Por este artigo, a Autêntica prometeu pagar-me 600 euros. Não é mau. Podia ser pior. 636,50 euros foi o salário médio mensal recebido em 2006 pelos nortenhos que trabalham por conta de outrém. Eu escrevi este artigo em cinco horas.

 

Mas podia ser melhor. É quase metade dos mil euros que Pimpinha Jardim pede de cachet para abrilhantar uma festa. A filha da Cinha (que, a idade não perdoa, cobra apenas 500 euros para comparecer num evento) ganha esse dinheiro numa noite, dando dois dedos de paleio a uns imbecis, beberricando umas margueritas e posando para os fotógrafos das revistas cor-de-rosa.

 

Dinheiro (aparentemente) bem mais fácil de ganhar do que estar aqui agarrado a um portátil a escrever os 15 mil caracteres solicitados, num portátil da HP com dois anos de vida e que de vez vai abaixo sem aviso, enquanto ouço os Beatles (A Hard Day’s Night).

 

Chegados a esta altura, o/a leitor (a) está com toda a certeza a pensar duas coisas.

 

A primeira é que o Expresso fez muito bem em pagar os 179.629,02 euros para me despachar, porque um tipo que escreve isto só pode estar doido.

 

A segunda é interrogar-se sobre qual o sentido de eu estar a fazer este «strip tease», revelando verbas (a indemnização, o salário, o «cachet» ganho por este artigo) que a esmagadora maioria das pessoas sabiamente manteria em segredo.

 

Eu explico. Não tenho segredos para si.

 

Desatei a revelar estes números por duas razões.

 

A primeira é uma tentativa desesperada de atrair e prender a sua atenção. Neste mundo em que paramos num semáforo e recebemos três diários gratuitos, chegamos a casa, ligamos a televisão, e temos mais de uma centena de canais à nossa disposição (incluindo dois russos, dois chineses, um romeno e um búlgaro, que é o meu preferido), o factor escasso é a atenção humana.

 

Eu satisfaço-lhe a sua curiosidade «voyeurista», soprando-lhe ao ouvido números que o normal dos jornalistas manteria confidenciais, em troca da sua atenção.

 

É um negócio justo, não acha? Claro que há também uma razão egoísta por detrás deste esforço. É que eu quando escrevo qualquer coisa tenho a vaidade de gostar que me leiam…

 

A outra e segunda razão consiste no facto de eu detestar o excessivo pudor e reserva com que nós, portugueses, tratamos a questão do dinheiro.  Ninguém diz a ninguém quanto ganha – e é considerado má educação perguntar a alguém qual é o seu salário ou quanto levou para casa de prémio no final do ano.

 

Este secretismo mergulha as suas raízes na crença que o dinheiro é sujo. O que se é verdadeiro, do ponto de vista estrito (as notas e moedas passam por muitas mãos e ninguém está habituado a lavá-las antes de manusear o dinheiro), já deixa necessariamente de o ser do ponto de vista figurado.

 

Todo o dinheiro a que me referi é duplamente limpo.

 

Limpo porque ganho de uma forma legítima, com o suor do meu rosto (no Verão, eu suo muito J), em actividades legais, e declarado ao Fisco. A indemnização, o salário, o «cachet» são obtidos em troca de trabalho - e não da venda de drogas, armas, extorsão ou lenocínio.

 

Limpo também porque as verbas a que me refiro são líquidas, depois de deduzidos os impostos, que não são pêra doce. Não sei se sabe (se não sabia, pelo menos desconfiava), mas 38% do salário de um português médio vai para aos cofres do Estado, entre IVA, impostos especiais sobre o consumo (tabaco, gasolina, álcool), IRS e protecção social.

 

Interroguei-me sobre os motivos que estão por detrás da nossa vergonha em falar de questões de dinheiro e conclui que há duas explicações poderosas para este pudor (que eu não partilho): uma prática e outra cultural.

 

A explicação prática tem a ver com o evitar invejas, afugentar roubos e a curiosidade ávida do Fisco. É um motivo a um tempo compreensível e contraditório.

