Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Uma pista que o ajudará a desvendar o mistério da ida das mulheres aos pares à casa de banho

O ancestral segredo da ida das mulheres aos pares à casa de banho é finalmente desvendado nesta tão aguardada 5ª edição do passatempo da Lavandaria, baseado no best seller de Ana Anes (uma adepta confessa da bissexualidade) intitulado Sete Anos de Mau Sexo.

A autora jura que as mulheres vão aos pares à casa de banho para terem alguém que lhes segure no papel higiénico ou na mala enquanto fazem chichi. Mas será que esta resposta contém toda a verdade?

Para saber isso terá que ler até ao fim este interessante passatempo, onde se fala de Fellini, da sopa minestrone, do Brunelo di Montalcino, de um curso de masturbação feminina, dos chás do Mariages Frères, da Dior, Saramago Antena 2 e as compotas Bonne Maman - tudo isto a enroupar um naco de Lourenço Marques, de Francisco José Viegas, que confere algum recorte literário a este post.

Para causar algum frisson, introduzimos um excepção à regra da resposta certa ser sempre a b). Na pergunta 4. há uma nuance. A resposta b) está certa, mas todas as outras 18 também o estão, e a favorita da autora é mesmo a s).

 

1.     Na opinião da autora, porque é que a bissexualidade é melhor para as mulheres?

 

a)     A razão é simples. Porque não há incompatibilidade entre gostar ao mesmo tempo de carne e de peixe, de Paris e de Londres, do Saramago e do Lobo Antunes, da RFM e da Antena 2;

 

b)    A razão é simples. Sentimo-nos sozinhas. É como ir à casa de banho aos pares. Na cama também somos assim. Precisamos de alguém do nosso género, não para nos segurar no papel higiénico ou na mala enquanto fazemos chichi, mas para nos acompanhar nos lençóis de uma cama cheia de gente;

 

c)     As relações com os homens são como o papel de fax que desbota em seis meses;

 

d)    A razão é simples. Depois de se ter estado na lua não se pode voltar a ser piloto de aviões.

 

 

2.     O que significa, para Ana Anes, uma rapariga ser bi nos dias que correm?

 

a)     Ser bi é o novo must have, como usar uns shorts denim da Zara com collants pretos opacos Fred e calçar umas botas brancas. Ser bi, hoje em dia, para as mulheres, é très, très chic, como a música da banda sonora de Mamma Mia;

 

b)    Ser bi é o novo must have, como usar uma trench coat Burberrys e a edição limitada do Gaucho da Dior. Ser bi, hoje em dia, para as mulheres, é très, très chic, como a música da banda sonora do Diabo Veste Prada;

 

c)     Ser bi é jogar em todos os tabuleiros, que é a atitude mais adequada para quem, nestes tempos de crise, quer evitar passar fome;

 

d)    Se bi é o que pode acontecer a uma mulher se ler e reflectir muito sobre a seguinte fala do capitão Domingos Assor no romance Lourenço Marques, de Francisco José Viegas (capa muito bonita, por sinal: “Enlouquece-se com facilidade, ficamos loucos por tudo e por nada. Vemos mulheres espantosas onde só está uma mulher sem méritos, sem beleza e sem doçura. Enganamo-nos tantas vezes, senhor Miguel, enganamo-nos por tudo e por nada, enganamo-nos como se estivéssemos no meio do deserto e tivéssemos necessariamente de escolher um caminho errado. Lembra-se daquele rabino antigo que dizia ‘não perguntes o caminho a quem o conhece, pois de contrário não te poderás perder’?”

 

3.     O que é que uma amiga italiana, que a autora já não via há três anos, lhe propôs fazer mal desembarcou em Cascais?