 

O ditado popular nº 524 do Rifoneiro Português, compulsado por Pedro Chaves (Editora Domingos Barreira, 1945) reza o seguinte: «Dinheiro e mulher mostrado, está em véspera de ser roubado».

 

O português deste ditado popular é bastante deficiente, mas a ideia que transmite é clara e cristalina. Ostentar riqueza pode ser meio caminho andado para atrair as forças do Mal.

 

No mundo dos pequenos e médios negócios privados, aprendi que quando se pergunta a alguém «Como vai a vida?», se obtém automaticamente uma mentira como resposta.

 

Se os negócios correm mal, respondem-nos que a coisa corre sobre rodas, a empresa vai de vento em popa. Revelar a triste e dura verdade significaria piorar a situação, pois os bancos e fornecedores torceriam com toda a certeza o nariz e fechariam a torneira do crédito.

 

Se os negócios correm às mil maravilhas, respondem-nos que a conjuntura está muito difícil, pois ninguém paga a ninguém, é a crise. Esta mentira é a aplicação prática do bom e velho principio de que «quem não chora não mama», ao mesmo tempo que as dificuldades apregoadas funcionam como um guarda chuva preventivo face a eventuais pedidos de dinheiro ou emprego.

 

Esta reserva face às questões de dinheiro é algo contraditória com a ostentação que está inscrita no código genético de 99,3% dos portugueses (1) que adoram conduzir carros caros e vistosos, vestir roupa de marca e depositar em cima da mesa da esplanada o último grito da Nokia, enquanto conversam em voz alta sobre as peripécias da passagem de ano no Brasil e detalha a planificação das próximas férias na neve.

 

Deixando por desatar este pequeno nó da explicação prática para o pudor português em falar de dinheiro, passo à pista cultural para este comportamento – e quem fala de cultura em Portugal fala inevitavelmente da religião católica.

 

A verdade é que nas sociedades protestantes e anglo-saxónicas a generalidade das pessoas não se incomoda nada em revelar o seu salário e em falar descomplexadamente de dinheiro.

 

Em Portugal, a lista dos mais ricos da Exame é uma estimativa mais ou menos grosseira (é a melhor aproximação que se consegue a uma realidade nebulosa), enquanto que a lista da Forbes é científica.

 

É perfeitamente clara a diferença na maneira como a questão do dinheiro é abordada no Antigo e no Novo Testamentos.

 

No Antigo Testamento, a riqueza é bem vista, olhada como um dom de Deus. O dinheiro, que recompensa a virtude ou o trabalho, é um bem desejável.

 

Já no Novo Testamento, em particular no Evangelho de Lucas, o dinheiro é olhado como algo sujo:  «É mais fácil fazer passar um camelo pelo buraco de uma agulha do que um rico entrar no reino dos céus» (Lucas, 18.25).

 

Judas vendeu o filho de Deus por 30 dinheiros. Jesus adverte-nos para os perigos do dinheiro: «Não se pode servir ao mesmo tempo a Deus e ao dinheiro».

 

O Novo Testamento deixou as suas impressões digitais espalhadas por todo o lado na nossa cultura face ao dinheiro, em que os bens espirituais são sobrevalorizados e contrapostos aos terrenos.

 

Esta cultura neotestamentária, que incensa os valores espirituais como a verdadeira riqueza e exalta a pobreza, está sintetizada de uma forma soberba num verso da mais conhecida canção da telenovela Floribella: «Sou rica em sonhos, mas pobre, pobre em ouro».

 

Só vestida na pele da personagem de cinema de rapariga má (a «call girl») é admissível à portuguesa Soraia Chaves (2) declarar que prefere ser infeliz ao volante do seu Audi a ser feliz a viajar num banco de autocarro.

 

O actor Jack Dempsey (o eterno namorada da intrigantemente bela e Meredith em «Anatomia de Grey») afirmou recentemente que «a vida é, sem dúvida, muito melhor com dinheiro».