 

a)     Fazer um prova cega de vinhos com o objectivo de determinar qual é melhor, se o Barca Velha se o Brunelo di Montalcino;

 

b)    Fazer um curso de masturbação entre amigas, para tentarem descobrir o ponto G, passando uma cassete enquanto bebiam o Earl Grey do Mariages Frères e comiam uns scones com compota Bonne Maman;

 

c)     Fazer um curso de pastas frescas tendo Herman José como monitor;

 

d)    Fazer um panelão de sopa minestrone e comerem-na enquanto viam, no DVD, a cinematografia completa de Fellini..

 

4.     Se depois de uma cambalhota bem “arrefinfada” o parceiro (em vez de ir a correr para a casa de banho, tomar um duche ou fumar um cigarro) lhe pergunta: “Em que é que estás a pensar?”, o que é que lhe responde Ana Anes?

 

a)     “Estou a pensar quem és tu e donde vieste”;

 

b)    “Como é que eu vim aqui parar?”;

 

c)     “Que mal fiz eu a Deus para ter este troglodita a meu lado?”;

 

d)    “Estou a pensar que dás umas quecas de fugir”;

 

e)     “Tenho de sair daqui urgentemente”;

 

f)      “Bem me avisaram que és uma nulidade na cama”;

 

g)     “Não falta aqui mais ninguém?”;

 

h)    “Que raio faço eu presa à cama por algemas?”;

 

i)       “Tens uma pilinha do tamanho de um isco de pesca”;

 

j)       “Quem era aquela senhora que saiu daqui vestida à Ruth Marlene?”;

 

k)    “Quero o meu namorado!!!”;

 

l)       “Agora que já pus os ditos ao X, podes começar a vestir as roupinhas e pôr-te a milhas, seu incompetente”;

 

m)  “És tão meiguinho”;

 

n)    “Ai, que bom que foi”;

 

o)    “Quando é que passa o período refractário, demora muito? É pra hoje?”;

 

p)     “Agarra-te a mim, idiota!”

 

q)    “Será que isto é o princípio de uma relação estável, apesar de ele ser casado e ter filhos?”;

 

r)      “Que chatice, agora como é que eu vou contar ao melhor amigo dele, o meu namorado?”;

 

s)     “Estou a pensar no que estarás a pensar”.

 

música: Don't look back in anger, Noel Gallagher
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

Binaca e Couto: os dois amores da minha boca

A pasta medicinal Couto deve parte substancial da sua celebridade ao mítico comercial televisivo que passou na RTP no início dos anos 70, protagonizado por um compatriota nosso que rodopiava pelo palco com uma cadeira presa aos dentes.

Esta portentosa exibição era acompanhada por uma voz off, sóbria, grave, solene e cheia, que sublinhava, pausamente, três características evidentes patenteadas pelo protagonista -  “dentes fortes, gengivas sãs, boca saudável” – antes de pronunciar a frase famosa que ficou gravada no disco rígido de todas as pessoas da minha geração:  “Palavras para quê? É um artista português e só usa pasta medicinal Couto”.

Chegados a este momento, confesso-vos, com um orgulho indisfarçado, que testemunhei uma demonstração ao vivo deste artista português, no palco do recinto de espectáculos ao ar livre que existia no Palácio de Cristal, um pouco atrás da Concha Acústica da avenida das Tílias.

Nunca tentei repetir lá em casa a proeza do artista português (1), muito provavelmente porque nunca usei só pasta medicinal Couto.

Olhando para trás, reparo que sempre adoptei uma política errante neste particular da aquisição de pasta dentífrica, nunca me tendo fidelizado durante longos períodos a qualquer marca.

Pelo meu copo de dentes passaram indiscriminadamente a pasta medicinal Couto mas também bisnagas de Colgate, Pepsodent, Sensodyne, Mentadent ou Binaca.

Devo até dizer que, se tivesse de destacar uma preferência, ela recairia sobre a Binaca, uma marca que desapareceu das prateleiras dos nossos supermercados depois da multinacional Reckitt Benckiser a ter vendido a um fabricante indiano.

Mas atendendo à importância de privilegiarmos a compra de produtos portugueses, prometo desenvolver um esforço sério de fidelização à pasta medicinal Couto - fabricado por uma empresa que é merecedora do nosso respeito e admiração, tanto mais que o célebre restaurador Olex fez parte da sua galeria de produtos.