 

É muito pouco provável que a Soraia Chaves educada numa cultura que cunhou o provérbio «o dinheiro não trás felicidade» (o que é verdade, mas ajuda muito…) algum dia venha a fazer em público uma declaração de teor idêntico à do seu colega norte-americano.

 

Ao não me ralar nada em divulgar quanto ganho, revelo um comportamento minoritário e transgressor da cultura tradicional portuguesa face ao dinheiro.

 

Ao sentir um imenso terror a dever dinheiro, revelo ter ficado com um mandamento da cultura tradicional portuguesa tatuado na minha personalidade.

 

Só que volto a ter um comportamento minoritário, pois foi neste particular do endividamento que há a registar a mais espectacular e recente mudança na nossa cultura e mentalidade. 

 

Por norma, os portugueses eram seres poupados e tinham aversão a pedir ou emprestar dinheiro. Salazar apanhou bem esta nossa faceta idiossincrática, que estruturou em código de conduta.

 

Pobrezinhos mas honrados, devemos habituar-nos a viver com o que temos, dar graças a Deus e ser felizes com o que nos coube em sorte nesta vida.

 

A sabedoria popular está pejada de ditados que reflectem este aspecto da nossa cultura tradicional: «Dinheiro emprestado, dinheiro arriscado», «Dinheiro emprestado, inimigo ganhaste», «dinheiro emprestado parte rindo e volta chorando».

 

Não é por acaso que não conhece estes ditados. É que a contenção e os valores que eles apregoam foram sacrificados, após o 25 de Abril, no altar do consumo e do endividamento.

 

As famílias portuguesas, habituadas durante séculos a poupar («Dinheiro guardado, dura muito tempo») começaram por torrar as suas poupanças antes de se mergulharam em alarmantes níveis de endividamento, atraídos pelas sedutoras ofertas de dinheiro fácil e barato sugeridas pelos bancos.

 

Do dia para a noite, o poupado povo português transformou-se num povo gastador e endividado.

 

O endividamento das famílias portuguesas atingiu, no final de 2006, 124% do rendimento disponível e já equivale a 88% do PIB.

 

Não é com o meu contributo que atingimos estes lamentáveis valores. O meu pavor a pedir dinheiro emprestado é tal que compro tudo a pronto pagamento.

 

Houve apenas duas únicas excepções a esta regra. Na compra de dois andares – um em Matosinhos, para os meus filhos, e outro em S. João do Estoril, adquirido para capitalizar em meu benefício o subsidio de deslocação que o Expresso me pagava por eu estar a trabalhar em Lisboa durante os três anos em que editei a Economia – recorri ao crédito à habitação.

 

Mas o dinheiro da indemnização pela cessação do meu contrato de trabalho com o Expresso vai ser, no seu essencial, aplicado em liquidar estes dois créditos a habitação.

 

Garanto-lhe que o dia, que se aproxima, em que liquidarei os meus dois créditos à habitação vai ser um dos mais felizes da minha vida. A sensação de não dever nada a ninguém é para mim tão voluptuosa que até chega a ser erótica.

 

Sei fazer contas e, por isso, compreendo perfeitamente os que acusam este meu comportamento de ser irracional.

 

A subida na taxa de juros do crédito a habitação ainda não foi suficiente para encorajar o resgate. Penso que com alguma facilidade conseguiria obter para os 179.629,02 euros da indemnização uma remuneração superior à taxa que pago pelos créditos a habitação.

 

Mas eu sou assim. E decidi que a partir dos 50 anos o que era defeito passa a ser feitio. Da minha educação nos valores judaico-cristãos, guardei uma profunda aversão a dever dinheiro.

 

Tenho dois carros. Uma carrinha Fiat Marea, de 2001, que me custou 3500 contos, e um Mini Clubman de 1974, que me custou 500 contos. Paguei-os ambos a pronto.

 

Noutro dia, passei na Fnac por um Sony Vaio, levezinho, bonito, com oito horas de autonomia, que mal deu pela minha presença se pôs logo a sorrir-se para mim. Não se anunciava com o preço final - mas sim através do custo mensal de cada uma das 12 prestações. Não era nada que me causasse grande mossa ás finanças pessoais. Bastava-me alocar à prestação o que ganho com uma das crónicas semanais para o Oje e saia com ele debaixo do braço.

 

Chegados a esta altura já me conhece suficiente bem para saber o desfecho desta história. Só comprarei o maneirinho e sedutor Sony Vaio quando o puder fazer a pronto pagamento, sem perturbar o deve e haver mensal da minha conta bancária.

 

O meu pavor ao endividamento estende-se ao cartão de crédito. O meu é um Visa Universo. Atraiu-me o baixo custo do cartão, que rapidamente amortizo com o desconto de um por cento sobre o total do movimento efectuado, devolvido sob a forma de cheques válidos nos hipermercados Continente.

 

Não sou um bom cliente para o BPI, porque opto sempre pela liquidação a 100% do extracto. Nunca recorri ao crédito fácil ao consumo disponibilizado nos cartões a taxas de juro altíssimas que engordam as pornográficas contas de resultados dos bancos portugueses.

 

Dito isto, agradeço a atenção que me dispensou ao ler este artigo até ao fim e tento retribuir-lhe a gentileza citando uma das minhas frases favoritas do meu humorista preferido (Groucho Marx): «Basta de falar de mim. Falemos um pouco de si. O que é que pensa de mim?».

 

Espero que não tenha ficado com uma ideia errada sobre a minha relação com o dinheiro.

 

Eu adoraria ser rico. Tenho muita pena de não ser um dos 11 mil compatriotas que têm mais um milhão depositados no banco - apesar de isso vedar automaticamente a minha eventual entrada no Reino dos Céus. Todos sabemos que é absolutamente impossível um camelo passar pelo buraco de uma agulha…   

 

Dou razão ao povo quando ele, na sua imensa sabedoria, diz que o que nos faz falta é, por esta ordem, Saúde, Dinheiro e Amor.

 

O amor surgir em terceiro lugar, a seguir ao dinheiro, não é arbitrário. Ao fim e cabo, quando hesitantes entre dois lares, as mulheres escolhem sempre a melhor mobília.

 

Neste mundo, o dinheiro é a medida de todas as coisas.

 

 

 

…………………………………………

 

(1)   Esta estimativa é da minha única e exclusiva responsabilidade e foi apurada a olhómetro, pelo que deve ser encarada com toda a reserva. O INE, responsável por quase todos os outros dados estatísticos constantes deste artigo, está inocente neste caso!

 

(2)   Soraia Chaves cobra 3500 euros por aparição num evento, sete vezes o «cachet» de Cinha e umas seis vezes mais do que eu vou receber por este artigo

 

Este texto foi publicado na revista Autêntica

 

 

música: Concerto para o Principe da Polónia, Vivaldi
publicado por Jorge Fiel às 08:51
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Domingo, 23 de Dezembro de 2007

Uma escuta telefónica que pode ser imaginária desvenda «making of» do «post» mártir da meretriz!

 

O «post» da meretriz  (vamos chamá-lo assim por comodidade) que inaugura o segundo fôlego desta lavandaria foi inicialmente escrito para ser publicado na Roupa para Lavar, na página de blogues do Expresso.

 

No entanto, só agora na véspera de Natal, quando nos preparamos para celebrar o parto do Menino Jesus na manjedoura, é que este «post» é dado à luz do dia.

 

Como tudo na vida, este adiamento tem uma explicação. Decorriam as negociações para o meu divórcio do Expresso quando recebi uma chamada do meu preclaro amigo e comendador Marques de Correia, informando-me que tinha lido o «post» da meretriz e tinha uma proposta indecente para me apresentar.

 

Passo a reproduzir, em termos aproximados, o teor dessa conversa telefónica:

 

MdC -. Ouve lá tu planeias manter o blogue depois de saíres do Expresso?

 

JF - Sim. Estava a pensar transferi-lo para o Sapo. Porquê? Tens alguma objecção?