 

…………………….

(1)  Pelo tom de pele, tudo leva a crer que este artista de sólida dentadura nasceu algures em África, talvez em Angola, quem sabe se em Moçambique ?

 

música: The times they are a changin', Bob Dylan
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

Breve evocação do feliz ano de 1932, em que o Porto ofereceu ao Mundo a pasta medicinal Couto

 

Não há volta a dar. O Porto aparece sempre à esquina em todos os momentos fundamentais da História de Portugal, qualquer que seja o assunto, desde o nascimento e baptismo da nação até à inovação na higiene oral, passando pelo financiamento dos Descobrimentos.

No Portugal, a preto e branco, de 1932, em Lisboa, António de Oliveira Salazar ultima a Constituição de 1933 e o Estatuto do Trabalho Nacional (promulgado em 1934) que completam a arquitectura jurídica do Estado Novo.

Na Marinha Grande, as células clandestinas comunistas e os grupos anarquistas agitam o importante centro industrial que protagonizaria em 1934 o canto do cisne da revolta operária contra a ditadura.

No Porto, Alberto Ferreira Couto dava alguma cor a este cenário plúmbeo ao inventar a mítica pasta dentífrica que usa como marca o seu apelido.

A pasta medicinal Couto é um dos mais queridos ícones do século XX português, que ainda podemos encontrar nas prateleiras de lojas especializadas e de bom gosto.

O essencial do design da famosa embalagem inicial manteve-se, sendo que a única coisa que mudou foi a assinatura do produto. Em Outubro de 2001, a União Europeia decretou a proibição do uso da palavra medicinal por esta pasta dos dentes que continua a ser fabricada nos arredores do Porto (mas concretamente em Gaia, junto à A1).

Legalmente, a boa e velha e pasta medicinal Couto passou a ser a nova (e presumo) não menos boa pasta dentífrica Couto, mas penso que ninguém levará a mal se aqui na Lavandaria eu continuar a qualificá-la informalmente como medicinal, certo que entre as preclaras e os preclaros não se conta qualquer zeloso fiscal de Bruxelas pronto a dedodurar-me (1).

 

……………………………………………..

(1) Não hesito um segundo em declarar que este neologismo verbal -  que tem a sua origem no dedo indicador direito acusador espetado em sinal de acusação - constitui uma das mais importantes contribuições que os nossos irmãos do outro lado do Atlântico deram ao desenvolvimento da língua que nos une.

 

música: Blowin' in the wind, Bob Dylan
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

Breve conjectura sobre três sabonetes

 

Há três sabonetes marcantes na minha vida, que foram, por ordem cronológica, o Lux, o Lifebuoy e o Magno.

O Lux, o sabonete que nove em cada dez estrelas usavam (e uma delas era a sex symbol Elisabeth Taylor, estrela do filme Cleópatra que, por causa da cena erótica em que ela saía da banheira/piscina, foi classificado como um espectáculo para Maiores de 16 anos), era o luxo com que eu sonhava quando o que encontrava no lavatório era um cubo agreste de sabão azul, comprado na drogaria da esquina e cortado com perícia pelo senhor Arnaldinho.

O Lifebuoy - com aquele seu intenso aroma a desinfectante que faziam dele uma autêntica bóia de salvação para quem carecia de sabão - foi o sabonete adequado ao meu período trotskista, quando, na companhia do Hugo e do Manuel Resende, fazia regularmente viagens nocturnas e clandestinas a Lisboa, a bordo do VW Carocha branco do Sardo.

Confesso-vos que tenho muitas saudades do cheiro proletário do Lifebuoy, e que só deixei de o usar quando ele desapareceu das prateleiras dos supermercados.

Nas suas apelativas formas arredondadas, o Magno, volumoso e preto, corresponde a uma fase em que passei a valorizar essencialmente a estética do conteúdo – acho que, do ponto de vista da embalagem, este sabonete galego perde em toda a linha para as linhas clássicas e vintage do Lifebuoy.