 

MdC - Não. Não tenho. Só me parece que não devias manter o nome Roupa para Lavar. Nem o Sataiva quando saiu levou com ele A Política à Portuguesa.

 

JF - Ok. Não há problema. Eu mudo o nome do blogue para Lavandaria. Está bem assim? Era isso que me querias dizer?

 

MdC - Não. Na verdade eu queria fazer-te uma sugestão. Para lançares a Lavandaria no Sapo não te dava jeito um «post» mártir?

 

JF – O que é que queres dizer com isso de um «posrt» mártir?

 

MdC- Não era bom para ti reabrires o teu blogue com um texto que pudesses anunciar como tendo censurado pelo Expresso?

 

JF - Ó comendador, isso dava cá um jeitaço. Espectacular. É mais uma daquelas ideias geniais! Obrigado.

 

MdC-_ Então está combinado. Não vou autorizar a publicação deste «post». Os amigos são para as ocasiões.

 

JF – Obrigado comendador! Mais uma vez obrigado!

 

Depois de lida a transcrição desta conversa telefónica (que não vejo motivo conste de qualquer processo judicial aparentado ou não com o Apito Dourado)  creio que todas as preclaras e preclaros ficam a par do «making of» do  «post» mártir intitulado «Ide todos para a grande meretriz que vos deu à luz».

 

Mais acrescento que no pretérito dia 10,  por volta das dez da matina, no Bloco Operatório do Hospital de Santo António a minha vesícula esclerosada deixou-me por intervenção de uma equipa liderada pelo dr Zé David.

 

Creio que haverá oportunidade para partilhar com todo o bom povo da lavandaria, as facécias que rodearam este episódio. Para já, quero apenas chamar a atenção que fui submetido a uma anestesia geral.

 

Como a conversa telefónica que reproduzi terá acontecido antes da anestesia geral, eu não se sinto capaz de jurar -  com a mão direita pousada em cima da edição encadernada a couro preto do Novo Testamento que adquiri na última Feira do Livro – que ela aconteceu mesmo. Pode ter saído apenas da minha fértil imaginação. Eu sei lá… (com a devida vénia à colega Margarida Rebelo Pinto).

 

Que o Pai Natal seja generoso com todas as preclaras e preclaros é o mais sincero desejo deste que se assina

 

Jorge Fiel

 

 

PS. O meu portátil HP, que acaba de completar dois anos de vida, está a dar as últimas. Raramente aguenta sem ir abaixo sessões de trabalho superiores a duas horas. Anda mais cansado do que eu. Prometo no início do ano comprar um novo.

 

Uma das mais perniciosas consequências do cansaço do meu HP reside no facto de eu ainda não ter conseguido carregar todos os arquivos da Roupa para Lavar. Mas prometo que, mais dia menos dia,  todos os «posts» do glorioso passado da lavandaria passarão a estar aqui disponíveis.

 

Lamentavelmente, o melhor (os comentários das preclaras e preclaros) perdeu-se. Com grande pena minha não os consigo recuperar.

 

 

 

música: Il est né, le divin enfant, Anne Sofie von Otter
publicado por Jorge Fiel às 23:59
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Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

Notícia de um divórcio

 

Chegou ao fim o meu casamento de 17 anos com o Expresso.

 

Teve, como todos os casamentos, os seus momentos de glória e as suas fases mais rotineiras, aqui e ali interrompidas por pequenos conflitos domésticos, rapidamente sarados. No geral, foi bom enquanto durou.

 

Em 1990, quando nos casámos, eu tinha 34 anos, dois filhos, bigode, 80 quilos e onze anos de jornalismo, durante os quais vivera três relações mais ou menos estáveis (Norte Desportivo, Comércio do Porto e Semanário) e um número bastante razoável de escapadelas (Jornal do Comércio, Gazeta dos Desportos, Tripeiro, Diabo, Crime, entre outras).