Agora, que estamos enterrados naquela “crise que só se vive uma vez na vida”, optei pela racionalização o que me atirou de novo para o regaço do Lux, num curioso movimento que parece confirmar a teoria do eterno retorno (apesar de, no entretanto, a Liz Taylor ter naufragado nas ondas de uma boa dúzia da casamentos).

Passei a encarar o sabonete como uma mercadoria, e o Lux é o mais barato: 5,36 euros o quilo. Ninguém precisa de andar com as mãos sujas (o Sartre nunca advogou isso, como o sabem todos os que se aventuram além da capa do livro) quando o pack com quatro sabonetes de 125 grmas se pode adquirir pela módica quantia de 2,68 euros.

Já o Patti, da Ach Brito, com uma embalagem muito querida onde são salientadas a suas propriedades hidratantes, anda pelos 8,90 euros o quilo, mais caro que a queijo raclette da marca Auchan.

Por sua vez, o Dove apresenta-se ao preço exorbitante de 12.50 euros o quilo, três euros a mais que o magnífico camarão português 60/80 vendidos no El Corte Ingles.

Não encontro justificação para o Dove custar bastante mais que o dobro do que o sabonete que era o preferido por nove em cada dez estrelas de Hollywood.

 

música: Invisible ink, Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009

Algumas palavras sobre a valência psicológica e comportamental do espelho da casa de banho

 

“Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”

José Saramago, Ensaio sobre a Cegueira

 

Para o homem moderno, o espelho da casa de banho concentra duas diferentes valências: uma eminentemente utilitária e outra do foro psicológico e comportamental.

Quando estamos a fazer a barba com lâmina, precisamos do espelho para evitar que a nossa cara fique com um aspecto idêntico à do boxeur que perdeu por KO, a meio do oitavo assalto, um combate de nove assaltos.

Se temos uma farta e abundante cabeleira (o que não é manifestamente o meu caso, pois além de estar parcialmente careca, acabo de me submeter a um rigoroso pente dois), o espelho da casa de banho pode ser muito útil no acto de pentear.

No caso das mulheres, o espelho tem todas as condições paar ser  um magnífico aliado na tarefa de evitarem sair para a rua com uma maquilhagem que lhes possibilite serem confundidas com a Paula Rego.

Já no que concerne a últimos acertos dovestuário, como a verificação do estado do nó da gravata, acho que o espelho no quarto, ou até mesmo o do elevador, são mais apropriados.

Mas o espelho da casa de banho pode ser um precioso auxiliar da nossa higiene mental, de acordo com alguns cientistas de renome mundial, como o terapista comportamental Stuart Small.

Small recomenda que aproveitemos todos os momentos em frente ao espelho para repetirmos mentalmente o seguinte mantra:: ”Eu sou muito bom, eu sou muito inteligente e as pessoas gostam muito de mim”.

Para evitar golpes, desaconselho aos preclaros a entrega a este exercício de auto-estima quando têm em curso a delicada operação de fazer a barba.

Acho mais recomendável que o façam quando estão em frente ao espelho da casa de banho a escovar os dentes – ou até mesmo a pentearem-se.

 

música: It's not, Aimee Mann
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Domingo, 25 de Janeiro de 2009

O meu protocolo na hora de desfazer a barba

 

Se na escolha da lâmina não transijo (uso sempre a Gillette Blue II), já no que concerne à marca da espuma da barba devo confessar que nunca fui muito exigente.

Apesar desta atitude idêntica à dos polícias – ou seja de topar a tudo quando se trata da espuma  da barba- , sinto-me da obrigação de revelar a todos os frequentadores desta Lavandaria que a mousse Fujiyama (da Rituals), com aroma a tangerina e menta, me tem deixado tão satisfeito que até encaro seriamente a hipótese de me fidelizar a ela.

Como sou um ferrenho e exclusivo partidário da lâmina, o meu ritual da barba desenrola-se integralmente no interior da casa de banho e em frente ao espelho.