 

Em 1990, quando nos casámos, o Expresso estava lamber as feridas da dolorosa e traumatizante separação do grupo de jornalistas liderado por Vicente Jorge Silva, que o tinha traído, primeiro às escondidas, depois à luz do dia, indo para a cama com Belmiro de Azevedo, relação de que resultaria um filho: o Público.

 

Tenho muito orgulho de ter integrado a legião de jornalistas (na sua maioria oriundos do Jornal e do Diário de Notícias) contratados pela dupla José António Saraiva/Joaquim Vieira para ajudar a cicatrizar as feridas abertas pela partida do grupo de Vicente.

 

Durante os 17 anos que durou o nosso casamento, tive o prazer, a liberdade e a oportunidade de fazer um pouco de tudo. Redigi notícias e escrevi reportagens sobre quase todas as faces da vida – economia, sociedade, desporto e política. Por três vezes fui editor – do Porto (cinco anos), da saudosa Revista (dois anos) e, finalmente, da Economia (três anos).

 

Tenho muito orgulho de ter dito que sim sempre que a direcção precisou de mim em Lisboa e me seduziu com desafios novos, apesar de isso me obrigar a viver emigrado.

 

Como me gabo de me conhecer razoavelmente bem e me esforço por compreender e antecipar o futuro, fiz sempre questão de sair pelo meu próprio pé das funções que fui chamado a desempenhar.

 

Sempre preferi agir a reagir, Sei que sou viciado em adrenalina, arrebatamentos e entusiasmos. Gosto de agarrar grandes empreitadas e de não descansar enquanto não atinjo os meus objectivos.

 

Mas também sei que deixo de ser a melhor opção para capitanear um navio assim que a rotina se apodera do meu dia-a-dia e que o projecto que comando entrou em velocidade cruzeiro.

 

Não sou daquelas marinheiros que aprecia navegar em mar chão. Prefiro as águas revoltas. Nunca enjoei com a turbulência.

 

Tenho muito orgulho nos quatro pontos cardeais que foram a marca de água da minha atitude durante os 17 anos que durou o casamento com o Expresso:

 

 

1.     Sempre soube o que estava a fazer

 

Admito (um pouco de modéstia fica sempre bem…) que por vezes a minha estratégia até podia não ser a mais acertada. Mas tive sempre uma estratégia. Antes de começar a navegar tirei sempre um azimute, tracei com cuidado a rota a seguir e apetrechei-me com rotas alternativas;

 

2.     Nunca tive medo de decidir

 

Ser director, editor ou jornalista significa estar permanentemente a escolher, a avaliar, a decidir. Escolher os temas que tratamos e os que deixamos cair. Avaliar as matérias que merecem destaque. Decidir os assuntos em que empenhamos as nossas forças. Nunca fui contaminado pelo vírus da indecisão. Nunca tive medo de falhar.

 

3.     Sempre gostei de arriscar

 

Após um Porto-Sporting comparei as estatísticas de Raul Meireles e João Moutinho. O médio portista tinha falhado quase metade dos passes. O sportinguista praticamente não tinha falhado nenhum. À vista desarmada, Moutinho tinha jogado muito melhor do que Meireles. Não foi verdade. Moutinho não falhou passes porque sempre que tinha a bola repassava-a, para trás ou para o lado, para o colega que estava mais perto. Meireles falhou mais porque fez muitos passes a 30 metros de distância, de ruptura, procurando entregar a bola a um colega  desmarcado e assim criar uma situação de golo.

Num momento em que o factor escasso é a défice de atenção humana, o empate não chega. Acho criminoso passar para o lado, com medo de arriscar e de ser assobiado pelos adeptos. Para ganhar é preciso não ter medo de fazer passes de 30 metros. E não marcamos golos se não arriscarmos atirar à baliza.

 

4.     Nunca perdi o leitor de vista

 

Nunca na minha vida perdi de vista que neste negócio vivemos em função do nosso cliente: o leitor. E tenho muita pena alguns colegas com menos memória esqueçam por vezes esta verdade de sangue.