Os adeptos da máquina de barbear podem andar a vagabundear pela casa, levando atrás de si aquele zumbido irritante, enquanto cortam os pêlos da cara.

Para eles, a barba é uma espécie de part time que vão fazendo com alguma displicência, enquanto tomam o pequeno almoço, infernizam a vida aos filhos que teimam em não estar prontos para sair, passam os olhos na página desportiva do jornal ou espreitam a televisão para ver como está o trânsito.

Para nós, os da lâmina, fazer a barba é uma actividade que nos ocupa a tempo inteiro, exige concentração e a presença do espelho, para acompanhar a par e passo a evolução das operações - e de um lavatório para recolher os bocados de espuma com pêlos.

Tenho os passos desta operação completamente mecanizados. E como não tenho segredos para as preclaras e preclaros passo a descrever, com detalhe, o protocolo que sigo para fazer a barba.

Colocado em posição, em tronco nu, esfrego vigorosamente com água fria (estou pronto a conceder que a quente é mais eficaz, mas acho que recorrer a ela é meio abichanado) a superfície que vai ser intervencionada, com o intuito de amolecer os pêlos.

Posta a tampa no fundo da bacia do lavatório e criado o pequeno reservatório de água para limpar a lâmina, há que espalhar a espuma, com parcimónia – não se deve nunca (mas mesmo nunca!) extrair um volume de espuma superior ao tamanho de uma noz.

Concluídos estes preparos, chegou a hora da lâmina. Eu começo sempre pelo lado direito. Primeiro acerto a patilha, depois sigo para a face e o pescoço. Depois repito este procedimento na outra face, antes de atacar a zona nevrálgica do queixo, onde os pêlos são mais densos – e por isso dispuseram de mais tempo para amolecer.

Para o fim, deixo ficar o bigode, opção que não sei se tem a ver com o facto de durante um quarto de século o ter mantido virgem – ou se se deve antes ao facto da zona que bordeja os lábios ser a que exige mais perícia, pois um corte significa sangue que nunca mais acaba.

música: Gimme! Gimme!Gimme! (A man after midnight), Abba
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Sábado, 24 de Janeiro de 2009

A utilidade das tampas das esferográficas Bic na extracção de lixo das unhas e cera dos ouvidos

 

Na conferência de Yalta de Fevereiro de 1945, onde os lideres dos Aliados estiveram entretidos a desenhar o mapa da Europa do pós guerra, Stalin ficou de tal maneira invejoso ao ver Franklin Delano Roosevelt a assinar os acordos com uma esferográfica (uma modernice que ainda não chegara à URSS) que não descansou enquanto não ficou com ela, dando em troca, ao presidente norte-americano, a sua caneta de tinta permanente.

Tenho uma enorme simpatia pela Bic, talvez a marca que melhor soube surfar em cima da onda de um mundo em mudança que sacrificava o durável no altar do descartável.

Depois dos lápis Viarco (ocasionalmente Staedtler, um momento de luxo importado) foram as esferográficas Bic, esfera fina (para uma escrita fina!) e cristal (para um escrita normal!), nas suas quatro cores standard (azul, preta, verde e vermelha) que me acompanharam ao longo de 17 anos de estudo.

As esferográficas Bic, sofreram, em determinada altura, uma concorrência não muito forte das portuguesas Molin e apenas foram secundarizadas pela verdadeira revolução que significou a chegada ao mercado das Futura, que encantou as vanguardas.

O museu nova-iorquino MoMa reconheceu o papel da Bic no século XX ao ter em exposição algumas destas esferográficas com um design magnífico e valências diversas (a ponta da cápsula além de permitir prender a esferográfica ao bolso era frequentemente utilizada, com elevado grau de eficácia na extracção de lixo das unhas e cera dos ouvidos).