Sempre que escolho um tema, penso no título, selecciono o ângulo de ataque, preparo a maneira como matéria vai ser apresentada em página, e, finalmente, me sento a escrever, tenho sempre presente que não estou a trabalhar para brilhar juntos dos meus colegas jornalistas ou das minhas fontes. Estou a dar o meu melhor para seduzir e satisfazer o meu cliente leitor.

 

Não acho que haja motivo de espanto por o nosso casamento de 17 anos ter chegado ao fim. A relação estava emocionalmente desidratada. Eu e o Expresso já estávamos um bocadinho fartos um do outro. E o Tom Jobim estava carregadinho de razão quando disse que «a única coisa que importa é ser feliz».

 

Neste mundo efervescente, abundante em novas novidades de vidas e de costumes, manter um casamento profissional de 17 anos é pouco comum.

 

Uma das grandes lições de vida, que o Expresso me proporcionou, aprendi-a com Guterres. Numa campanha para as legislativas que acompanhei como jornalista, o antigo primeiro ministro analisou com esta simplicidade a evolução das relações laborais.

 

No tempo dos nossos pais, era normal uma pessoa ter um único emprego durante toda a sua vida. 

 

(O meu pai conheceu apenas um patrão: o STCP. Entrou para a empresa de transportes colectivos do Porto no final da sua adolescência, como escriturário, e por lá se demorou até ser atirado para a reforma antecipada pela revolução tecnológica da máquina de escrever que tornou dispensável e obsoleta a sua bonita caligrafia)

 

Na nossa geração, é normal uma pessoa trabalhar em diferentes empresas mas manter a sua profissão.

 

No tempo dos nossos filhos já não será possível atravessar a vida usando como ferramenta uma única profissão.

 

Nesta hora em que estou a concluir o divórcio, ainda não sei como vou continuar a minha carreira profissional. Para já, vou agravar a estatística dos desempregados qualificados, que é uma das maiores dores de cabeça para Sócrates.

 

Não sei se vou continuar a tentar manter-me no paradigma da minha geração, seguindo como jornalista. Ou se, em alternativa. vou dar o salto para o da geração dos meus filhos e mudo de profissão.

 

No ocaso de 2007, nesta hora em que me estou a divorciar do Expresso, tenho 51 anos, três filhos, 94 quilos e 28 anos de jornalismo – e já não uso bigode.

 

Estou com um bocadinho de medo do vazio. Às vezes sinto-me como quando na recruta na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, fazia o salto para o escuro – em que saltamos sem ver se o chão está a 20 centímetros ou a dois metros de distância.

 

Mas a outra face deste salto do escuro é a injecção de adrenalina que ele desperta. Sinto-me excitado por estar de novo livre. Sinto-me orgulhoso por não ter deixado o meu casamento com o Expresso arrastar-se para o pântano (achei que uma imagem guterrista ficava bem, qual é a vossa opinião?).

 

Não sei ainda bem como vou continuar a ganhar a vida. Mas estou certo que no final deste sobressalto serei melhor jornalista e ainda melhor pessoa. 

 

No trabalho, como na vida, prefiro viver apaixonado – e exijo que a paixão seja correspondida.

 

FIM

 

 

PS. A interrupção deste blogue é um dos efeitos secundários deste divórcio.

Agradeço, curvado e emocionado, a todas as preclaras e preclaros que através da sua presença activa fizeram do Roupa para Lavar o blogue mais visitado e comentado do Expresso durante o seu curto mas trepidante ano de vida. Sinto muito, mas mesmo muito, orgulho em ter sido o vector deste espaço de contracultura, de ter sido capaz de não estar na linha e de ter tido a coragem para escrever coisas que destoam do cânone e do «mainstream».

Este filme acaba aqui, mas garanto-vos uma sequela. Como ainda anda por aí muita roupa suja a precisar de ser lavada, vou continuar a centrifugar e inauguro na véspera de Natal uma nova lavandaria, num novo endereço:  lavandaria.blogs.sapo.pt.

 

 

música: The end, Doors
publicado por Jorge Fiel às 11:33
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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