A Bic patrocinou ainda uma equipa de ciclismo que disputou durante vários os anos o Tour de France, que venceu pelo menos uma vez, através do espanhol Luis Ocaña. O nosso Joaquim Agostinho chegou a envergar a camisola laranja com uma faixa branca horizontal, da Bic.

Tudo isto me leva a ter uma enorme consideração pela Bic, que como não podia deixar de ser não perdeu a oportunidade para cortar para si uma fatia no mercado crescente e florescente das lâminas de barbear descartáveis.

A lâmina Bic é muito bonita, com a pega e o encaixe protector a laranja. A lâmina Wilkinson desenvolve-se num arco ligeiro e muito elegante. A Schick está mais cheia de tradição que os oceanos de sal. Mas quando chega a hora de cortar os pêlos da cara, a melhor lâmina é, sem sombra de dúvida, a Gillette Blue II. 

música: The name of the game, Abba
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009

Sobre as virtudes do pincel de barba, amígdalas e fraldas como métodos subsidiários ao Carbono 14

 

O carbono 14 é apenas um dos métodos de datação existentes, não é o único. Quando se trata de gerações recentes, há outros métodos que podem ser usados com uma eficácia próxima do infalível – como o método das amígdalas, o das fraldas e o do pincel para a barba.

Para citar um dos exemplos que conheço melhor (eu próprio) há uma geração ainda viva que não tem amígdalas, sendo que a seguinte, a das pessoas sub 49 anos, preserva, na esmagadora maioria dos casos, essa peça do equipamento de origem.

Algures em meados dos anos 60, deve ter-se realizado um congresso médico que mudou o paradigma relativamente às amígdalas e determinou que extrai-las deixava de ser primeira opção, passando a ser o último recurso,  quando se tinha pela frente uma criança a berrar desalmadamente com dores numa garganta obviamente inflamada.

Eu sou um dos últimos representantes da geração amputada de amígdalas. Estou em crer que Sócrates é um dos primeiros exemplares da geração que logrou atravessar a infância e adolescência preservando a integridade das suas amígdalas.

O tipo de fraldas usadas quando eram bebés cava claramente a diferença universitários que concluíram cursos de quatro e cinco anos e a geração de Bolonha.

Os mais velhos, aB (antes de Bolonha)  usaram fraldas de pano, obrigaram os pais a manterem um balde mal cheiroso em casa, e tiveram provavelmente muito mais assaduras nos seus rabinhos do que os dB, que beneficiaram das fraldas descartáveis.

No que concerne ao assunto que está em cima da mesa  - que, não nos esqueçamos, é a barba – a geração sem amígdalas ainda conviveu com o pincel e a compra de lâminas Schick, em bonitas embalagens roxas decoradas com um crocodilo, para abastecer o aparelho de fazer a barba.

Os mais novos, que mantêm as amígdalas, são a geração da espuma de barbear e das lâminas de barbear descartáveis, que todos concordarão, representam uma enorme mudança civilizacional.

 

música: Does your mother know, Abba
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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009

O meu acto falhado de compra, em 1992, de uma máquina de barbear Braun, de bolso e a pilhas

 

Adepto incondicional da lâmina, em toda a minha existência (que decorre, inexoravelmente, há mais de meio século), apenas por uma vez comprei uma máquina de barbear.

Foi num acesso de consumismo puro e duro, algures no ocaso do cavaquismo  (talvez em 1992, o ano em que eu deixei de fumar e a Europa derrubou o que restava das velhas fronteiras, abrindo-se num mercado único)  que ocorreu este acto único, sem mais exemplo.

Tratava-se de uma máquina de barbear Braun de bolso, a pilhas, de tamanho e peso aproximados ao de um maço de SG Filtro, e a sua aquisição obedeceu a um objectivo bem preciso.

À época, ainda não tinha chegado à cara dos homens o ambiente geral de desregulamentação em vigor nestes tempos de enorme incerteza onde se admite tudo, com um notável espírito de tolerância - desde a face rigorosamente escanhoada à Portas (cheira-me que a faz à navalha e no barbeiro) até à barba de padre jesuíta do Pinto da Costa da Morgue, passando pelo bigode do Murteira, de tal forma farto e denso que se ele se descuida a comer um ovo estrelado metade da gema não lhe chega ao aparelho digestivo!

Como a barba de três dias popularizada pelo Mourinho ainda não tinha sido inventada, a etiqueta da apresentação de um jornalista económico do mais influente jornal do pais, implicava, no meu entender, uma cara sem dúvidas nem hesitações – ou bem que se usava barba, ou bem que as faces estavam depiladas. Não havia lugar a meias tintas.

A Braun de bolso foi comprada para integrar um kit de sobrevivência que eu mantive durante alguns anos numa das minhas gavetas do Expresso,  fazendo companhia a uma camisa branca lavada e uma gravata sem nódoas.

A intenção era boa, o procedimento transparente (ou seja, os bolsos do dr Balsemão não foram chamados ao caso), mas o balanço final da operação deixa muito a desejar.

Contam-se pelos dedos da mão de um maneta (ou seja, no máximo cinco) as vezes que usei a máquina, que da última vez que esvaziei gavetas foi para uma caixa de sapatos Ecco, que arrumei debaixo do meu estirador,  onde convive com post its amarelos de tamanhos diversos, elásticos, agrafador e agrafes, um furador, uma base de fita cola, cartões de visita por classificar e pisa papeis diversos.

É triste, mas tenho de concluir que a minha compra de uma máquina de barbear de bolso e a pilhas foi um acto falhado.

 

música: Take a chance on me. Abba
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Quarta-feira, 21 de Janeiro de 2009

Eu sou lâmina!

 

Os homens dividem-se em três grandes grupos: os que usam lâmina, os que preferem a máquina de barbear e, por último, os que a aparam com tesoura. Eu sou lâmina!

Devo dizer que rompi com a tradição familiar vigente na geração anterior a mim, que se converteu incondicionalmente às delícias do desenvolvimento tecnológico - o que é digno de elogio, na justa medida em que revela mentes abertas à mudança e modernidade.

O meu pai era fã da máquina de barbear e o meu tio é da mesma obediência.

Quando uma penugem à Che Guevara começou a despontar na minha cara, experimentei a Philishave (de duas cabeças) do meu pai, mas a experiência não satisfez.

Era tudo mau. Sem ponta por onde se lhe pegasse. Desagradava-me o barulho. O contacto das rodas com a pele trazia-me logo à cabeça a palavra repelente. E, como agravante, irritava-me solenemente o facto de ter de proceder com alguma regularidade a uma metódica limpeza dos pêlos acumulados no interior das cabeças. Era tudo uma enorme chatice. Um pincel!

Por falar em pincel. Apesar de na minha adolescência (que foi mais dura que alguns bifes) me ter convertido à sóbria e tradicional eficácia da lâmina, acho que nunca cheguei a ser proprietário de um pincel. Desde cedo comecei a usar espuma de barbear.

Devem contar-se pelos dedos das mãos e pés de um sujeito não aleijadinho (20 no máximo, portanto) as vezes que, para fabricar uma mistura susceptível de amaciar a barba, misturei creme e água com o auxílio de um pincel que habitava o armário da casa de banho do 2º andar do 304 da avenida Rodrigues de Freitas desde os tempos do meu avô Jaime da Ressurreição Fiel, inspector (fardado) dos picas da Carris do Porto, e que se fez rapaz no tempo em que a bandeira nacional ainda era azul e branca (cores muito bonitas, por sinal).

 

música: Dancing queen, Abba
publicado por Jorge Fiel às 18:08
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Eu ao espelho


Nasci em Maio de 1956 na Maternidade Júlio Dinis. Fiz a primária no Campo 24 de Agosto e o essencial do liceu (concluído entre o Nobre e Gaia) no Alexandre Herculano. Entre os 15 e os 21 anos fui militante da LCI. Li quase tudo que o Marx, o Lenine, o Trotsky e a Rosa Luxemburgo escreveram.
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